segunda-feira, junho 16, 2008

Relâmpago

Uma súbita inspiração e um romance perdido
um
conto
falido
É tão rápido
como palavra mágica
costumo dizer
sou tudo
em intensidade
Sou divindade
Procuro
estar mais perto
o que é?
vislumbro.

Acontece

Acontece o que sempre acontece
Aconteceu aqui, aconteceu lá.
Acontece tudo
Em toda a parte
Eu não percebo
Mas lhe contaram
Acho que sou surdo
Não me acontece, mas aconteço.

Acontece, e se resume a isso?
Uma eterna inquietude?

---

Acontece aqui, acontece lá
Acontece tudo
Em toda a parte
Eu não me dou conta
Estou surdo

A vida se resume a isso
Uma eterna inquietação.

Mãe

Parte I – Exaltação e Depressão


Ah sim!

Acordo leve após vinte anos

Seguro e confortável, após acordar-me.

Uma gostosa conversa de vinte anos

Atrás.

Em cantigas de ninar

Vinte anos eu mergulhava

A densa vastidão da humanidade

Curiosos mistérios inefáveis,

Infantis, bolas de gude.

Hoje,

Não ouço mais cantigas pra embalar

E nem verto mais lágrimas,

se as vertesse, as ferveria para um bom chá.

E cantaria:

"-Aqui jaz um espectro de poeta,

Um pesado perdedor sem vínculos.

As dúvidas existenciais me deixam louco;

São como uma nuvem de mosquitos – e tento de espantá-los

E nessa nuvem

existe uma fada que carrega um pote, de voz bem doce

Que cantava algo assim:

algodão-doce, caramelo! marmelo!"


Parte II – Aos Pais – Dor e Expiação


Há vinte anos disserdes-me:

Obedeça.

Desobedeci.

Arrependi-me.

Prometo que vos amarei

Na distância, ternura e amargura,

Sempre.

Prometo que vos honrarei

No Céu e na Terra

e que vos obedecerei

Em júbilo e contrariedade

Nunca é tarde.

Vosso eterno devedor suplica

A minha angústia leva embora

nas horas de apatia

Não quero cair em desordem

Nem em rebeldia

Fui por vezes muito ingrato

Mas sempre vos amei

E se necessário for

Morrerei por vós

Pais da Terra,

Obrigado.


Parte III – Mãe.


Nos devaneios mais sombrios

Afugentando os mosquitos

Para longe do meu coração

em dúvidas

Encontrei-te

Estava atormentado, ansioso, aflito

Deste-me de beber, pois estava com muita sede.

E prostrei-me, como nunca antes.

Mãe, manhã de orvalho.

Sou teu bebê que ainda balbucia no berço

Sou tua luz tão forte que me aquece!

sábado, junho 14, 2008

Amandinha Vomita

Qual escravo obediente padece;

Seca, débil, abatida, raquítica,
Pele, osso, desfigura fodida
Segue Amandinha, afoita e faminta,
Tirando de sob a cama a comida,
Seu voraz, incontrolável instinto:
Come, devora, orgasma a papila

Degusta coa língua prazer negado,
Júbilo que a caloria reclama,
Felicidade que o espelho rouba,
Contentamento que a balança afana

Mas, passado curtíssimo flagrante,
Qual centelha que de queimada cessa,
O devaneio e o riso, num instante,
Se fazem pranto, se fazem promessa

De que aquela aventura proibida,
Gustativa, obscena, pecaminosa,
Jamais seria, jura, repetida.

É com vagar de ré que se levanta e,
Tal como humílima escrava, que é
Oferece à balança, ao espelho
‒ Senhores do engenho do corpo ‒,
O sacrifício que já lhe é velho:

Força contra a goela dedos-ossos,
Engasga e descarta, com bolos grossos
De alimento, doses diárias de
Seu sorriso, sua alma, sua vida.

segunda-feira, junho 09, 2008

guerra fria


você fica feliz quando seus filhos voltam da escola ?
você sofre nas longas noites longe de sua família ?
você conta cada segundo do seu trabalho até poder voltar pra casa e ver os entes que tanto ama ?
você dá beijo de boa noite nos seus filhos ante deles dormirem ?
você regozija ao ver suas crianças brincando sorridentes por ai ?
você se sente o homem mais feliz da face da terra quando vê a sua amada ?
você já sentiu o imenso prazer que é passar um domigo de sol em casa com a familia ?
você ama sua mãe ?
então não aperte este botão

Louco é

Louco é louco, louco é mouro, solto, roto, rato, todo o sacro, saco de pancadas.
Fraco é sempre louco, rouco está meu pescoço, o forte de todo louco.
Todo maluco é querer ser enorme, disforme, diferente.

Todo idiota quer um agiota que lhe roube o fundo,
O fundo do seu mundo.

Fraco é sempre louco porque louco é sempre um marco,
Cansa o imóvel, insensível corpo.

"Dizem que sou louco por pensar assim.
Se eu sou muito louco por eu ser feliz,
Mas louco é quem me diz.
E não é feliz, não é feliz."
Balada de Louco, Os Mutantes, na voz de Sérgio Dias.

sábado, junho 07, 2008

Escrever minimamente sobre o contexto que pouco refresca

Escrevo pouco,
Sou o refresco.

Escrevo mínimo,
Sou o contexto.

Mínimo refresco e
Pouco contexto.

sexta-feira, junho 06, 2008

Versos à solta!

Procura-se versos fugitivos
Estrofados, escansionados, livres, de qualquer jeito
Recompensa: R$POESIA,00

Família Real

A mesa toda cheia
De comida e cadeiras apenas
Todos vêem a janta
Na real novela

Todos estão na televisão
E a família jaz
Na mesa virtual

Só vêem o que está longe
E sentem o sofá próximo

Jaz a família virtual
www.estr3lad4lvadesponta.com.br

até a vios

Invenção Psicomorfotrópica de Mulher

Estive enferma por dois flebótomos
Que mistificaram minhas pernas
Construíram varizes, fístulas hilárias
Contrataram horrores divinas filárias

E pulsava a vulva vívida,
depreciativa luva bífida
Incidindo seus filetes suprarenais
Adjacência de corticóides
E eu com um asco estranho
Mas que vontade de lamber!

Que jovem fartura, desfigurada
Balançando ávida na maca
exibindo as hemorróidas
carcinomas uterinos, sarcomas da endocérvice
cistos ovarianos, líquen labial
numa posição vil à la papanicolaou

Sou a Deusa do Abscesso
vulvovaginite em excesso
e tudo o que preciso ó Doutor
são dois comprimidos pra dor.

quinta-feira, junho 05, 2008

Aquilae Volant

o esplendor de suas envergaduras
ofuscam-me os olhos
quuando os volto para o céu
observando os grandes borrões
majestosos

voem reis predadores
voltem para seus ninhos
com alimento ao dispor

voem aves magnânimas
carregando proeza em seus bicos
incautas
serão depenadas (?)

"post nubila, iternum"

quarta-feira, junho 04, 2008

Informação

Sabia que

sábado, maio 31, 2008

Há dor nos casados...

Já eu, fiz o que no mínimo deveria ter feito:
Levei-te flores, lembrando quando existias;
Levei-te flores depois dos pavorosos dias,
Levei-te flores e condolências, todos seus direitos.

Não foi minha culpa se estavas de fronte a mim,
Estoquei minha adaga, sangrou-te líquido carmim,
Caíste no chão em brados roucos, polvorosa,
Vi tornar-se branca a face linda de outrora rosa.

É uma pena despedir-me de você de jeito tão cruel,
Minha paixão perdida, de jeito afável e doce como o mel;
Agora nada mais és, visto que se encontras em sepultura,
És minha musa morta cujo corpo repousa em inerte friúra.

domingo, maio 25, 2008

Adornos Casados

Dei flores para decorar nossos encontros,
Dei adornos em cores, elas murcharam horrores.

Hoje tateio suas pétalas,
Saboreio todos nossos namoros,
Degusto fotografias, caligrafias
Dos nossos filhos, sépalas da
Vida.

quinta-feira, maio 22, 2008

O sabor do saber

Dois artigos presentes na edição de sexta-feira (18) do jornal A Notícia propõem uma importante reflexão sobre a forma como nós, seres humanos, temos vivido em sociedade nesse início de século XXI. A influência midiática sobre a vida e o comportamento humano, proposta pela acadêmica Marilene Anacleto, e o ritmo de vida apressado que levamos, exposto pelo articulista Apolinário Ternes, oportunizam um pensar mais atento ao humano que existe em cada um de nós e à forma como somos levados a nos comportar diariamente.
Tudo é tão rápido e dura tão pouco. Vomitam-se lançamentos de produtos, seja de qual linha, estilo, ou utilidade for. Um detalhezinho altera o preço do produto e joga o recém-lançado na vala do ultrapassado. Consome-se muito em tempo recorde. Não se digere nada. Tem-se não para usufruimento próprio, mas para apreciação coletiva. A imagem vista aos olhos de outrem é a mais importante de se preservar. O interno perde espaço para o externo. A vida particular escancara as portas para o “Grande irmão” sempre presente. Não se pode ficar de fora do padrão social: beleza, pertences, saberes.
Vivemos em uma sociedade anoréxica. Não é só a comida regurgitada visando a um padrão de beleza. Regurgitam-se sentimentos e notícias. Ficamos com um aqui, com um outro ali. Um morre aqui e é anunciado no jornal, o outro é preso com drogas no bolso, e amanhã ninguém mais se lembra de nada. Já temos novos “ficantes”, novos mortos para não fazer diferença, novos presos para serem soltos.
O saber é regurgitado também. Não tem sabor este saber do qual fingimos fazer uso. Não há como bem fazer uso do mesmo. Em tão poucos minutos ele já está defasado. Tudo é simplificado para rápida absorção. Saber podre. Saber que, digerido, torna-se rapidamente escasso.
Há necessidade de se sentir o sabor do saber. Há necessidade de se degustar cada palavra apreendida, cada significado incorporado, cada sentimento correndo a pele. Caso contrário, a fugacidade do viver continuará ditando seu impiedoso ritmo, comprometendo, com isso, nossa rara sensibilidade, e nossa capacidade de apreender.
Saborear o saber aos poucos, eis o caminho nessa falsa fome de cultura. Um livro pode oferecer isto. Um poema também pode. Uma imagem, mais ainda, uma vez que as cores atraem muito mais do que o preto e branco das palavras e do papel. O ato de ler, independentemente do que se lê, é um caminho frutífero em possibilidades para esse enriquecimento gustativo e cultural.
O ser humano, ao fazer uso constante da leitura, passa, com o tempo de prática, a desenvolver em si virtudes e aptidões conscientes, tudo isso pelo fato de que, ao adotar a leitura como atividade de prática constante em sua vida, ele, ser humano, passa a melhor conhecer-se e a compreender-se, assim como a compreender o mundo e o que realmente quer significar esse ato de ler que ele pratica. Compreensão é fruto de leitura, assim como consciência crítica. Elementos indissociáveis; alimentos do espírito para o humano.
Bom apetite para nós.
_______________
Artigo publicado no jornal A Notícia de 22-05-08, p. 11
Í.ta**

terça-feira, maio 20, 2008

Um Mosqueteiro

Um por todos
E todos por nenhum.

