O som deste poema é rouco,
E seu ritmo é coxo.
A sua forma é irrelevante - talvez um soneto.
(de cinco quartetos)
A estrutura das estrofes é mal escorada
Precisa ser criticada
A rima é exagerada
pobre e antiquada.
O conteúdo é fraco
fragmentado
Perdeu-se nas sílabas
Que não são contadas
A lógica é falha
Rompe e se espalha
Não obedece a métrica
É uma filha bastarda
O poeta lamenta:
"Não posso mexer mais nele
Não há metáfora que ilustre
O poema que não deu certo."
quinta-feira, agosto 19, 2010
quarta-feira, agosto 18, 2010
Poema Pirovulpimaníaco
Quer mais de onde veio?
Procura mais de belas frases que decoram enigmas?
O senhor do mundo, o psíquico
Que diz dos ignorantes que não esclareceram a questão?
Pois que fiquem mais um tempo
Decifrando o que não se decifra
Replicar paradoxos
É meu mistério
Descobrir a essência dos mestres
e redarguir suas pontuações
É seu trabalho
-
E já acho hilário
Arrastar essa arenga
Como um macho que procura a fêmea
E não despacho
O seu desdém,
e nem também o amor que tem.
Descubra então
A partir de já
O mais sublime pináculo verborrágico já proferido
(e escrito)
Pelo mestre aqui
Que de mestre já está cheio
(e sem nenhum discípulo) - ou escrúpulo?
Inescrupuloso É
Aquele que ousou profanar meus segredos
Mexeu com os mais estimados neologismos
E que se danem os próximos "ismos"
Que um sismo derrube
A biblioteca de Alexandria
E que perturbe
A derrocada da Alegoria
Que já é grande
E me enaltece
Eu sou um Deus
e você reles mortal
Que me lê, que se ri
e que se compraz
com coisas muito importantes.
Mas o mais importante é
Não se deixar esquecer
Pois então que não pereça
Não feneça
A sua essência
Não se deixe enganar
Pois já está sendo enganado,
Obrigado.
:)
Procura mais de belas frases que decoram enigmas?
O senhor do mundo, o psíquico
Que diz dos ignorantes que não esclareceram a questão?
Pois que fiquem mais um tempo
Decifrando o que não se decifra
Replicar paradoxos
É meu mistério
Descobrir a essência dos mestres
e redarguir suas pontuações
É seu trabalho
-
E já acho hilário
Arrastar essa arenga
Como um macho que procura a fêmea
E não despacho
O seu desdém,
e nem também o amor que tem.
Descubra então
A partir de já
O mais sublime pináculo verborrágico já proferido
(e escrito)
Pelo mestre aqui
Que de mestre já está cheio
(e sem nenhum discípulo) - ou escrúpulo?
Inescrupuloso É
Aquele que ousou profanar meus segredos
Mexeu com os mais estimados neologismos
E que se danem os próximos "ismos"
Que um sismo derrube
A biblioteca de Alexandria
E que perturbe
A derrocada da Alegoria
Que já é grande
E me enaltece
Eu sou um Deus
e você reles mortal
Que me lê, que se ri
e que se compraz
com coisas muito importantes.
Mas o mais importante é
Não se deixar esquecer
Pois então que não pereça
Não feneça
A sua essência
Não se deixe enganar
Pois já está sendo enganado,
Obrigado.
:)
quinta-feira, agosto 12, 2010
O estranho familiar
Sempre gostei de encostar a caneta numa folha em branco, manifestando desejo estéril de registrar coisas que não conseguirei lembrar. Não sei se os escritos fluem bem, mas sempre me lembro de referências quando resolvo me manifestar em palavras. E uma experiência surreal, rica, vasta e aterrorizante que me tocou foi a leitura compulsiva do curto e profundo O Estrangeiro, do franco-argelino Albert Camus. Tudo lido em uma tarde de fim de primavera e começo de verão, com um deus solar tão quente e enlouquecedor quanto o calor da Argélia.
Mersault não chora no enterro de sua própria mãe e provoca a revolta silenciosa das convenções sociais. Eu choraria na morte da minha progenitora, mas entendo o personagem. Muitas vezes, não me sinto livre para manifestar abertamente o que sinto, e o jogo social de convenções é muito cruel. Mersault deseja apenas sexualmente sua parceira. E verbaliza isso. E essa mistura de homem e animal é presente em todas as pessoas, mesmo que essa natureza se esconda em uma suposta racionalidade.
