um
conto
falido
em intensidade
Sou divindade
Procuro
estar mais perto
o que é?
vislumbro.
Parte I – Exaltação e Depressão
Ah sim!
Acordo leve após vinte anos
Seguro e confortável, após acordar-me.
Uma gostosa conversa de vinte anos
Atrás.
Em cantigas de ninar
Vinte anos eu mergulhava
A densa vastidão da humanidade
Curiosos mistérios inefáveis,
Infantis, bolas de gude.
Hoje,
Não ouço mais cantigas pra embalar
E nem verto mais lágrimas,
se as vertesse, as ferveria para um bom chá.
E cantaria:
"-Aqui jaz um espectro de poeta,
Um pesado perdedor sem vínculos.
As dúvidas existenciais me deixam louco;
São como uma nuvem de mosquitos – e tento de espantá-los
E nessa nuvem
existe uma fada que carrega um pote, de voz bem doce
Que cantava algo assim:
algodão-doce, caramelo! marmelo!"
Parte II – Aos Pais – Dor e Expiação
Há vinte anos disserdes-me:
Obedeça.
Desobedeci.
Arrependi-me.
Prometo que vos amarei
Na distância, ternura e amargura,
Sempre.
Prometo que vos honrarei
No Céu e na Terra
e que vos obedecerei
Em júbilo e contrariedade
Nunca é tarde.
Vosso eterno devedor suplica
A minha angústia leva embora
nas horas de apatia
Não quero cair em desordem
Nem em rebeldia
Fui por vezes muito ingrato
Mas sempre vos amei
E se necessário for
Morrerei por vós
Pais da Terra,
Obrigado.
Parte III – Mãe.
Nos devaneios mais sombrios
Afugentando os mosquitos
Para longe do meu coração
em dúvidas
Encontrei-te
Estava atormentado, ansioso, aflito
Deste-me de beber, pois estava com muita sede.
E prostrei-me, como nunca antes.
Mãe, manhã de orvalho.
Sou teu bebê que ainda balbucia no berço
Sou tua luz tão forte que me aquece!
Necessidade de ação, de quebra
Busca do futuro
Construção
Caminho
NÃO!
Inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia, inércia...
Meus passos rápidos
Devaneios
Fantasias
Pensamentos apenas
Objetos figurados
Sonhos toques
Cheiros
Misturando fantasia e realidade
A minha vida como um passeio lunar
E como tudo que existe
Vejo o tempo passar
Com a certeza de que não retrocede
E a sabedoria de não tentar pará-lo.
Viver as viagens do vento
Os sorrisos do sol
As lágrimas da chuva
O sonho das flores
Ao sentir cada um deles tocando a minha pele
E a minha falsa realidade tão natural
Mostra o quanto falo em passos falsos pelo mundo
E a as minhas lutas únicas
Solitárias
São minha alma
Se não houvesse a crença
Estaria vazia
Só, dentro de meu próprio vácuo.
Estou em busca.
Meu coração dourado, onde o perdi?
está camuflado entre vincos na testa,
ou como lêndea grudada num fio de cabelo branco?
(que insistem em aparecer aqui e ali)
Desde aquela meia-noite,
foi-se, para não voltar mais
foi-se, distanciando dos propósitos mesquinhos
que entupiam seus áureos ventrículos
e átrios.
a preciosidade que pulsava sob o crepúsculo
deixei largada no jardim, em meio aos brinquedos
que minha mãe pediu para eu guardar
antes do anoitecer (e que até então esqueci)
vejo o tempo passar
e tudo o que deixo acontecer
é o silêncio ecoar nesta pedra
engastada em meu peito
(mãe, já vou guardar os brinquedos)
A moça bonita, dona dotada, foi logo exclamar sua indignação perante à rudeza do funcionário supra-humano, dirigindo-se ao porteiro-mor. Procurou. “Vire à direita, no final do corredor.”
Uma porta imensa!... linda!... Feita da mais ébana madeira, quase-nuncamente tocada por nada; adornos na forma de anjinhos, asas par-a-par, se rindo e caçando...
... E era alta, mais-que-alta; também pesada, pensou ela. Observou mais um tempo, hipnotizada, esquecida... D’onde saiu tal impedimento?... quando um anjo, este magro, quatrolhos, desimponente, empurrou-a, abrindo a porta.
---o---
Era um parágrafo, viraram três, achei melhor. Esse conto estou escrevendo há um tempo, bem tempinho mesmo. Tenho idéias: é uma moça que deixou de entrar no céu por não possuir senha e fez um fuzuê para conseguir entrar. O resto, que eu acho ser parte-boa, deixo para após o término.
A vida é composta de um pseudo-equilíbrio dentre destruição e criação: às vezes estamos sob efeito d'um, às vezes do outra. O problema vem quando ficamos tempo demais sendo vitimados por apenas uma delas... resulta no nojo e na desaprovação; no gosto amargo da mesmisse.
Torture sua mente já! evitando usá-la. Esqueça seus livros embaixo da cama, mostrados às traças e baratas; designe sua criatividade ao nada e, quando estiver desesperado por viver, sua raison d'etre será tentar recuperar o que jogou fora, que nunca voltará completamente, pois foi uma oportunidade; uma velha e gasta oportunidade.
--o--
Lia um conto de Sagarana quando uma menina sentou-se: portava um livrinho destes que fazem sons ao abrir; lia em voz alta, com dificuldade, cada frase. Formava parágrafos devagarinho. Vi e revi a pequena. Em volta, uma roda de adolescentes reclamava, as pessoas reclamavam, eu não: estava maravilhado com a garota lendo um livro com gosto, paixão.
Meu primeiro livro veio à cabeça: uma coletânea de contos infantis. Desde La Fontaine até autores desconhecidos. Muitas, muitas histórias... magia, ladrões, valores, gigantes, princesas. Li-os todos, diversas vezes. Primeira obra! Dormi tarde várias vezes graças à leitura. Adorava ler uma história duas vezes, sempre mudava um pouquinho – o mesmo efeito da poesia hoje.
Era bom: não havia mal que me atingisse. Briga com minha mãe se remediava lendo. Devo muito a este livro: sem ele, não sei como seria meu gosto pela leitura; com ele, criei interesse em adentrar a bibilioteca de meu pai e lá me instalar sempre que possível. Meu melhor presente, sem dúvida.
A menina se foi, continuei lendo Sagarana e seus contos nas almofadas da livraria, mas não sem a boa lembrança dos dias antigos na cabeça. Obrigado, menina! Obrigado, meu livro!
03/11/2007
Escrevi isso há um bom tempo. Verídico.
Non, je ne regrette rien, música de Édith Piaf.
Não, não me arrependo de nada,
Nem do epígrafe da poesia, nem da asa
Descoordenada dos meus sonhos,
Do meu pé amargo na terra movediça,
Nas minhas palavras que cortam a caça.
Não, não me arrependo de nada,
E, mesmo quando tenho ressentimento,
Algum tipo de arrependimento,
Faço para não ser fracassado,
Faço para não orgulhar os outros,
Faço para orgulhar meu rosto, meus atos.
Não, não me arrependo de nada,
Nem da falta de diálogo, nem do texto
Mal-entendido, sempre há um amanhã
Com esperanças, que vai além da vã
Crença no destino, no otimismo doente.
Não me arrependo de te ver, sentir você,
Sentir o doce correndo nos fluídos diversos,
Não me arrependo de ver o que pude, ajude
À si mesmo em seus lamentos, ressentimentos,
Relacionamentos não são termináveis, nem maleáveis,
Mas transformados, o tempo todo, todo mudado.