(nem um, nenhum de nós)

sábado, maio 17, 2008

Um e Todos

Todos os textos possíveis vivem em mim, transbordam da minha pele, todos as interpretações estão ao alcance de uma caneta, também podendo desaparecer diane da borracha.

terça-feira, maio 13, 2008

Sobre Filosofia Barata

Falam dos filósofos picaretas, das caretas descontentes com o pensar que parece não agir, dos tenentes do fazer acontecer, os falsos moralistas. Blasfemam contra a filosofia de boteco.

Não questionam a matemática de botequim, que erram cálculos e geram aberrações, deformações provadas, alucinações. Não questionam a biologia bêbada, das mutações pernetas, ou a química drogada, jogada nos vãos das baratas. Não falam do jornalismo tonto, dos advogados bobos e fáceis, dos juízes retráteis, corruptos incuráveis.

Não reparam no administrador ambicioso, um imbecil irresponsável, um controlador irrecuperável.
Não falam do médico que é comerciante, nada atuante.

Sequer questionam as estatísticas do especialista contorcido em mentiras. Não contam e sequer reparam nas indagações do economista, palpiteiro do dinheiro sujo inventado, inflacionado e dito como fundamental.

Por fim, resta o político mal-educado, justificado por condição precária e discurso que parece dente com cárie. Falemos sobre os podres do filósofo, então?

domingo, maio 11, 2008

Ressalto que...

O salto do Reinaldo se comparou ao alto pico da montanha, mico da semana, pois resultou em queda desumana, fenda no penhasco, fraturas no cascalho.

Ressalto que houve um salto em um mato que precede de ladeira, espaço na derradeira decadência, na morte certeira.

domingo, maio 04, 2008

O dia.

Há de me chegar o dia
Em que me falte de tudo
Falta de ar
Falta de dados
Falta de senso...

Faltou alguma coisa
Algo insincero
espremido

sábado, maio 03, 2008

Amedrontar

O medo corrompeu a alma,
Subjugou seu mundo em vão,
Submeteu seu corpo à calma
Caótica do além-limite da razão.

O medo murchou seu coração,
Secou sua vontade-essência;
O corpo agora é violência
Em elevado estado de putrefação.

Observa-se o verme corroendo,
Aquilo que outrora foi um osso,
Agora já não passa de um esboço
Do ser de medo, do despiciendo.

Carne amedrontada apodrecendo
Que ainda assim possui sopro de vida,
Múmia se remexendo na jazida?
Estremecimento visceral estupendo!

Pequeno amarelado sentimento
Que cobre esta alma desgraçada,
Mutila, zurze com vil contentamento
O dono desta alma condenada...

sexta-feira, maio 02, 2008

Não

No sonho
A nebulosa multidão dos medos
Sufocam as paixões mundanas
Que evadem a imensidão incontável de janelas

Sufocação
Agonia
A fala sem razão se confunde com a não fala
A falta de planos, de realização dos planos.

O plano

Necessidade de ação, de quebra
Busca do futuro
Construção
Caminho

NÃO!

Inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia...

Órfão

Todos vamos ficar sozinhos, um dia,
Não falo isso em estado péssimo, faço melodia,
Estou refletindo um fato, uma filosofia
Que se confere com dados.

Os órfãos de nome já a vivem
E nós viveremos com a partida dos pais,
Os órfãos choram ou coram,
Os filhos hão de se lamentar, o cais
Se enche na partida deles,
Os pais.

Para alguns, o tempo nunca veio,
Para outros, o tempo já passou,
Para quem vive, resta o receio,
Para quem viveu, o bom foi passageiro.


Mas os momentos são eternos,
Basta ver e crer,
Os serenos são sinceros.

Mas há esse medo. Medos.

quinta-feira, maio 01, 2008

Vê o Sol!

Vê o Sol!

dia após horizonte
vasta trilha brilhante
acordam casas e casas
em abismal cadência
infinitas visitas
com um só olhar...

quando a alvorada resplandece
nas montanhas geladas do Alaska
ou das dunas áridas do Saara
o fulgor amarelo traz calor e luz
para os lares do mundo

sul e norte
Vê o Sol!

Comecemos...

Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer o convite que me foi feito pelo mais, muito mais, que grande amigo Pedro para participar desse verdadeiro encontro de lindas palavras, e não me refiro a padrões estéticos mas sim em qualidade literária, e ressaltar que me sinto muito honrada.
Em segundo, justifico minha relutância em participar deste grupo por achar que a capacidade deste belo grupo está muito além das minhas, pois não passo de uma relutante amadora na arte de escrever.
Porém agora que muito bem persuadida por este ser fantástico que eu tanto admiro, espero poder contribuir de alguma forma com este incrível acervo do qual sou fanática leitora.
Agradeço a todos por me acolherem entre vocês, espero que minha participação possa contribuir em algo.
Gostaria de iniciá-la com algo inédito, mas infelizmente meu computador não ajudou apagando por duas vezes poesias recem escritas, portando vou postar algo já antigo que no entando tem forte significado pra mim.


Empirismo no Vácuo

Meus passos rápidos

Devaneios

Fantasias

Pensamentos apenas


Objetos figurados

Sonhos toques

Cheiros

Misturando fantasia e realidade

A minha vida como um passeio lunar


E como tudo que existe

Vejo o tempo passar

Com a certeza de que não retrocede

E a sabedoria de não tentar pará-lo.


Viver as viagens do vento

Os sorrisos do sol

As lágrimas da chuva

O sonho das flores

Ao sentir cada um deles tocando a minha pele


E a minha falsa realidade tão natural

Mostra o quanto falo em passos falsos pelo mundo


E a as minhas lutas únicas

Solitárias

São minha alma

Se não houvesse a crença

Estaria vazia

Só, dentro de meu próprio vácuo.


Novamente obrigada.
E você meu amigo, te amo.

quarta-feira, abril 30, 2008

Águas da Musa

Muda Musa maravilhada outrora
De memórias amorosas vividas
Em um não sei o porquê escondidas
De toda sufocada fez-se aurora:

Vagando em momentos a mente estoura
A imaginar futuro deslumbrante
Que sentem a vida contagiante
De mudar uma vontade estouva

Ruidosas as águas da inspiração
Cantam um sublime momento a Musa,
E inundam os pensamentos caóticos

Fazendo-se em turbilhão de emoção
Que sentem contagiante uma vida
Renovar-se em palavras esquecidas

quinta-feira, abril 24, 2008

O escrever: por e para mim

Escrever é dar a cara a tapa.
E se hoje (elemento dêitico temporal para especificar o momento dessas observações) escrevo é por timidez, porque meu ser me impede de expressar através da fala, com um mínimo de desenvoltura, o que penso e sinto.
Hoje escrevo porque, de tanto e tanto ler tantas e tantas coisas maravilhosas (e quantas ainda por vir!), desenvolvi em mim a pretensão de achar que através de minhas palavras as pessoas também poderiam se sentir tocadas, seja se encontrando em meus rabiscos, seja desenvolvendo uma antipatia pelos mesmos (e conseqüentemente por mim).
Hoje escrevo porque entre desenhos, informática, números, jogar bola, ou qualquer outra coisa, nada me agrada mais do que escrever (com exceção de ler).E também porque todo o processo de início de um texto, de uma frase, ou a escolha de uma palavra, fascina-me. O trabalho de penso inserido nessa prática alimenta-me.Escrevo porque dói, e porque essa dor é minha fuga. Escrevo para me contradizer e porque ainda não encontrei melhor forma de solidão.
Escrever é enfiar as mãos em um fundo escuro, por ora quieto, com agulhas bem posicionadas em pontos estratégicos. É confrontar esse escuro-quieto-tranquilo com uma claridade imensamente forte e voraz, denominada realidade, oposta à ilusão de se imaginar o que não se é.
Í.ta** - pensando e escrevendo. pensando o escrever.

terça-feira, abril 22, 2008

uma dica:



não ame seu pais
porque ele foi uma invenção arbitrária
não ame sua pátria
porque ela foi inventada sem motivo
não ame sua bandeira
porque ela não passa de um pedaço de pano
não ame sua terra
porque ela não passa de pó
não ame seu governo,
porque ele jamais foi digno
ame apenas seu povo
porque,
bem ou mal,
familia é familia

domingo, abril 20, 2008

uma inocente pretensão

quando viro do avesso
tão fundo, profundo
vejo-me assim
quebrando todos os
objetos
atirando todos os fragmentos
em um lugar que não existe

caótico, colérico
perverso até demais
parido ao contrário
debaixo d'uma maldição materna

não escondo meu sorriso
as minhas desculpas
não escaparão
meu esgar culpado
traz marcado
a prova da competência

há algo alem desta urbe
que me segura
quando o descontrole não responde
quem está no volante?
se você me forçar
acho que vou saltar do terraço

e cair num toldo

sou um surdo pastor de ovelhas
um áugure desafortunado
que vigia o rebanho a pastar
e atenta aos outros
com palavras de destruição

é melhor você não falar
se veio aqui pela resposta
deixarei-te na penumbra
fria como a praga que te aguarda

antes digno de graça
pernicioso me tornei
com tão brutal semântica
atravessada na garganta

com um sorriso mais do que frenético
não escondo minhas mãos cheias de culpa
meus pecados
não irão embora

sou a atormentada cria eterna
sob uma maldição materna.

Escreva sempre

Escreva sempre, escreva sempre, escreva sempre, escreva para sempre, escreva como sempre, escreva para o sempre, escravo do sempre, escravo do ventre, inscreva no ventre, instrua sempre, informatize sempre, fadiga sempre, escreva no século XXI, escreva no real, escreva coisa banal, escreva sempre, escreva sem precisar, escreva por precisar, escrever é preciso, viver sempre, viver sem pretensão, escrever sem pretensão, é preciso não ter pretensão, escrever precisa a vida.

Poesia em três passos

Primeiramente, queira mudar o mundo
E não saiba como, se perca como um todo,
Cultue a vadiagem.

Em segundo lugar, transforme o ócio
Em semente do ódio, em carvalho
Moralista, em metáfora naturalista,
Cultive a imaginação, a curtição,
A utilização.

Finalmente, mexa os ingredientes,
Erre nos textos, mude os terços,
Faça versos vazios e certeiros,
Faça versos cheios e pequenos,
Não se preocupe com alheios,
Observe o cosmo nesses olhos,
A luneta dos homens cheios.

Crises Estomacais/Intestinais.

O verdadeiro Cavalo de Tróia trafega
No embaraçoso e serpentado caminho
Do meu intestino delgado.