Mersault mata um árabe a tiros. Mata a tiros por causa do Sol. Explica isso ao tribunal, que o reprova e o condena à morte. Mersault aceita a morte como uma vitória, porque a aceita e porque não quer entender seus motivos. Tudo, nesse jogo de ação absurda, é gratuito. O mundo, subitamente, ganha um ar de aleatoriedade que é a verdade absoluta dos fatos, mesmo dentro das crendices mais fanáticas no destino. O curso da vida não é nada mais do que a soma de seus fatos, com ou sem razão. Aquela leitura preencheu meu cérebro por horas, dias, meses, anos. Aquele Mersault era o abandono definitivo do passado e do futuro, além da aceitação da condição humana como animal. Animais dotados de sociedade, tecnologia e todo um sistema próprio de linguagem, mas ainda selvagens.
E aquele assassinato tornou-se a metáfora da escrita para mim, que é o amor da minha vida. Escrever é um absurdo. O documento escrito cria uma segurança para o homem. Preenche-o com um passado e um futuro. Preenche nossos conteúdos. No entanto, as reais motivações para se escrever são tão aleatórias quanto matar uma pessoa. Não precisaria escrever, pois outro o faria para mim. Não preciso correr atrás de uma informação, se existe um jornal que pode ser comprado, ou uma fofoca que pode ser ouvida.
Mesmo assim, eu ouso escrever. Ouso assumir o assassinato como Mersault e aceitar a sentença desse ato. A punição por escrever é saber que o passado e o futuro, um dia, serão varridos do mapa. Não há conforto.
Mersault não chora no enterro de sua própria mãe e provoca a revolta silenciosa das convenções sociais. Eu choraria na morte da minha progenitora, mas entendo o personagem. Muitas vezes, não me sinto livre para manifestar abertamente o que sinto, e o jogo social de convenções é muito cruel. Mersault deseja apenas sexualmente sua parceira. E verbaliza isso. E essa mistura de homem e animal é presente em todas as pessoas, mesmo que essa natureza se esconda em uma suposta racionalidade.
Mersault mata um árabe a tiros. Mata a tiros por causa do Sol. Explica isso ao tribunal, que o reprova e o condena à morte. Mersault aceita a morte como uma vitória, porque a aceita e porque não quer entender seus motivos. Tudo, nesse jogo de ação absurda, é gratuito. O mundo, subitamente, ganha um ar de aleatoriedade que é a verdade absoluta dos fatos, mesmo dentro das crendices mais fanáticas no destino. O curso da vida não é nada mais do que a soma de seus fatos, com ou sem razão. Aquela leitura preencheu meu cérebro por horas, dias, meses, anos. Aquele Mersault era o abandono definitivo do passado e do futuro, além da aceitação da condição humana como animal. Animais dotados de sociedade, tecnologia e todo um sistema próprio de linguagem, mas ainda selvagens.
E aquele assassinato tornou-se a metáfora da escrita para mim, que é o amor da minha vida. Escrever é um absurdo. O documento escrito cria uma segurança para o homem. Preenche-o com um passado e um futuro. Preenche nossos conteúdos. No entanto, as reais motivações para se escrever são tão aleatórias quanto matar uma pessoa. Não precisaria escrever, pois outro o faria para mim. Não preciso correr atrás de uma informação, se existe um jornal que pode ser comprado, ou uma fofoca que pode ser ouvida.
Mesmo assim, eu ouso escrever. Ouso assumir o assassinato como Mersault e aceitar a sentença desse ato. A punição por escrever é saber que o passado e o futuro, um dia, serão varridos do mapa. Não há conforto.
segunda-feira, agosto 02, 2010
Pra que serve?
Respondo com sinceridade:
Pra que serve um Avatar?
Só pra vender mais pipoca e ingresso?
Só pra divertir as noites tediosas de um povo brega que se deixa manipular tão facilmente por opiniões obtusas e ridículas, que não expressam nada absolutamente sobre nada e que ainda por cima facilitam a disseminação de partículas radioativas que fazem o cérebro enguiçar e trabalhar mais lentamente, contendo vírus que disseminam pragas que se alimentam de neurônios...
Já percebeste o quanto é importante saber da serventia das coisas?
Para que serviu a diáspora?
Só para disseminar mais judeus no mundo que contaminam o universo com versos de Hitler ( pois para quem não sabe, Adolph era fantoche de Judeus)
Para que serve o cotonete?
Só para empurrar mais sujeiras dentro dos ouvidos? Como se eles já não tivessem muito com o que se ocupar ouvindo diariamente besteiras que nada nos ajudam na nossa luta contra o controverso?
Pra que serve a mosca da fruta?
Só pra levar palmada? Ela nem tenta se esquivar, coitada!
Pra que serve a poesia?
Esgoto de cérebros contaminados por versos de Hitler e tantalizados pelas mesmas partículas radioativas que tentam ameaçar o mundo com seus esporos disseminadores de pragas alienígenas?
Pra que serve a serventia?
Pra deixar o servente que me lê um pouco mais confusos sobre as atrocidades cometidas neste poema NEM SEI SE DEVO CLASSIFICÁ-LO COMO TAL
Para que serve a claustrofobia?
A claustrofobia serve para muitas coisas, entre um de seus principais usos está o discernimento da insânia e da lucidez, pois uma vez preso dentro de uma Virgem de Nuremberg eu prefiro que Hitler me liquide pessoalmente.
Para que serve a paródia?
Para os de cérebro enguiçado e pouco criativos ganharem dinheiro com perdição de auditórios.
AQUI EXPONHO ALGUNS VERSOS DE MEU CÉREBRO ENCUCADO COM A RETIDÃO ABSOLUTA DE COISAS.
Para que serve?
Não sei, funciona?
Certamente, por quê?
Acostumbra-te.
Pra que serve um Avatar?
Só pra vender mais pipoca e ingresso?
Só pra divertir as noites tediosas de um povo brega que se deixa manipular tão facilmente por opiniões obtusas e ridículas, que não expressam nada absolutamente sobre nada e que ainda por cima facilitam a disseminação de partículas radioativas que fazem o cérebro enguiçar e trabalhar mais lentamente, contendo vírus que disseminam pragas que se alimentam de neurônios...
Já percebeste o quanto é importante saber da serventia das coisas?
Para que serviu a diáspora?
Só para disseminar mais judeus no mundo que contaminam o universo com versos de Hitler ( pois para quem não sabe, Adolph era fantoche de Judeus)
Para que serve o cotonete?
Só para empurrar mais sujeiras dentro dos ouvidos? Como se eles já não tivessem muito com o que se ocupar ouvindo diariamente besteiras que nada nos ajudam na nossa luta contra o controverso?
Pra que serve a mosca da fruta?
Só pra levar palmada? Ela nem tenta se esquivar, coitada!
Pra que serve a poesia?
Esgoto de cérebros contaminados por versos de Hitler e tantalizados pelas mesmas partículas radioativas que tentam ameaçar o mundo com seus esporos disseminadores de pragas alienígenas?
Pra que serve a serventia?
Pra deixar o servente que me lê um pouco mais confusos sobre as atrocidades cometidas neste poema NEM SEI SE DEVO CLASSIFICÁ-LO COMO TAL
Para que serve a claustrofobia?
A claustrofobia serve para muitas coisas, entre um de seus principais usos está o discernimento da insânia e da lucidez, pois uma vez preso dentro de uma Virgem de Nuremberg eu prefiro que Hitler me liquide pessoalmente.
Para que serve a paródia?
Para os de cérebro enguiçado e pouco criativos ganharem dinheiro com perdição de auditórios.
AQUI EXPONHO ALGUNS VERSOS DE MEU CÉREBRO ENCUCADO COM A RETIDÃO ABSOLUTA DE COISAS.
Para que serve?
Não sei, funciona?
Certamente, por quê?
Acostumbra-te.
Indubitavelmente..
Foi a palavra que escolhi
Porque encontrava-se logo ali
Na esquina do "não tou nem aí".
Fez parte do meu show
Muita bebida e roquenroll
Muita flor, que flor!
Indubitavelmente
é evidente
que não restam dúvidas.
Indubitavelmente.. em débitos
Descrédito com a sociedade
Deves muito? Devo tudo!
Devo tudo a você
Devo sim
Devoção.
Dividi!
Dividendos desacompanhados
Despejados
Desfolhados
Afago um trauma
De infância
Ambulãncia?
.. redundância.