O estômago contrai, o corpo
Esterlizia seus dejetos
Em um vaso oval, trajetos
Que vão ser descartados.

Esse presente de grego
É um desespero, um emprego
Pra masoquista, uma oportunidade
Às palavras entaladas, palavrões.

Fôlego

Tenho uma professora bastante especial, que analisa, de forma conceitual, tudo o que é escrito.
Ela já foi escritora, já foi pensadora de seu ideal, foi reflexo do seu olhar mais sincero e concreto.
Hoje ela diz que tudo o que produz é descartado, que a teoria suprime seu gosto criativo.

Eu, ao contrário, prefiro manter as produções, pretendo renascer a cada segundo, com várias dores, vários cortes profundos.

E ser o que eu sempre quis, ou, ao menos, se atirar pelo ar.

Até o pulmão estourar.

quarta-feira, abril 16, 2008

Vento no litoral

O retrato da dor causada por uma partida repentina, para o sempre. O fim de um relacionamento. O desequilíbrio emocional de Renato Russo. De repente, Robert Scott, a grande paixão (ou amor seria melhor?) da vida de Renato, vai embora do Rio de Janeiro, do apartamento em que ambos moravam, para nunca mais voltar. Sem justificar-se de nada. Apenas a ação de ir. E no líder da Legião Urbana fica um profundo corte a perfurar-lhe o coração, o corpo e a alma, chamado perda.
Renato sabia que nesse mundo ninguém é dono de ninguém (ao menos não deve ser). Não se considerava dono de Scott – rapaz a quem conhecera em uma de suas passagens por Nova Yorque – nem se via como servo do mesmo. A perda sentida não era de Scott, enquanto corpo, enquanto homem. A dor relacionava-se ao amor interrompido bruscamente, aos sentimentos únicos vividos entre os dois, nos rápidos dois anos em que viveram juntos no RJ. A dilacerante perda era de duas almas que longe uma da outra pouco provável sobreviveriam; Renato sentia isso.
Será Scott não se considerava merecedor de um amor tão intenso e profundo quanto o que Renato sentia por ele? Será Scott não sentia poder contribuir a tanto amor? Não sentir com a mesma intensidade? E por isso preferiu partir, como forma de respeito ao sentimento puro de Renato? Será havia se esgotado em Scott aquela paixão que os unira? Nada se sabe. Apenas ficou o registro do quanto esse sentimento chamado saudade, aliado à dor, tomou conta do ser de Renato Russo, dilacerando-o com rapidez, num mesmo passo em que ele sentiu que deveria erguer-se e aprender a viver com essa faca pontuda dentro de si, fazendo o possível para não se deixar ferir demais por ela.
É o que fica claro nos versos de Vento no litoral. O desejo de deixar-se ir, “Eu deixo a onda me acertar / E o vento vai levando tudo embora”, e a sapiência de que se deve ficar: “Quando vejo o mar / Existe algo que diz: / - A vida continua e se entregar é uma bobagem”. A dor da perda de tudo o que se viveu e planejou junto, a ciência de que aquele sentimento não mais seria vivido, e o quanto seria doloroso seguir em frente somente com a lembrança do que um dia sentiu-se na prática, Renato demonstra ao cantar “Dos nossos planos é que tenho mais saudade / Quando olhávamos juntos na mesma direção (...) Agimos certo sem querer / Foi só o tempo que errou / Vai ser difícil sem você”.
O poeta apresenta o quanto o sentimento por Scott permaneceria consigo até o último dia de sua vida, e que jamais seria possível apagar as marcas que ficaram no seu ser. Canta ele “Aonde está você agora / Além de aqui dentro de mim? (...) Porque você está comigo o tempo todo”. Ao mesmo tempo sabia que se erguer era fundamental. Seguir em frente por si e por quem, segundo o mesmo dizia, era a verdadeira Legião Urbana: o público, os fãs. A consciência de que, apesar de toda a dor a cortar-lhe a alma a fundo, ele teria que, a partir daquela ruptura brusca, viver por si mesmo, sentir-se bem consigo mesmo, está expressa nos versos: “Já que você não está aqui / O que posso fazer é cuidar de mim / Quero ser feliz ao menos / Lembra que o plano era ficarmos bem?”.
Renato parecia saber que através da escrita de seus versos e das composições das músicas da banda ele poderia ajudar-se a superar tal perda. É o que demonstra ao cantar “Sei que faço isso pra esquecer”, este isso em referência ao processo de produção dos versos e da música, momento em que o poeta sentia que valeria a pena seguir em frente.
Vento no litoral é uma das mais belas músicas escritas e cantadas por Renato Russo. Pouco mais de cinco minutos de duração que levam um ouvinte sensível a sentir-se sob as pedras lisas de um mar agitado, sendo levado pelas ondas, acompanhado pela ajuda do vento, tirando de si as marcas indeléveis que uma paixão interrompida causara. Num mesmo instante em que se pode visualizar o movimento das ondas trazendo de volta à beira da praia o mesmo ser anteriormente engolido, agora já mais leve, sem tal faca cortante dentro de si chamada saudade, e pronto para seguir em frente por si mesmo, relembrando com carinho e respeito o que um dia tornara-se amor vivido na prática.
Na versão ao vivo da música, no disco Como É Que Se Diz Eu Te Amo, Renato diz: "Eu cheguei à conclusão de que se o amor é verdadeiro não existe sofrimento, senão fica um cara doente como o cara dessa música agora", e começa a cantar os versos de Vento no litoral. A consciência do estado no qual ele ficara com a partida para sempre de Scott. O reflexo principal do fim desse amor, no autor dos versos dessa música, é o ceticismo que passou a tomar conta dele no que se refere a um possível amor verdadeiro nessa vida terrena.
Uma obra prima de alguém que sempre deixará nos seus eternos admiradores esse mesmo sentimento que o consumiu por certo tempo: saudade.

Í.ta**

domingo, abril 13, 2008

Cabelereira Crespa

Crespice, que chatice
Aos olhos alheios,
Aos comentários pentelhos.

Chapinha tá na moda,
Carequice, apesar do frio,
Dá e sobra.

Sou de cabelo retrógrado,
Com pão sou Jesus alado,
Com guitarra sou róquenrou
Irado.

sexta-feira, abril 11, 2008

Jornal

http://boladafoca.blogspot.com/

Não, não é poesia e nem literatura.

Abelha Rainha

Abelha-Rainha

o que perscruta a mente insana
que redime a mente sã?

era uma pérfida abelha-rainha
perdida nas austeras horas
daquela longa e devassa noite
voava pelos becos escuros
a bisbilhotar prostíbulos
ferretreando proxenetas
enlouquecendo as mulheres
que exercitavam as (...?)

desenhava ganchos em linha
na parede das passagens
perscrutando à luz de velas
um labirinto de esfarrapados
perfura gargantas incômodas
despedaçando insolências

e de vão em vão
estalava o ferrão
mas por inexata
razão
com a violência de um peteleco
despedaçada foi-se então.

sinto falta do zunzum
das asinhas agitadas
enxeridas e afiadas
acho que tornei-me
mais um daqueles.

o que perscruta a mente má
que redime a mente vã?

Realidade insana

Da cruel insanidade mental
povoada pela limitada lógica,
emergem as destruidoras dúvidas,
que aquela realidade circundam.

De nós nunca antes desmatados,
agride à loucura humana
aquela força toda interna,
que a vida externa não explica.

E a coexistência de dois mundos;
o dele, que a consciência fere,
e o dela, que chora a verdade;

jamais um elo constituem
até que aquele desapareça
no complexo infinito do outro.

segunda-feira, abril 07, 2008

Tentação do Não-Conseguir

A tentação do não-conseguir
Não é o desespero, este
Ao contrário do que se possa ouvir
Não é o não-esperar.

Impregna nossa mente, uma peste
Com pensamentos desconexos:
Vermelhos, azuis, homicidas...

De fogo e substância ácida
Com inúmeros venenos anexos
Vontade de ferro, de vagar.

Vontade de apagar,
Apagar-se ao desespero,
Desespero é escuridão,
Obscura voz muda em vão
Que grita atroadora
E nada e ninguém toca...

É como um oboé quebrado
Em ver sos li vre s,
Que esganiça as notas
À aguda baforada de seu musicista
Não é o desespero, sua música
É a música sua conquista...

Mas o desespero recorrente
Senóide...
São palavras descontentes
Sentimentalóides...
Palavras não pertinentes
Implausíveis...
Impossíveis...
Inacessíveis...
Irreconhecíveis...
Decibéis infinitos soprados ao além
Vociferações mortas vistas por ninguém.

É a sala escura e o desespero plangente,
O momento triste de se virar gente
E deixar o mundo de Alice no lado escuro da Lua;
Hora de vagar, de ir enfim pra rua...
(E não conseguir
N'infinito porvir
D'incessante fracassar)

domingo, abril 06, 2008

Blasé

Biquinho pro lado,
Feições do vaso,
Vernizadas e maleáveis
Como papel almaço.

Tudo se fala,
Pouco se resvala,
Pouco revela.

Reticência armada,
Ares de cilada
Perseguem a cena
Filmada e, teoricamente,
Falada.

Não ter um porquê,
Ver a pomba no fio do poste,
Uma velha sem laquê
Apavorada com diversões
E porre leve de champanhe.

Blasé, saber para quê?
Espere outro anoitecer que vaporize os ares
E venha me dizer histórias, os lares
De quem fez muito,
Ou de quem se omitiu e foi inútil.

Beicinho pra frente,
Cara de quem entende
E o jeito idiota, de repente.

Borboleta Amarela

És uma borboleta
Que apenas voa
Mas nunca passa

És em contraste linda
Na liberdade amarela
E na sombra voa
E na névoa passa

É de toda bela
Essa borboleta que voa
Mas nunca passa

sábado, março 29, 2008

Declarações de amor

É o velho duelo entre a prática e a teoria. Uns gostam de palavras melosas, canções de corno, canções sensíveis, transtornos emocionais, histeria, calmaria, correções pessoais, transfiguração, inversão de papeis e, principalmente, atuação. Outros preferem a falta de texto, as internas inexplicáveis, os silêncios intermináveis, os atos inacabáveis, preferem terminar, dar um tempo e voltar, ondulam como ondas, sussuram em conchas.

Aos práticos, digo que existe um texto. Não interessa se você não gosta de palavras, a letra nem precisaria existir para haver um texto. O código é o fundamento disso e a codificação se faz pela necessidade alheia de atenção. Há um observador e um curador, um arauto do seu segredo que, paradoxalmente, nunca o saberá por completo, seja seu amor ou seu leitor.