Indubitavelmente
Indubitabilizei
O indubitabilizável? . Não
O neologista? O proctologista?
O minimalista?
O protagonista?
Indubitavelmente, foi a palavra que escolhi.
Porque encontrava-se logo ali
Na esquina do "não tou nem aí".
Fez parte do meu show
Muita bebida e roquenroll
Muita flor, que flor!
Indubitavelmente
é evidente
que não restam dúvidas.
Indubitavelmente.. em débitos
Descrédito com a sociedade
Deves muito? Devo tudo!
Devo tudo a você
Devo sim
Devoção.
Dividi!
Dividendos desacompanhados
Despejados
Desfolhados
Afago um trauma
De infância
Ambulãncia?
.. redundância.
Indubitavelmente
Indubitabilizei
O indubitabilizável? . Não
O neologista? O proctologista?
O minimalista?
O protagonista?
Indubitavelmente, foi a palavra que escolhi.
O Jardim de Rosas
Veja! Há flores hoje, em um campo onde não haviam;
Onde planta nenhuma crescia - nem a grama e o musgo
não conseguiam nascer
De um arado e muita labuta a força fez-se música
De esforço de bom grado e de luta que faz parte
E com muitos calos forma um belo gramado
A terra infértil ontem
Hoje incuba sementes de arte.
Essa semente de arte fez-se rosa
Vestida de veludo, doce
de um púrpura intenso
profundo.
Onde planta nenhuma crescia - nem a grama e o musgo
não conseguiam nascer
De um arado e muita labuta a força fez-se música
De esforço de bom grado e de luta que faz parte
E com muitos calos forma um belo gramado
A terra infértil ontem
Hoje incuba sementes de arte.
Essa semente de arte fez-se rosa
Vestida de veludo, doce
de um púrpura intenso
profundo.
O canto do Galo
Cinco horas da manhã e nem bem havia cerrado as pálpebras e lá se vai Pedro para longe do colchão duro, mas quente.
Ainda sente o perfume distante de uma cachaça amarga, tomada ao som de conversas atravessadas, em meio a rodadas de palitos na noite anterior, na birosca do Simão.
- Diabo de galo miserável.
A leiteira só esquenta água. Do lado de lá tem chá, presunto e muito queijo com pão quentinho, do lado de cá, o pão ainda dorme, há pouco pó para coar e o que sobra é fé.
Veste um pouco de calça e enfia as butina. O candidato do boné já retornou ao anonimato. O da camisa promete.
Não reclama da vida, nem da mulher, muito menos dos filhos. Não têm culpa de nada. Dormem os inocentes. Um beijo na mulher, que deixou a marmita no forno, com a sobra da janta que sobrara do almoço. Ela nunca saberá de Leonor. Beija os filhos, cada qual à sua maneira, mas com afeto indistinto. Não esquece um só dia.
- Se eu pego esse galo desgraçado, acabo com ele.
Cinco e meia, tá na hora de tomar rumo.
Desce a rua, atravessa a passarela, dobra a esquina, pula o bêbado, leva a marmita morna, espera o sinal fechar, desvia do carro, aperta o passo, não vai perder a hora.
Tira do bolso duas notas e uma prata, espera na fila, troca por bilhete, passa a catraca, espera na fila, desce a escada rolante, vira à direita, entra na fila, espera na fila, empurra a fila, a fila o empurra, perde a condução. Espera de novo, lá vem a condução, entra na marra, se segura como pode, se espreme, se enrosca, se entorta, segura a marmita, olha a curva! Olha o freio! Mais vinte paradas e será nossa vez! Olha o breque! Lá se vai a marmita ao chão. Ficam o arroz o feijão e o ovo estrelado, mas rolam as lingüiças, que não vão muito longe. São pinçadas de volta, assopradas e bem guardadas. Não vai deixar cair de novo.
Chega ao destino. É empurrado para fora do vagão, entra na fila, sobe a escada rolante, dobra à esquerda, passa na catraca, ganha a rua, de frente à igreja, com o polegar direito, parte a cara em quatro, o peito em quatro, segue adiante, chega ao canteiro. Não esquece o ponto.
Qual é o andar de Pedro? Apressado, mete a mão na massa. Qual é o andar de Pedro? Põe o capacete e sobe a escada devagar. Passa o segundo, o terceiro. O quarto trem três quartos, o menor maior que seu barraco, o maior é o sonho de toda uma vida. Continua a subir. Qual era mesmo o andar de Pedro? Pára no sexto. Não há mais andar.
A visibilidade é boa, a poluição ainda não é sufocante, as buzinas dos automóveis vão aos poucos substituindo as piadas de passarinhos. Não tem graça nenhuma, é piada cada vez mais rara. Não vai rir de nada.
- Ainda mato aquele galo filho da puta.
É bom de colher, sapeca a massa, pega a lajota, uma a uma, vai sumindo a paisagem. Aparece a cachaça não se sabe de onde. É hora do almoço. Toma um trago, faz cara feia. Pega a marmita e se vira para o canto. É bom de colher. Não quer companhia.
De volta à labuta, ainda zonzo da pestana breve. Cambaleia por entre as lajotas e meias paredes. Fabrica um quadrado vazio. Aos poucos vai se erguendo o labirinto e o homem lá, se encarcerando. Cadê as piadas? Cadê a luz? Não ouve as buzinas.
O galo canta fora de hora em cima do telhado. O sol fica vermelho.
No canteiro é hora de trocar de andar. Não quer falar. Vai até o fim da laje. Olha para baixo e vê os transeuntes a esquivarem-se uns dos outros, escolhe o momento de calmaria. Não hesita.
Qual é o andar de Pedro? Pedro não tem andar. É pássaro, mas não voa. Não é rei, mas sente-se príncipe. De pernas para o ar, não quer voltar.
Pressente o momento em que todos o cercarão estupefatos. Indignar-se-ão por ele interromper seus dias com sua vida banal. Não tem esse direito.
Lembra-se do galo, da mulher, das crianças, de Leonor. Esfrega os olhos. As lágrimas molham o cimento. O cimento arranha seus olhos. Seus olhos vêem o sol vermelho. Não os fechará.
Ônibus, carros, motos, pedestres. Todos param. O mundo finalmente parou para ver Pedro. A cidade não é toda de pedra.
Ainda sente o perfume distante de uma cachaça amarga, tomada ao som de conversas atravessadas, em meio a rodadas de palitos na noite anterior, na birosca do Simão.
- Diabo de galo miserável.
A leiteira só esquenta água. Do lado de lá tem chá, presunto e muito queijo com pão quentinho, do lado de cá, o pão ainda dorme, há pouco pó para coar e o que sobra é fé.
Veste um pouco de calça e enfia as butina. O candidato do boné já retornou ao anonimato. O da camisa promete.
Não reclama da vida, nem da mulher, muito menos dos filhos. Não têm culpa de nada. Dormem os inocentes. Um beijo na mulher, que deixou a marmita no forno, com a sobra da janta que sobrara do almoço. Ela nunca saberá de Leonor. Beija os filhos, cada qual à sua maneira, mas com afeto indistinto. Não esquece um só dia.
- Se eu pego esse galo desgraçado, acabo com ele.
Cinco e meia, tá na hora de tomar rumo.
Desce a rua, atravessa a passarela, dobra a esquina, pula o bêbado, leva a marmita morna, espera o sinal fechar, desvia do carro, aperta o passo, não vai perder a hora.
Tira do bolso duas notas e uma prata, espera na fila, troca por bilhete, passa a catraca, espera na fila, desce a escada rolante, vira à direita, entra na fila, espera na fila, empurra a fila, a fila o empurra, perde a condução. Espera de novo, lá vem a condução, entra na marra, se segura como pode, se espreme, se enrosca, se entorta, segura a marmita, olha a curva! Olha o freio! Mais vinte paradas e será nossa vez! Olha o breque! Lá se vai a marmita ao chão. Ficam o arroz o feijão e o ovo estrelado, mas rolam as lingüiças, que não vão muito longe. São pinçadas de volta, assopradas e bem guardadas. Não vai deixar cair de novo.
Chega ao destino. É empurrado para fora do vagão, entra na fila, sobe a escada rolante, dobra à esquerda, passa na catraca, ganha a rua, de frente à igreja, com o polegar direito, parte a cara em quatro, o peito em quatro, segue adiante, chega ao canteiro. Não esquece o ponto.
Qual é o andar de Pedro? Apressado, mete a mão na massa. Qual é o andar de Pedro? Põe o capacete e sobe a escada devagar. Passa o segundo, o terceiro. O quarto trem três quartos, o menor maior que seu barraco, o maior é o sonho de toda uma vida. Continua a subir. Qual era mesmo o andar de Pedro? Pára no sexto. Não há mais andar.