Aos teóricos, peço que provem o gosto da saliva, a sina dos amantes inconsoláveis. Não é nojento como falam, é combustível dos mais renováveis. É uma consumação de magia, uma religião da sacristia dos pagãos.

quinta-feira, março 27, 2008

Vida escolar

Alguns estudam e notam uma realidade que não esperam. Alguns estudam e se fecham em uma crosta, em um canto sem alma, em frios hábitos, com lábios frios e parede umedecida. Alguns estudam e se entusiasmam demais, falam demais, sorriem demais, são a demasia, sem negação e nem introversão. Alguns não estudam. Alguns jamais estudaram.

A escola de uns é uma etapa. E a etapa de outros é a escola de muitos.

domingo, março 23, 2008

trecho 5.

Em uma parede escura
num castelo muito antigo
há uma pintura que deveria ter sido bela
porque as pessoas não param de olhar para ela
e sentar-se ao redor
para ouvir histórias

essa pintura está muito feia
gasta pelo tempo
muito velha
a minha mãe não iria deixar que eu a trouxesse pra pendurar em casa

o artista pintou um Cristo
de braços estendidos
todo espasmos
sofrendo o martírio mais cruel da época

A dor era grande, mas Cristo sorria
e contava muitas histórias para quem chegava ali
alguns adormeciam embalados no torpor
e outros escutavam vidrados - ou desconfiados

e enquanto eu ouvia

via vultos arrastando-se como traças
ao redor do corpo de Cristo na parede escura
ladeado por seus pobres apóstolos feitos de pastel
e sua mãe que pranteava inconsolada com a perda
a angústia eternizada em seu rosto lacrimoso
exultantemente devorado por um verme
que encontrou uma iguaria excepcional

que mistério doloroso na história sobre a cruz!

os buracos, segundo me disseram
deixaram de ser furos há séculos
são grosseiros rombos sem remendos.

eu visitei o quadro na parede escura
querendo afastar uma dúvida
que sufocava meu coração
e Cristo disse-me assim:
-volto em 3 dias, qualquer coisa deixe seu recado com Maria Madalena.
Aí fiquei puto da vida. Respondi assim:
olha, Sr. Cristo, eu prefiro que o senhor volte com uma história melhor...





Feliz Páscoa pra vcs :D

sexta-feira, março 21, 2008

Somente esta

De mil palavras pensadas,
do grande mar de espinhos,
como ondas que vão e voltam;
como o retorno do mar
que prenuncia a tsunami.

Os versos ferem meu dia
que fica assim, todo
difuso. Ferem no ônibus,
ferem numa conversa,
numa caminhada, numa leitura.

E tudo se esvai, some.
Desaparece no mar infindo
das palavras de um
poeta, que não pode a
todas contemplar e atender.

Borboletas e pássaros
pedem a voz em
linhas estreitas.
E voam expulsos
pelo exagerado tempo.

Que esperem as vis
palavras, diante das
eternas idéias! Pois
em linhas tão estreitas,
somente esta entrou.

domingo, março 16, 2008

Olhares atentos para o mundo que transborda de si

No livro que mandou a mim, o poeta e cronista Rubens da Cunha agradeceu minhas leituras sempre atentas para seus olhares sobre o mundo. Olhares tão bem registrados pelas palavras. Retratos da consciência, que em seus escritos Rubens demonstra ter, de ser um sujeito imerso numa realidade mundano-social aprisionadora do próprio ser humano, da qual tenta ao máximo extrair algo que o alimente, que se junte aos alimentos diários da leitura e da escrita, ou que sirva de alimento para um desses dois “vícios” que apresenta ter. O escritor de Aço e Nada, livro recém lançado pela Design Editora, é um sujeito dividido em diversos modos de ser/pensar/agir, presentes em diferentes crônicas-quase-contos do livro, que se complementam num só.
Após dois livros de poesia publicados, Campo Avesso (2001, Letra d´água) e Casa de paragens (2006, Editora da UFSC), o escritor de Joinville (SC) divulgou sua produção em outro gênero literário, o da crônica, e lançou um livro com algumas das que escreveu entre fevereiro de 2004 e março de 2007 para o caderno Anexo, do jornal A Notícia, onde publica todas as quartas-feiras.
Para mim, e creio que para muitos outros leitores, são releituras a se fazer das crônicas presentes no livro. Ora mais densas, ora mais suaves, ora críticas ora não, ora mais poéticas ora mais objetivas em determinados assuntos, ora também quase-contos, transbordando sensibilidade e poesia, as crônicas foram separadas no livro em quatro diferentes partes, com as últimas crônicas de cada parte dando nome à mesma correspondente: Os animais dentro, Olho vigiador, O corpo da gratidão, O morador das palavras, que bem estariam encaixadas se não houvesse divisão, uma vez que a escrita em si do autor apresenta um traço muito bem caracterizado, sendo possível reconhecê-la à distância, encontrá-la, por exemplo, nos poemas-aço que formam sua Casa de paragens: nos cômodos da sua casa-corpo, nos mínimos detalhes da natureza, e nos animais-moradores-de-seu-corpo: na dor corpórea da alma; na fragilidade de ser humano.
Um olhar sempre constante nas crônicas do livro (e também nos poemas do Casa) dirige-se aos animais. Estão eles dentro do escritor Rubens, ao redor, nos olhares, nos sonhos, na memória. As crônicas de Os animais dentro trazem um pouco dessa relação, assim como duas outras crônicas, localizadas em outros compartimentos do livro, como a crônica “Antologia”, presente junto às crônicas de O morador de palavras, na qual Rubens afirma serem os animais “poemas de Deus”, e os compara brilhantemente a diferentes formas de poemas: a borboleta é o hai-kai, “mínimo e preciso”; o cavalo é o soneto, “a elegância poética”; o tigre, poema perfeito, sendo “Um tigre preso num zoológico, ou circo qualquer, o poema de arrependimento de Deus por ter escrito o homem”.
Também, a crônica “Os observadores”, localizada junto às crônicas em O corpo da gratidão, em que o cronista afirma falar muito dos animais em seus textos: “são imagens recorrentes, já que ainda não descobri elementos mais poético na natureza e mais propício às buscas metafóricas que pratico”.
Ainda, nas crônicas de Os animais dentro pode-se encantar com outros modos de ser animal, com o ser humano e suas formas de pensar, sentir e agir. O encantamento que se tem com Miguel, o menino que fugiu com o vento; com a solidão, abandonada em um sapato qualquer estirado sobre o asfalto; com o retrato descrito do Rubens que se era e do Rubens que se é, pouco diferente por fora, corroído pelo tempo-humano por dentro, um homem do seu tempo, mas carregando uma alma ancestral ao caos moderno; com a mulher que se salga por dentro para se libertar e com a que goza ao cheirar as pedras que separam as praias de Itaguaçu e Ubatuba; com a mulher-fortaleza derrubada pela paixão; com o menino envolvido em seu universo, “um barranco cheio de buracos mais argila”; com o cão no ponto de ônibus, perturbando a rotina do homem; e com Dona Ernestina, a poeta que “não cresceu e por isso ficou maior que tudo”, a poeta que sopra hai-kai como “por entre as nuvens, o sol caiu no lago, saiu molhado”
Nas crônicas de Olho vigiador, Rubens da Cunha apresenta seus olhares “adestrados na busca de pequenos absurdos humanos”. Olhares atentos para os habitantes e para a sua, até o momento, casa de paragem, cidade na qual nasceu e em que vive. Os chapas, “fantasmas diurnos”, uma vendedora de cocadas, com “a fome atravessada nos olhos”, o malabarista, que “finge o tropeço, finge o riso, finge o agradecimento”, o jovem que “quer trocar 1 Real por duas canetas”, os “indiferentes na indiferença urbana”: “Há neles agonias impossíveis às palavras”.
Pela cidade também que o Rubens cronista busca o assunto para suas crônicas semanais. Nas manhãs de domingo, em que “tudo que é normal dorme, tudo que é banal está fechado”, nas pessoas por quem passa, nas vozes e meias-conversas que ouve, ficando sempre “um pouco mais repleto de fascínio que a cidade lhe oferece. Seja nas imagens, seja na fala anônima de sua gente. (...) que revelam instantes vastos de poesia, ainda o melhor antídoto contra a cegueira medíocre que nos atinge a vida continuamente”.
O corpo da gratidão qual será? Um lobo em dia de caça, o domingo de visita dos netos, o sorriso, os transplantes, um rio despoluído? A gratidão é a mãe, é a noite, é um poço de contrários, “é uma inutilidade feita apenas para agüentar o peso do mundo: um poema perdido entre os cadernos; flores nas beirais das casas; fotografias”.
As crônicas que formam esse corpo da gratidão revelam ainda mais disso que ela é para o cronista. A natureza, recoberta de poesia, que, “sem avisar, põe sobre a cidade um lençol branco”; o vento, “Espada solar”, aquele que “veste de umidade a carne urbana”, que “Nas madrugadas volta, amante sorrateiro”, e então é possível ouvir as palmeiras gozando novamente; os eclipses e arco-íris, “choques de loucura, (...) retornos, lembranças que acontecem para nos animalizar de novo”; o olhar atento do pai para o filho recém-nascido, ainda frágil para a ação do verbo viver; a revolução da delicadeza, mesmo sendo “bem mais fácil matar alguém toda manhã do que descrescer”.
A gratidão também moldada pelo fluxo inexorável da vida cotidiana passando por cima do tempo e do espaço, de amizades antes fortalecidas; pelas “pequenas desafinações no ritmo monótono da vida”, os inusitados presentes no dia-a-dia, como um beija-flor entrando numa sala por engano, um poema anônimo dentro de um livro, um pensar em alguém e esbarrar com esse alguém na próxima esquina; pela conjunção “se”, “Palavra-abismo”, reveladora da eterna condição de metade do ser humano; pelo tempo (cabeça-passado, tronco-presente e membros-futuro); pelo sentir que animaliza o humano; pela contradição, a “máquina raio-x da vida, que diz aquilo que somos, que nos humaniza pela fragilidade”.
As últimas crônicas do livro, morando no capítulo O morador de palavras, são as que melhor retratam a relação do poeta e cronista Rubens da Cunha com aquela que é sua ferramenta de trabalho, senão diária, quase que isso: a palavra, e as ramificações que ela faz existir: a língua, a leitura, a escrita.
Presentes nas últimas crônicas encontram-se reflexões sobre a língua portuguesa, a qual, segundo Rubens, é no erro que se torna poesia: “puta de esquina, freira de claustro, mulher amarga e doce, barroca lavadeira esfregando-se mundo afora”; sobre a poesia, para o autor tão parecida com o bambu, este também “pouso de pássaros, criadouro de sombras, paragem do vento”, a poesia também mãe deste filho poeta e cronista, que mais do que tudo deseja ardentemente sempre “Sentar naquele sofá-estrofe no canto da página. Beber um verso-café feito na hora e nada ouvir além da chuva teimosa compondo um outono frágil”; sobre o analfabetismo que carrega dentro de si, o musical, restando a ele apenas metaforizar músicas e instrumentos, sendo Beethoven, por exemplo, um rio de águas negras, e uma orquestra sinfônica uma tempestade às seis horas da manhã; e sobre a leitura, esta abortada pela velocidade cotidiana, e o ato de ler, a ação de “vencer o medo de afogar-se e nadar onde não encostamos os pés no chão. (...) Ler é doar-se em solidariedade consigo mesmo. Ler é difícil”.
Nas últimas crônicas também é apresentado ao leitor o Rubens da Cunha escritor. O morador da palavra exílio (ou seria apenas mais um dos personagens marcantes no livro?). O escritor por prazer, por sentir o sangue correr em seus abismos, pela águia, fazedora de poemas, quando voa, melhores que os seus. Escritor “para que a alma retorne ao corpo”. Pela dor: “O papel me dá seus ouvidos e demais buracos gratuitamente. O papel é uma prostituta apaixonada. Escrevo para gozar e porque tenho bom vocabulário”. Pelo poder de ser escritor, pelas máscaras que colocam sob os escritores. “Por aquilo que não explico quando olham para meu texto e dizem que eu escrevo difícil. Escrevo porque é fácil ser difícil. A simplicidade é para os gênios. Eu não sou gênio. Sou mais um cego teimoso”. Escritor por maldade, por instinto, por covardia, por alegria, “por estar preso nesse cárcere e porque aprendi a mentir desde cedo”.
Bom se existissem mais mentirosos assim.
__________________________________________________________
Resenha publicada na edição de março da revista virtual de literatura e arte, GerminaLiteratura.