A visibilidade é boa, a poluição ainda não é sufocante, as buzinas dos automóveis vão aos poucos substituindo as piadas de passarinhos. Não tem graça nenhuma, é piada cada vez mais rara. Não vai rir de nada.
- Ainda mato aquele galo filho da puta.
É bom de colher, sapeca a massa, pega a lajota, uma a uma, vai sumindo a paisagem. Aparece a cachaça não se sabe de onde. É hora do almoço. Toma um trago, faz cara feia. Pega a marmita e se vira para o canto. É bom de colher. Não quer companhia.
De volta à labuta, ainda zonzo da pestana breve. Cambaleia por entre as lajotas e meias paredes. Fabrica um quadrado vazio. Aos poucos vai se erguendo o labirinto e o homem lá, se encarcerando. Cadê as piadas? Cadê a luz? Não ouve as buzinas.
O galo canta fora de hora em cima do telhado. O sol fica vermelho.
No canteiro é hora de trocar de andar. Não quer falar. Vai até o fim da laje. Olha para baixo e vê os transeuntes a esquivarem-se uns dos outros, escolhe o momento de calmaria. Não hesita.
Qual é o andar de Pedro? Pedro não tem andar. É pássaro, mas não voa. Não é rei, mas sente-se príncipe. De pernas para o ar, não quer voltar.
Pressente o momento em que todos o cercarão estupefatos. Indignar-se-ão por ele interromper seus dias com sua vida banal. Não tem esse direito.
Lembra-se do galo, da mulher, das crianças, de Leonor. Esfrega os olhos. As lágrimas molham o cimento. O cimento arranha seus olhos. Seus olhos vêem o sol vermelho. Não os fechará.
Ônibus, carros, motos, pedestres. Todos param. O mundo finalmente parou para ver Pedro. A cidade não é toda de pedra.
domingo, agosto 01, 2010
Sem complicar
Ela caminhava alegremente pelo espaço destinado às pessoas que não possuíam aparelhos de locomoção por força motora autônoma e artificial quando avistou aquele que num certo período indeterminado e não presente de vinte e quatro horas viria a ser o ser que a assumiria como a única com a qual ele teria uma relação de fidelidade para fins de sentimentos nobres e geração de seres menores apenas em tamanho e de características genéticas oriundas da combinação das suas e que levariam parte da composição de seus desígnios fonéticos.
Ele gostou dela e a desejou.
Ela não conseguia concatenar um processo sequer de sinapses bem sucedidas que implicassem em resultados satisfatórios do ponto de vista da ausência absoluta de qualquer razão que fosse capaz de resumir o volume inestimável de sensações corpóreas que se acumulavam naquelas três repetições de centena de segundos subseqüentes.
Ele tomou a iniciativa e foi falar com ela.
O processo de inalação e eliminação do elemento gasoso fundamental para a manutenção da vida ganhou sincronia desproporcional ao habitual nas vias condutoras do invólucro carnal daquela representante do gênero superior. Percebeu que já não era a principal condutora dos movimentos do sistema articulado.
Ele segurou a sua mão e curvou-se até tocar-lhe seus lábios na branca tez.
Para ela a propagação da energia que emanava do corpo celestial maior desapareceu e apenas a ausência poderia ser captada pelos seus dispositivos perceptivos.
Ele a segurou e com um copo de água trouxe-lhe de volta à consciência.
Ela dirigiu-lhe uma formação simples de palavras em tom interrogativo a respeito do sucedido.
Um mau súbito apenas.
Jamais se daria por plena a proposição do cavalheiro. Procurou auxílio profissional daqueles cujo ofício é reorganizar os pensamentos e domar os impulsos, mas nenhuma proposta de resolução de dúvidas foi bem aceita. Restava-lhe as palavras sugestivas daquele ser que mais estimamos por ter nos gerado, parido e alimentado até que ganhássemos auto suficiência e responsabilidade sobre nossos atos. Foi um hiato temporal que não contabilizou mais do que duas vezes a centena de milésimos:
- É o amor, minha criança.
Ele gostou dela e a desejou.
Ela não conseguia concatenar um processo sequer de sinapses bem sucedidas que implicassem em resultados satisfatórios do ponto de vista da ausência absoluta de qualquer razão que fosse capaz de resumir o volume inestimável de sensações corpóreas que se acumulavam naquelas três repetições de centena de segundos subseqüentes.
Ele tomou a iniciativa e foi falar com ela.
O processo de inalação e eliminação do elemento gasoso fundamental para a manutenção da vida ganhou sincronia desproporcional ao habitual nas vias condutoras do invólucro carnal daquela representante do gênero superior. Percebeu que já não era a principal condutora dos movimentos do sistema articulado.
Ele segurou a sua mão e curvou-se até tocar-lhe seus lábios na branca tez.
Para ela a propagação da energia que emanava do corpo celestial maior desapareceu e apenas a ausência poderia ser captada pelos seus dispositivos perceptivos.
Ele a segurou e com um copo de água trouxe-lhe de volta à consciência.
Ela dirigiu-lhe uma formação simples de palavras em tom interrogativo a respeito do sucedido.
Um mau súbito apenas.
Jamais se daria por plena a proposição do cavalheiro. Procurou auxílio profissional daqueles cujo ofício é reorganizar os pensamentos e domar os impulsos, mas nenhuma proposta de resolução de dúvidas foi bem aceita. Restava-lhe as palavras sugestivas daquele ser que mais estimamos por ter nos gerado, parido e alimentado até que ganhássemos auto suficiência e responsabilidade sobre nossos atos. Foi um hiato temporal que não contabilizou mais do que duas vezes a centena de milésimos:
- É o amor, minha criança.
sábado, julho 24, 2010
Batalha inglória.
Pensamentos adormecem sob as muralhas, e na imensidão das brumas vislumbro o amanhecer.
A ausência do desconhecido.
Um querer ser.
Uma espera eterna de algo impróprio.
Um caminho condenado aos olhos dos outros.
Sois mulher de mil estrelas, à magia condenada.
És diurna tua beleza.
Porém noturna tua jornada.
- Não encontrarás a felicidade nessa estrada, estranha.
* Mas é este o caminho que quero seguir!
- Não é o teu.
* Mas me ensinaste que as escolhas constroem o caminho!
- Por ai serás infeliz.
* Mais infeliz o arrependimento me fará
- Azar o teu, foi avisada!
* O dispenso de qualquer lamúria, as consequências e penas quitarei sozinha, se és solitária esta estrada.
Caminharás até quando mulher?
Sofrerás até quando?
Chorará até quando?
O que procuras?
Que respostas? Que carícias?
Quais sonhos ainda lhe faltam despedaçar?
És rainha de teu palco, é inegável, traz nos lábios o sorriso dos amantes.
Mas seu coração sangra as dores da vida, ferido por mil facas.
Que mortalhas quererá?
- És cruel esta estrada, por que segues por ela?
* E que outro caminho tenho eu a seguir, se estes são os rumos escolhidos por este morto coração?
- Tantos outros existem.
* Quantos que eu queira como este? Nenhum outro, não neste momento.
- Repito-lhe não és o teu.
* Se caminho solitária nessa estrada de quem mais há de ser?
- De alguém que o renega como tu o deseja.
* Então não és justo que seja dele e não meu, se é do meu querer e seu rejeito, pode a ocasião ser mais própria.
- O outro será infeliz por rejeitar e tu serás infeliz por escolher.
* Que mundo injusto este! Se sou dócil e busco com afinco alcaçar o final desta jornada que jamais poderei tocar, és possível que quem está a passos poucos da vitória se nega a esticar as mãos? O Deus, porque foste este o teu desejo? Faz-me entender!
Caminhará sozinha.
Consciente que jamais alcançará a vitória.
Ainda assim caminhará sem descanso até a exaustão.
Por que mulher?
Que desejo é este?
Que querer é este?
Que busca mais insensata?
Não posso entender os homens e suas paixões pela vitória,
e menos as mulheres e suas batalhas inglórias.
A ausência do desconhecido.
Um querer ser.
Uma espera eterna de algo impróprio.
Um caminho condenado aos olhos dos outros.
Sois mulher de mil estrelas, à magia condenada.
És diurna tua beleza.
Porém noturna tua jornada.
- Não encontrarás a felicidade nessa estrada, estranha.
* Mas é este o caminho que quero seguir!
- Não é o teu.