Í.ta**

quinta-feira, março 13, 2008

A se dizer

Não há nada a se dizer no momento
Nada a proferir a auto-contento
Só resta apenas o vazio silêncio.

Silêncio duma mente que não pensa
Mente que à vida é inreativa
Alma que vagueia ao mundo passiva.

Mente entrecortada por pensamentos
Corpo paralizado na indolência
Mente que com o corpo é ausência
Corpo que à mente é aborrecimento.

Substantiva e substancial
Matéria que com a mente constitui
A essência que em alma se dilui
Com'átomos em vazio espacial
Mente e corpo nada são afinal...

sábado, março 01, 2008

É pau, é pedra, é começo...

Dizia Tom, sem nenhum tom,
O Jobim no piano, no soprano
Que dedilhava no violão,
Que eram águas de março
Fechando o verão,
A promessa de vida
No teu coração,
A música, a melodia,
A cantiga da minha
Solidão.

Era pau, era pedra, era começo
Do toco queimado, do pescoço
Degolado.

É pau, é pedra, é Elis cantando
MPB, é rapaz sambando
A cultura brasileira, a conversinha mineira,
Os miseráveis nordestinos, o papagaio altivo.

É pau, é releitura da pedra
Da cultura brasileira, que agride
A selva interna, a relva que espera
A onça estrangeira.

As águas na estação
Sujas pela poluição,
É a promessa política
Do Brasil sem perdão.

Obrigado Tom Jobim pela composição que inspirou essa poesia, totalmente.
Essa é a realidade bizarra que vivemos (...).

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

pré-carta de amor engasgada

Sempre que desligo o telefone, me vem a melancolia, aquela que me estampa na cabeça que você não está aqui e me faz inventar diálogos e declarações de amor que eu deveria ter dito mas não disse e nunca digo.
Só, vou fumar na janela, sugando a fumaça como se sua língua, confundindo a vertigem do fumo com a que você me traz. Depois passo a boca pelo meu braço direito, quase na altura do ombro, até acabar mordendo-o, de fúria de ser só braço.
Por que não digo e me acabo na invençao?
Talvez o medo da realidade, perdível, me faça inventar um você indelével.
Desculpe, eu não sei ser romântica a não ser pra mim. Certas palavras não existem para ser ditas. Guardo-as, com medo de quebrar essa regra autoimposta. Certas palavras são como nossas duas pernas juntas: sem anúncios, sem saber como, existem na sensação, debaixo de um lençol.

domingo, fevereiro 24, 2008

Procura-se um Coração


Estou em busca.
Meu coração dourado, onde o perdi?
está camuflado entre vincos na testa,
ou como lêndea grudada num fio de cabelo branco?
(que insistem em aparecer aqui e ali)

Desde aquela meia-noite,
foi-se, para não voltar mais
foi-se, distanciando dos propósitos mesquinhos
que entupiam seus áureos ventrículos
e átrios.

a preciosidade que pulsava sob o crepúsculo
deixei largada no jardim, em meio aos brinquedos
que minha mãe pediu para eu guardar
antes do anoitecer (e que até então esqueci)

vejo o tempo passar
e tudo o que deixo acontecer
é o silêncio ecoar nesta pedra
engastada em meu peito

(mãe, já vou guardar os brinquedos)

sábado, fevereiro 23, 2008

Pedaço d'um conto

A moça bonita, dona dotada, foi logo exclamar sua indignação perante à rudeza do funcionário supra-humano, dirigindo-se ao porteiro-mor. Procurou. “Vire à direita, no final do corredor.”

Uma porta imensa!... linda!... Feita da mais ébana madeira, quase-nuncamente tocada por nada; adornos na forma de anjinhos, asas par-a-par, se rindo e caçando...

... E era alta, mais-que-alta; também pesada, pensou ela. Observou mais um tempo, hipnotizada, esquecida... D’onde saiu tal impedimento?... quando um anjo, este magro, quatrolhos, desimponente, empurrou-a, abrindo a porta.

---o---


Era um parágrafo, viraram três, achei melhor. Esse conto estou escrevendo há um tempo, bem tempinho mesmo. Tenho idéias: é uma moça que deixou de entrar no céu por não possuir senha e fez um fuzuê para conseguir entrar. O resto, que eu acho ser parte-boa, deixo para após o término.


O que acham? Alguma idéia?

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Professor: leitor ou não-leitor

Ana Maria Machado, em artigo presente no livro Balaio: livros e leituras (2007), apresenta a importância fundamental da leitura na formação do professor, destacando o agravante de que há um medo por parte do professor de entrar em contato com os livros, “Um objeto estranho e com tal carga simbólica que o ameaça”, conseqüência de sua má-formação, cada vez mais longe da leitura livresca.
Esta afirmativa abre caminho para uma reflexão sobre o professor enquanto um sujeito-leitor, ou não-leitor.
Relevando o contato diário com diferentes materiais de leitura (livros didáticos, trabalhos dos alunos, comunicados escolares), pode-se classificar o professor como um leitor. No entanto, se o professor não sentir a leitura como uma necessidade para si – e não só como uma exigência burocrático-profissional – ele não passará de um leitor-por-obrigação, e pouco conseguirá contribuir para a formação de novos sujeitos-leitores. Logo, a caracterização do professor como leitor ou não-leitor está relacionada à significância que o próprio professor concerne às atividades que realiza como docente.
Segundo Batista (1998), antes de simplesmente inquirir ao professor um julgamento de leitura, há necessidade de descrevê-lo e compreendê-lo em suas práticas, analisando em que situações ele se forma como um sujeito-leitor. O mesmo defendido por Brito (1998), que traz a impossibilidade de se afirmar que o professor é um leitor, muito menos, pela sua atividade intelectual, que ele é um não-leitor. Segundo ele, “mais que ser leitor ou não-leitor, o professor é um leitor interditado”.
É também importante ressaltar as questões que envolvem as condições de acesso e de produção de leitura dos professores. A formação de um sujeito leitor é tão determinada pelas condições sociais nas quais ele se encontra, quanto pela própria tomada de iniciativa do mesmo em prol de tal formação. Daí sendo muito relevante analisar o que é que o professor lê, quantos livros ele tem condições de adquirir para seu aperfeiçoamento pessoal e profissional, e que tempo sobra para que ele busque a leitura de textos variados.Vale ressaltar ainda que a definição de um professor leitor ou não-leitor passa, primeiramente, por outra definição: o que é ler ou não-ler? E, levando em conta que o ato de ler engloba diversas outras práticas e modos além de somente a leitura livresca (caracterização burguesa do que é ler), o professor, é, sim, um sujeito-leitor. A variedade aqui está no como o professor lê, ou seja, que sentido ele dá/constrói à própria prática da leitura.

artigo publicado no jornal ANotícia de 21-02-08 (circulação estadual), p. 3 (http://www.an.com.br/2008/fev/21/0opi.jsp)

Í.ta**

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Tédio

A vida é composta de um pseudo-equilíbrio dentre destruição e criação: às vezes estamos sob efeito d'um, às vezes do outra. O problema vem quando ficamos tempo demais sendo vitimados por apenas uma delas... resulta no nojo e na desaprovação; no gosto amargo da mesmisse.

Torture sua mente já! evitando usá-la. Esqueça seus livros embaixo da cama, mostrados às traças e baratas; designe sua criatividade ao nada e, quando estiver desesperado por viver, sua raison d'etre será tentar recuperar o que jogou fora, que nunca voltará completamente, pois foi uma oportunidade; uma velha e gasta oportunidade.

--o--

O Monólogo de uma Sombra
DeviantART

Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros

A nova coleção da Folha, pelo que li a respeito no jornal e no respectivo site, começará no próximo final de semana, continuando por mais dezenove. Trará 20 livros, dois na primeira entrega e um semanalmente após; há outros pacotes, comprá-los avulsos, ou at once, mas não embrenharei por este caminho.

São bons livros, bons nomes e, excetuando-se Machado de Assis, não tenho nenhum dos livros selecionados. Atenção para Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Machado e Cecília Meireles, que são os que conheço melhor.

A página oficial é esta, e não tenho outra missão com este post além de informá-los; e, antes que perguntem, não larguei a labuta da escrita, estou me dedicando mais à leitura, apenas.

--o--

Tentativa: Akira I

_____A noite caía. No subúrbio de Londres, aquela boate em breve encher-se-ia de pecados. Todas as noites, seu néon vermelho atraía os mais devassos perfis humanos. Porém, antes que o estabelecimento abrisse, o quarto 205 já testemunhava seus momentos de depravação.
_____Sobre a cama circular, posta debaixo de um enorme espelho e ricamente rendada, via-se uma mulher. Deitada, ainda gemia. Espalhados pelo quarto, partes de uma lingerie preta e vermelha, sugerindo o modo como ela estaria vestida há algum tempo. Seus cabelos ligeiramente ruivos ondulavam delicadamente.
_____Contrastando com a sensualidade diabólica da figura feminina, um homem sentava-se ao seu lado. Seu rosto era um tanto infantil - seria erro chamá-lo de homem? Não trajava roupas, mas a calça militar estirada adiante da cama - atirada por alguma mão excitada - seguramente lhe pertencia, tal qual o coturno negro jogado displicentemente ao seu lado.
_____Desafiador, observava os resultados de suas habilidades e truques nas expressões da mulher. Seu semblante era se satisfação. Desviou momentaneamente o olhar para o lado de seu travesseiro: lá havia um maço de cigarros. Pegou um e acendeu. A mulher levantou-se, ainda imersa em êxtase, e beijou-o. Após aceitar o afago, mudou de idéia e virou o rosto.
_____-Acabou, Sharon. Vá embora.
_____Grosseiro e insensível. Era assim que ele gostava de ser visto. Capricho? Talvez. O fato é que não pretendia envolver seu coração com sentimentos como o amor. Nada sentia por aquela pessoa com a qual compartilhava a noite. Nenhum frio na espinha. Respiração mais rápida por motivos meramente biológicos. A mulher não parecia abalar-se.
_____-Fala como se tivesse pago um programa comigo! Enfia nessa cabecinha oca que eu te amo!
_____-Não mesmo. Vai embora, Sharon.
_____-Me tratando como objeto... Akira, assim fico com mais vontade de não ir...
_____-Não enche.
_____Akira levantou-se e jogou fora o cigarro. Pegou a calça e vestiu-a. Ouviu um suspiro. Virou-se. Sharon deixou escapar uma lágrima. O homem viu-a deslizando por sua face. Sharon nunca chorara.
_____-Desculpe. - ela começou a chorar mais. - Sharon, não chora!
_____Estragara tudo então? Ela nunca havia chegado a tal ponto. Seria o sofrimento dela pela sua falta de tato tão grande assim? Ele não suportava ver mulher alguma chorando. Subiu novamente na cama e abraçou-a.
_____-Não chora... por favor...
_____Abraçou-a mais forte. Após segundos, ela correspondeu. Se encararam. Ela estava frágil, fraca, desamparada, mas absolutamente divina. Delicada como as pétalas de rosas brancas. Seu coração bateu mais forte. Não queria amá-la. Mas seria amor confortá-la numa só noite? Suas mãos deslizaram pela cintura dela. Passou-as por lugares proibidos. Ela parou de chorar. Entregara-se àquele amor, tão brilhante e verdadeiro em sua mente, tão obscuro e falso pelos olhos verdes de Akira.
_____A noite ainda não acabara. A rosa branca acabara de tornar-se vermelha.

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Primeiro texto depois de algum tempo sem escrever. Akira é meu personagem preferido, acho que escreverei mais coisas sobre ele... e acho que arrumei uma forma de colocar parágrafos aqui xD~

Até o/

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Acontecimento enquadrado

Falam mal do cristão porque o tesão incumbido dos homens é aplicado em um sermão que não é nada, senão um discurso diversificado, decodificado e inserido contextualmente.

Em suma, a repressão de um padre é compartilhada pelo cientista louco, pelo garoto maroto, pelo homem matemático e o jovem ajuizado, além dos drogados. Não somos nós, mas nossos tipos, esculpidos e emoldurados.

Obras fotografadas, autografadas e enquadradas.
Obras simbólicas, preconceituosas e pragmáticas.
Dorian Grey, 18/02/2008.
(Percebam que todo o texto com a palavra "acontecimento" está sendo registrado de maneiras diferentes. Quaisquer dúvidas, falem com o senhor azul)

domingo, fevereiro 17, 2008

Chesil's Favourite Poetry

Leia.

O que acham? É um site bem interessante. Pensei em criarmos um, vinculando-o ao TBW, com o intuito de: a) aumentar a leitura de poesia em português, b) facilitar o acesso à mesma, disponibilizando vários autores, c) chamar a atenção para cá, atraindo maior número de leitores.

Eu tenho um espaço considerável da minha biblioteca recheado com poesia, e sei que outros aqui também. Podemos colocar conteúdo aos poucos, dividindo tarefas, facilitando para todos. E, claro, não tem porque deixarmos de colocar autores que escrevam em francês, espanhol (Pablo Neruda!), alemão, italiano, latim (algumas Odes de Horacio merecem...) e todas as outras línguas.

O site pode falar sobre os encontros literários organizados ou não por nós, dar uma pequena "cobertura" dos ocorridos - e para isso conto com a ajuda do Pedro, o jornalista daqui. Gostaria de também deixar um local no site para enviarem-nos seus poemas e afins, sempre tem alguém que escreve e não sabe com quem falar. Mas esse último parágrafo não é necessário, a estrutura principal tem por carácter ser um banco de dados poético, como o site do Chesil.

E eu não entendo praticamente NADA de montagem de sites, layouts (tome como exemplo o 'belíssimo' layout pré-montado que uso no meu blog) e afins. Precisaria de alguém mais capacitado para isso.

Idéias, sugestões, opiniões?

sábado, fevereiro 16, 2008

Expanda-se

Treina teu poeta interior
Na intensidade que o tempo
Trás transcorridas todas
As tuas tentativas

Escreva se sabe pensar
Se sabe escutar tua voz
Se sabe suspender
O saber sem sentido

Mas toma a meditação
Uma componente de teu poema
E recomponha teu pensamento

E então escreva, concerte
Soe, desespere-se,
Versifique, poemize

domingo, fevereiro 10, 2008

Poeta, Ourives.

retifico versos
que rimam com quero-quero,
que semeiam raízes de olvido,
Que não desabrocham;
encolhem-se com a falta de esmero.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Quinta-feira fui à livraria Cultura em meu ritual. Pego livros, vários, e me sento nas almofadas. Feito isso, começo a ler, viajar, ouvir os outros, escrever. Ouço muito. Reclamações ao celular, casais, amigos, tudo mergulhado em um mar de livros. Cálculo, auto-ajuda, maresia de aventuras.

Lia um conto de Sagarana quando uma menina sentou-se: portava um livrinho destes que fazem sons ao abrir; lia em voz alta, com dificuldade, cada frase. Formava parágrafos devagarinho. Vi e revi a pequena. Em volta, uma roda de adolescentes reclamava, as pessoas reclamavam, eu não: estava maravilhado com a garota lendo um livro com gosto, paixão.

Meu primeiro livro veio à cabeça: uma coletânea de contos infantis. Desde La Fontaine até autores desconhecidos. Muitas, muitas histórias... magia, ladrões, valores, gigantes, princesas. Li-os todos, diversas vezes. Primeira obra! Dormi tarde várias vezes graças à leitura. Adorava ler uma história duas vezes, sempre mudava um pouquinho – o mesmo efeito da poesia hoje.

Era bom: não havia mal que me atingisse. Briga com minha mãe se remediava lendo. Devo muito a este livro: sem ele, não sei como seria meu gosto pela leitura; com ele, criei interesse em adentrar a bibilioteca de meu pai e lá me instalar sempre que possível. Meu melhor presente, sem dúvida.

A menina se foi, continuei lendo Sagarana e seus contos nas almofadas da livraria, mas não sem a boa lembrança dos dias antigos na cabeça. Obrigado, menina! Obrigado, meu livro!

03/11/2007

Escrevi isso há um bom tempo. Verídico.

original

Encontro Positrônico

Às vezes, a prosa é mais interessante que o verso. Isso acontece justamente quando temos de retratar coisas de forma concisa e fidedigna.

Bem, este é um dos casos... Suponho.

Data-se de um encontro, realizado num certo dia da semana. Presenciavam o encontro alguns escritores e outros entusiastas das palavras.

Lá, o assunto não era diretamente direcionado, como algo premeditado, mas fluía mais livremente. Quiçá isso tenha feito mal a algumas pessoas que tinham como motivo principal a discussão literária, mas isso é apenas uma mera conjetura.

Rumou-se assim por duas horas, mas a terceira pessoa do autor o impede de dar maiores detalhes acerca das duas horas iniciais, já que este chegara com um 'pequeno' atraso de um sexto de relógio.

Foi muito interessante no tópico de se conhecer pessoas novas. Pessoas que já escreviam há tempos, todavia nunca se encontraram pessoalmente - convém salientar que algumas pessoas acabaram por não ir, porém são desconhecidos seus motivos e não vem ao caso do autor comentá-las.

Chegou. Cumprimentou o pessoal. Tomara nota do que já fora comentado.

Estava chovendo, a chuva impedia o chão de manter-se seco. As vidas não são tão secas assim, ou seriam?

É, não foi um encontro de literatos, até porque nem todos os eram. Foi mais um encontro de amigos... Amigos? A gravidade faz seu papel, sempre fez.

Em suma: uma colisão pósitron-elétron que liberara muita energia, esta foi convertida em forma de calor até causar queimaduras.

OBS: Texto antigo.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Inesperado

Foi na caminhada
Que sentiu a vida
Passar pelo ouvido
Na voz do destino

Virou numa escolha
Que disse o futuro
Entregue à tentativa
Do olhar mais adiante

Uma ação que ditou
Os passos do coração
Sem nenhuma razão

Foi um desejo
De todo inesperado
Mas de todo escutado

Antologia?

A Mar de Idéias Editora nasceu em 2003 e tem como objetivo levar ao máximo possível de pessoas informação e cultura. E como todos sabemos, o livro foi, é, e continuará sendo uma das mais importantes fontes de saber.

Pensando nisso, a Mar de Idéias lançou em 2006 a Antologia Poética “Novos Poetas, Novos Talentos”, seu primeiro concurso de literatura para auxiliar aos escritores, principalmente aos que não costumam ter acesso fácil a grandes editoras, que publiquem seus livros, sem que precisem gastar quantias muitas das vezes inatingíveis para a maioria da população de nosso país.

Fruto desta seletiva, o autor Pedro Jorge publicou pela Mar de Idéias Editora o livro “A vida em Poesia”, em setembro de 2007.

No mesmo ano a Mar de idéias publicou a I Antologia Internacional de Poesia “Mares Diversos, Mar de Versos”, uma coletânea que também contou com a participação de autores de Portugal e Estados Unidos.

Agora, o próximo passo segue na direção da II Antologia Nacional de Poesia “Novos Poetas, Novos Talentos”.

Muitos grandes talentos podem se perder se não tiverem a oportunidade de mostrar o que sabem, e quantos grandes artistas, escritores, cientistas e gênios podemos estar perdendo todos os dias porque não tiveram uma oportunidade de divulgar seus trabalhos? Por isso mesmo, a Mar de Idéias Editora busca juntar talentos que poderão sair do anonimato e se tornarem conhecidos, proporcionando aos leitores novas obras, e à literatura novos caminhos, novos horizontes, nova idéias.

Original.

Pretendo tentar participar, as despesas não são altas, ainda mais porque você só paga caso seja chamado. Gostaria de convidar a todos daqui para tentarem também, vamos comemorar caso pelo menos um de nós seja chamado!

Opinem.

domingo, fevereiro 03, 2008

Não precisam nos valorizar (tanto)

Sente-se.

Convido-te para uma reflexão. Nada muito profundo, talvez algo mais bobo que o normal.

O alfabeto latino ocidental tem cerca de 24 letras.

Há inúmeras combinações compartimentadas em palavras em diversas línguas.

Poderia colocar a quantidade de palavras que podem ser formadas aqui, em todos os idiomas.

Seria alguma estatística para dizer "uau". Mas não provocaria outros efeitos.

Agora, reflita.

Como o escritor pode ser exaltado por, simplesmente, digitar ou escrever o que deve ser feito?

Como se pode glorificar uma pessoa que faz algo que já está previsto nas combinações de palavras, nas combinações de expressão e no número de letras?

Há médicos heróis, que salvam vidas. Há advogados que salvam pessoas inocentes, além dos engenheiros que se esforçam pelo meio ambiente, em criações mirabolantes.

Não puxe tanto o saco do escritor, pois ele é um ser vaidoso por natureza.

Assim como todas as profissões, claro. Mas é vaidoso por fazer algo que já é previsto.

A única coisa que não se prevê nos livros e textos é uma, uma só.

O leitor.

O leitor pode fazer revoluções embalado por livros. Pode renovar a si mesmo.

Pode se questionar, pode se contradizer, pode se tornar tão vaidoso quanto seu autor predileto.

O leitor deve ser o real objetivo de um escritor. É delicioso e praticamente eterna a situação de criar um texto, mas ele é submetido em uma medida e em um código com limites.

O mundo sem fronteiras só existe em dois casos: na cabeça do leitor e no tamanho do texto.

Mas texto enorme por ser enorme é chato demais (...).

Ela*

Teresa tinha fome. Fome de fruta, de manga doce e quente que deixasse fiapo pra lamber entre os dentes e fizesse escorrer pelo queixo até o umbigo suco melado, caminhos de lesma ardendo na pele. Tinha a ânsia dos que querem muito sem ter, e andava de pernas abertas esperando. Essas espera e fome doíam. Teresa sangrando de dor espereva a fome passar.
Mas a fome não passava, a dor prosseguia, e Teresa aprendeu a colher com a mão sua fruta desejada.
Saciada sempre, ela agora tinha sempre as mãos doces e as punha na boca para deixar o fiapo nos dentes e fazer escorrer suco pelo umbigo.
Mas Teresa tinha ânsia de ter fome novamente, só que não mais podia desaprender.

*Também no blog.

Ensaio egocentrista.

Além de pai e filho,
Sou amante também.
De mim, apenas.
Preso no centro do ser(eu).

Importância tua, do que falas ou sente.
Não há.
Suas teorias
Embalam meu sono.
Sua realidade não tem valor.
Ao meu paradigma, o verdadeiro.

Preso, em cárcere amável.
Confinado, no devaneio do absorto.
Sigo, por caminho que não se vê.
Por descuido: não preciso vê-lo.
Maior interesse em uma mente perdida.

Egoísta e despreocupado.
Fingindo inspiração ou dor.
Isolo-me com gosto e desprezo.
De tudo que não é fogo ou flor.


(Poesia escritas nas brumas do sono, depois de lembrar um pouco de Artaud. Apenas para não enferrujar e para afirmar minha participação no blog.)

sábado, fevereiro 02, 2008

Ligue a luz, suba ao palco e atue

Novo blog meu, pessoal.

Aqui

Nem preciso fazer exibições. Entrem e tirem suas conclusões.

"Non, je ne regrette rien" - O Presente Absurdo e o Passado Surdo ou Os Relacionamentos

"Non!
Rien de rien...
Non !
Je ne regrette rien
Ni le bien
Qu’on m’a fait,
Ni le mal,
Tout ça m’est bien égal !
Non!
Rien de rien...
Non !

Car ma vie,
Car mes joies,
Aujourd’hui,
Ça commence avec toi !"

Non, je ne regrette rien, música de Édith Piaf.


Não, não me arrependo de nada,
Nem do epígrafe da poesia, nem da asa
Descoordenada dos meus sonhos,
Do meu pé amargo na terra movediça,
Nas minhas palavras que cortam a caça.

Não, não me arrependo de nada,
E, mesmo quando tenho ressentimento,
Algum tipo de arrependimento,
Faço para não ser fracassado,
Faço para não orgulhar os outros,
Faço para orgulhar meu rosto, meus atos.

Não, não me arrependo de nada,
Nem da falta de diálogo, nem do texto
Mal-entendido, sempre há um amanhã
Com esperanças, que vai além da vã
Crença no destino, no otimismo doente.

Não me arrependo de te ver, sentir você,
Sentir o doce correndo nos fluídos diversos,
Não me arrependo de ver o que pude, ajude
À si mesmo em seus lamentos, ressentimentos,
Relacionamentos não são termináveis, nem maleáveis,
Mas transformados, o tempo todo, todo mudado.

Caeirismo

Somos um grupo de escritores,
Que interpretam, relê o que se trabalha,
Deixa o papel entulhado para roedores
Decompositores, compositores de obras
Mortas, mortalha artística.

Somos um grupo de escritores,
Rastreadores de assuntos,
Criadores de ligamentos
De significados, dos personagens
Que devoram nossos miolos,
Que impedem as passagens.

Queremos achar significados
Em nós, em sua declaração e voz,
Queremos dar sentidos
Aos mares descomedidos,
Às tempestades terminais,
Aos contatos viscerais.

Somos o que não somos,
Buscamos o ser onde não há ter,
Será e terá conseguido um querer?
Nós, vós, eles?

Nossa geração não acabou,
Somos filhos bastardos do que se renovou,
Sem revoluções ou constituições,
Temos um linguajar incomum das continuações,
Um começo numa história indeterminada,
Inerente, totalmente inseparada.

Nossa geração não vive de pseudônimos,
Ou personagens fixos, heróis sem prefixos,
Temos personagens de várias linhagens,
De várias origens, de um fim em vertigem.

Alberto Caeiro ficaria um pouco feliz
Com a natureza humana que aqui se diz,
Que meus companheiros, meus parceiros,
Insistem em chegar, sem hesitar.

Alberto Caeiro ficaria um pouco feliz
Pelas poucas vozes, pelas mudanças menos ferozes,
Ficaria impressionado com nossa capacidade lenta, nossa
Vida por triz, nossa melodia de atriz.

Estamos próximos da verdade,
O que não quer dizer vaidade,
Tampouco sensibilidade.

Estamos próximos da verdade,
E da diversidade.

Ficamos absortos. Somos um aborto.

--

Inspirado em conversas com Sir Varios (William Gnann).

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Amor... Vazio?

Amor, vazio amor
De vasos e laços frios
Amor pungente e vazio
Cuja melhor rima é a dor

Amor, estranho amor
Que mais fere do que deixa aferir
A quimera dantesca que nos faz imergir
Pitoresca essência do sincero terror

Amor, carbônico amor
Fruto apenas de uma bioquímica cerebral
Como pode algo tão pequeno fazer-nos tão mal?
Como esses bárbaros versos de texto sem cor...

Palavras Vazias

As palavras dizem-se vazias
Quando o branco do papel
Se torna algo mais belo
Que qualquer idéia

A vontade transcende
O poder de escrever
O quanto és linda
Aos meus olhos

E essas palavras a mancharem
Algo mais belo que escrevo
Contrastam com minha vontade

De dizer que te amo
Num mundo de papel
E tintas vazias

terça-feira, janeiro 29, 2008

Etilismos

Vejo o homem cambaleando,
ridiculamente sublime,
sem consciência do que faz,
sem sofrimento pelo que é.

Eu também cambaleio
pendendo para o lado,
cambaio para o esquecimento,
sentindo o mundo como ele é
ou talvez como poderia ter sido,
quiçá como gostaria que fosse.

Imerso nos sentidos e sensações
sequer ouso pensar em algo,
receoso de afugentar essa alegria
etílica e artificial, é verdade,
mas muito mais espontânea que
essa carapaça de sombra e sarcasmo.

Evito pensar na vida, pensar em algo,
pois a felicidade é a aptidão natural
de quem não pensa nem se preocupa.
Tento guardar meu rebanho de idéias negras
minha floresta de de sonhos inconjuntos.
Fracasso. E escrevo esse poema.

início

Antes de postar meu primeiro texto aqui neste blog, faço uma rápida apresentação.
Meu nome é Ítalo Puccini, sou acadêmico do curso de Letras Licenciatura da Univille (Joinville-SC) e professor de Literatura para as séries finais do Ensino Fundamental.
Tenho um outro blog, no qual rabisco algumas coisas e apresento outros textos e frases que me tocam.
Meus escritos por aqui serão umas croniquetas (ou quase isso). Também um artigos de opinião e umas tentativas de ensaios serão possíveis. Nada profissional. Tudo experimentação, como acredito que seja a proposta deste blog.
Segue o primeiro post.
______________________________________________________________
Estante - organização livresca
Mexer em livros, para mim, é mergulhar dentro do que sou e de como me construo, e por lá me perder.
Quando vou a sebus e/ou livrarias, empilho em minhas duas mãos tudo o que considero interessante levar para casa, seja para uma leitura imediata, seja para uma leitura futura. E por lá fico, estante por estante, livro por livro, sumindo por trás de suas formas, cores e palavras, até o momento em que encerro minha visita. É quando relembro tudo o que peguei, folheio cada livro para melhor conhecê-lo, equilibro o pensamento entre a necessidade, o desejo e a exceção (além dos recursos financeiros que me acompanham no momento), e faço uma dolorida triagem, acabando por levar sempre menos da metade do que gostaria. Nas primeiras vezes esse momento era mais difícil. Agora me resigno a ele, ajudando-me para isso a memória, trazendo à mente os livros que ainda me esperam em casa, saudosos de um contato mais próximo com minhas mãos e com meus olhos.
Dor foi o que senti ao organizar meus livros em casa, espalhados que estavam pela prateleira que tenho sobre a cabeça aqui onde escrevo e pela cama que sobra em meu quarto, útil justamente para acomodar meus materiais de pesquisa e de leitura. Mas foi uma dor gostosa de sentir, e aqui o paradoxo é proposital por refletir o que foi sentido.
No dia anterior mexi e remexi em meus cd´s e dvd´s. Todos organizados por aproximação, no que diz respeito aos estilos musicais. E, empolgado pelos momentos ali vividos, encarei uma reorganização dos livros, já ciente de que a entrega emocional seria mais intensa.
Gosto de olhar para meus livros. Gosto de senti-los pelo tato. Gosto de folheá-los e de relembrar o exato momento em que foram lidos ou comprados, sendo que de alguns ainda não conheço seus interiores, seus poros de vida, os espaços entre palavras – e as próprias palavras – que os fazem ser o que são, para as quais construo os significados que me tornam quem sou.
Nessa breve atividade de fim de tarde (ainda não tenho tantas estantes e tantos livros espalhados pela casa) voltei aos meus 14 anos, com a leitura que fiz de “O rádio, o futebol e a vida”, de Flávio Araújo, e de “Zico, 50 anos de futebol”, num mês de julho, na praia de Itaguaçu, durante as férias escolares de meio de ano, durante manhãs e tardes chuvosas e frias, enrolado entre cobertas e travesseiros, numa época em que eu respirava futebol.
Memórias mais recentes também resgatei. Ao passar o pano em “O inventor da solidão”, de Paul Auster, comprado despretensiosamente numa feira do livro de Joinville; ao reler algumas crônicas sensíveis e marcantes de “Por que os homens não voam?”, do sensível e marcante Pablo Morenno; e ao encaixar “Uma história da leitura”, de Alberto Manguel, sempre tão recorrente aos meus textos sobre leitura, num novo lugar na estante, rodeados por novos livros sobre práticas de leitura, e com um espaço ainda disponível aos que no momento leio para o término de minha atual pesquisa, que daqui a pouco rumarão aos seus novos lares em meu quarto.
Costumo dar aos livros, em meus escritos e falas, tratamento de como se tivessem personalidades e vidas próprias, pois acredito muito em que eles tenham, sim, suas vidas próprias, suas personalidades que os caracterizam como livros (sem contar as especificidades de gênero às quais eles dão vida e das quais recebem vida). Mais vivos ainda eles se tornam quando em contato com os olhos, a boca, os ouvidos, o tato, e todos os sentidos do ser humano, que a eles dá novos significados, que a partir deles forma-se enquanto ser humano e cidadão social, que sem eles e seus registros (ficcionais ou não) não existiria.
Nessa breve atividade de fim de tarde ainda fiz uma pilha da qual irei me desfazer. Sem choro, sem lamentações. Livros espíritas, romances água-com-açucar, receitas de auto-ajuda. Já tiveram sua importância. Já encerraram seus ciclos por aqui. Agora seguirão adiante, conhecendo novos donos, novas prateleiras, sentindo novos cheiros, oportunizando novos aprendizados. Assim ocorre conosco, pessoas de carne, osso e cérebro. Assim ocorre com os livros, alimentos da mente humana.
Até a próxima reorganização livresca, as biografias abrirão os espaços (ou a falta dos mesmos) na estante, seguidas pelos de filosofia, anteriores aos de educação/leitura, que abrem caminho para as crônicas e os contos, tendo como seqüência as poesias e os infanto-juvenis, seguidos pelos romances e pelos de literatura brasileira, que encerram a prateleira e levam à porta do armário, no qual dormem tranqüilos os best-sellers e mais alguns romances.
Í.ta**

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Título

Título

Não há pressa no escrito
Já há muito existido

É uma força que o move
Que o rasga,
Que o contorce

Espera no escrito
Da folha branca
Nas sombras sem vida
Num espaço, num canto

Passa pelo nada
Descreve um ciclo:
Pensa, escreve,apaga,
Rasga, dobra, escreve,
Lê e se gosta

Escreve os versos
Escreve as estrofes
Escreve a poesia
E os guardam na gaveta

Usa de tudo
Da inspiração à expiração
Da imagiação à metalinguagem

E pega outra folha
E pega outro lápis

Título

domingo, janeiro 27, 2008

Saudações opacas


Aceno sempre quando o avisto

Um rosto alegre

caminha porque tem direito,

é verdade

mas a verdade

Quer gritar

toda insensível

ora eu tampo-lhe a boca

por que a mentira é mais doce.

Gente, mil desculpas não ter ido pro encontro...
Acabei indo pro Rio "mermo", e não rolou dessa vez.
Mas dessa vez! Haverá outras...
Abraços a meus companheiros azuis.

Contato

Subi os degraus com impulsos acostumados do corpo, deixando antes uma velhinha típica passar à minha frente. Ela tinha uma espécie de xale sobre o vestido florido, que lhe davam um aspecto digno de senhora idosa de classe média. Via-se bem que se arrumara, pusera brincos de bolinhas achatadas verdes e sandálias de pequeno salto brancas e limpas, que pareciam ou eram pouco usadas, e combinavam estranhamente com seus também brancos cabelos presos em coque. Deu-me um largo sorriso quando a deixei passar e subiu com uma destreza incondizente com seus cabelos grisalhos, mas aceitável por seu alegre vestido e sua pele viçosa. Porém não havia mais lugares nos bancos especiais destinados a velhinhas e grávidas e portadores de Síndrome de Down e todos esses que aparecem comportados, distantes e bonzinhos nas novelas politicamente corretas. Por isso a senhorinha passou pela catraca, desembolsando dois e cinquenta pela passagem - o que vi e não vi, pois estava ocupada olhando fixamente um ponto qualquer na janela. Parei de olhá-lo para também pagar minha passagem. Olhava agora os passageiros ao fundo, que olhavam a velhinha se aproximar como se o próprio Destino. Sentou-se. Atravessei o corredor cambaleante com os mesmos olhares direcionados antes à senhora voltados para mim. Tive vontade de ser pequenininha ou de ter Down para ser invisível. Poucos se conheciam ou conversavam. Somente um casal discutia sobre um armário das Casas Bahia e dois garotos ao fundo riam depois de falar palavrões um pro outro. Mesmo assim, havia uma agitação dos passageiros todos, liam revistas fazendo barulho, abriam bolsas, falavam nos celulares, alternadamente, ou ficavam com olhares e pescoços de pombo, a cabeça virando, os olhos fixando-se num ponto, a cabeça novamente virando, os olhos em outro ponto, ..., assim por diante. Eu também tinha um grande olhar de pombo, e já me preparava para tomar o lugar de uma mulher que mexera em sua bolsa, mexendo na minha, quando a senhora disse a meia voz, como se diz em lugares públicos sem se ter um interlocutor definido:
-Puxa, é uma falta de respeito eu ter que pagar pra sentar! Não é?
[E, nessa pergunta final, dirigia-se a mim com a cabeça, meio sem jeito. Talvez houvesse encontrado uma cumplicidade ou facilidade no meu jeito; às vezes me sinto como um velho padre de paróquia, mas sem infligir temor nos outros.]
-É sim...
[respondi com um meneio leve de cabeça; Não me interessava muito falar com ela. Estava ocupada agora com a contade de pegar meu livro na bolsa e lê-lo sem desviar os olhos até o fim do meu destino. Mas a senhora continuou:]
-É que não saio muito, não costumo pegar ônibus sempre...
-Ah, sim... Olha, quando for assim, a senhora deve pedir pro motrista parar, e é só entrar pela portinha de trás; aqui também tem cadeiras reservadas...
[Tentei parecer delicada, mas me sentia um pouco constrangida.]
-Aahh, brigada, minha filha...
-Nada!
-...Sabe? Você se parece muito com minha neta... Parece sim! Ela é bonita e nova assim também.
[Os olhos dela brilharam.]
- Ah, é? Brigada...
- Sabe? Eu gostava muito de conversar com ela, mas ela agora está em São Paulo, estudando...
[Seu rosto, por um átimo, se abriu num abismo triste, disse 'estudando' como um lamento que fosse também uma censura.]
-Ah, sim...E a senhora mora com quem?
[Ela suspirou.]
-Moro sozinha, minha filha. Desde que meu marido morreu
[parou como se quisesse continuar, esperando uma resposta.]
-mmm, que pena...
[Nunca sei o que dizer nessas horas, e sempre acabo dizendo algo que me parece idiota. Talvez tudo seja idiota perto da morte. Talvez tudo seja idiota.]
- Mas já faz muito tempo...
[Abanou os pensamentos com a mão e sorriu novamente.]
Nessa altura, alguns "pombos" nos fixavam os olhos, isso me deixava um pouco nervosa, me fazendo mexer na bolsa de vez em quando. Talvez nossa conversa fosse uma ameaça, provava que os outros também poderiam sair das carapaças e conversar entre si. Isso devia deixá-los assustados, assim como me deixava nervosa sentir que eu perturbava o estranho equilíbrio de ações e vozes desconjuntadas do ônibus.
- A senhora é bem bonita, viu? nunca pensou em encontrar alguém de novo?
[Risos largos dela.]
-Nãão...Já estou velha pra essas coisas...
[Calou-se, fazendo um não com a cabeça, sorrindo romântica. Vi castelos no ar em seu redor.]
- Verdade! Queria ser como a senhora se tivesse sua idade!
[ Não era bem verdade, sempre imaginei morrer antes dos 40.]
- Brigada, você é uma mocinha muito gentil.
(...)
A conversa seguiu nesses termos afáveis e foi se aprofundando. Fiquei sabendo de sua filha, morava em Minas mas sempre costumava visitá-la, isso quando a casa era ainda cheia, quando o marido era vivo e os dois filhos ainda não haviam partido para outras cidades. Justamente a filha dessa filha era a neta que se parecia comigo. Entendi, então, o peso das palavras trocadas naquele ônibus com aquela senhora, como eram importantes para ela, saída de uma toca em busca de alguém da mesma espécie. Quando percebi a importãncia do momento, me senti um pouco culpada por não sentir nele a mesma importância. Essa culpa me deixou, ou me obrigou a parecer, mais solícita e interessada na conversa. Ela deve ter percebido isso, pois nessa hora me passou o telefone de sua casa, junto um convite para ir visitá-la logo que ligasse. "Você vai ver minhas plantinhas!" Ou talvez tenha percebido meus olhares para a janela, dizendo que logo eu teria que descer, e me deu seu número com receio de retornar ao silêncio; seu telefone como uma luz no fim do lusco-fusco a que se acostumara na casa vazia; fézinha. Peguei o papel e o guardei no bolso interno da bolsa, já lotado de papéis de bala, tíquetes, cupons, outros telefones e até um chiclete mastigado envolto num pedaço de uma prova da faculdade. Estava com pressa, os movéis baratos sinalizavam a proximidade da minha parada, deixando-me naquela agitação superior de quem se sente em casa. Disse enfim àquela senhora que eu tinha que ir, dei-lhe dois beijos nas bochechas, que mal e mal consegui acertar naquele balanceio, puxei a cordinha para dar o sinal e desci naquela esquina tão minha conhecida. Depois fiz coisas simples que sempre faço: passar na locadora, cumprimentar o bêbado do bar, pagar minhas contas atrasadas... E cheguei em casa. Pensava no dia, naquela velhinha doce e só, deseperada e quieta até o desespero levá-la a procurar umas palavras amigas. Quem sabe eu me tornasse uma velhinha igual e, como ela, encontrasse uma pessoa como eu, displicente, que me escutaria por um misto de polidez, vontade e dó? Talvez eu a seja neste momento, desmascarada a juventude, os afazeres com ares importantes, as pessoas em redor, estou tão só quanto ela. Nisso eu pensava enquanto vasculhava a barafunda de papeizinhos à procura do dela. Nada. Seu telefone havia sumido, se extraviado enquanto eu voltava à minha vida de sempre, como se nunca houvesse existido. Senti-me mal. Uma estranha sensação de ter escolhido aquela perda, uma culpa. Mas um alívio também. Uma pontada na cabeça me dizia que se o houvesse encontrado, jamais ligaria.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

demais


palavas demais
informação demais
conversa demais
pensamentos demais
conhecimentos demais
técnica demais
rebuscamento demais
o mundo é grande demais
é complicado demais
e humildemente eu peço


menos