* Mas me ensinaste que as escolhas constroem o caminho!
- Por ai serás infeliz.
* Mais infeliz o arrependimento me fará
- Azar o teu, foi avisada!
* O dispenso de qualquer lamúria, as consequências e penas quitarei sozinha, se és solitária esta estrada.
Caminharás até quando mulher?
Sofrerás até quando?
Chorará até quando?
O que procuras?
Que respostas? Que carícias?
Quais sonhos ainda lhe faltam despedaçar?
És rainha de teu palco, é inegável, traz nos lábios o sorriso dos amantes.
Mas seu coração sangra as dores da vida, ferido por mil facas.
Que mortalhas quererá?
- És cruel esta estrada, por que segues por ela?
* E que outro caminho tenho eu a seguir, se estes são os rumos escolhidos por este morto coração?
- Tantos outros existem.
* Quantos que eu queira como este? Nenhum outro, não neste momento.
- Repito-lhe não és o teu.
* Se caminho solitária nessa estrada de quem mais há de ser?
- De alguém que o renega como tu o deseja.
* Então não és justo que seja dele e não meu, se é do meu querer e seu rejeito, pode a ocasião ser mais própria.
- O outro será infeliz por rejeitar e tu serás infeliz por escolher.
* Que mundo injusto este! Se sou dócil e busco com afinco alcaçar o final desta jornada que jamais poderei tocar, és possível que quem está a passos poucos da vitória se nega a esticar as mãos? O Deus, porque foste este o teu desejo? Faz-me entender!
Caminhará sozinha.
Consciente que jamais alcançará a vitória.
Ainda assim caminhará sem descanso até a exaustão.
Por que mulher?
Que desejo é este?
Que querer é este?
Que busca mais insensata?
Não posso entender os homens e suas paixões pela vitória,
e menos as mulheres e suas batalhas inglórias.
quarta-feira, julho 21, 2010
Ciborgue Mobile
Liga o celular, olha tweets, acessa remotamente
O expediente de trabalho, o roteiro que interpreta
A vida, experimenta a visão do resto do mundo,
Se cerca de dados e artifícios, de formatos
De áudio e vídeo.
Não consegue largar o aparelhinho,
Não consegue paz no caminho,
Só consegue ser máquina
Do seu próprio pensamento.
O expediente de trabalho, o roteiro que interpreta
A vida, experimenta a visão do resto do mundo,
Se cerca de dados e artifícios, de formatos
De áudio e vídeo.
Não consegue largar o aparelhinho,
Não consegue paz no caminho,
Só consegue ser máquina
Do seu próprio pensamento.
terça-feira, julho 20, 2010
Navalha
Se podes caminhar pelas ruas
ande nua pela vida, menina!
Não escondas o teu rosto dos homens
nem viaje preza a seus designos divinos
Pois a arte é fundamentalmente sua sina
És presente na mente dos homens
És mulher de mil amantes em palavras vãs
é pois a pura filosofia da mesa dos bares e dos sacos de pão
E o teu rosto envolto em fumaça dos cigarros nas esquinas
toca esses arritimados músculos cardíacos
Pois é a expressão da sorte
mas traz nos olhos as sombras da morte.
ande nua pela vida, menina!
Não escondas o teu rosto dos homens
nem viaje preza a seus designos divinos
Pois a arte é fundamentalmente sua sina
És presente na mente dos homens
És mulher de mil amantes em palavras vãs
é pois a pura filosofia da mesa dos bares e dos sacos de pão
E o teu rosto envolto em fumaça dos cigarros nas esquinas
toca esses arritimados músculos cardíacos
Pois é a expressão da sorte
mas traz nos olhos as sombras da morte.
Valsando ao som dos Bandolins
( Experiência com releitura e interpolação)
“Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos Bandolins... “
E nos giros
Nas voltas da vida
O retroceder das cores
Os passos marcados pelo chão.
E no brilho das noites
O sorrir da lua
os olhos desencontrados na imensidão
“E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim”
Perdidos entre os sons e os suspiros
a procurar os sonhos
em meio a escuridão
“Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim “
Mas há cores nas sais
brilhos nos olhos
procuras na mente
caminhos na vida.
“Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos Bandolins.."
“Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos Bandolins... “
E nos giros
Nas voltas da vida
O retroceder das cores
Os passos marcados pelo chão.
E no brilho das noites
O sorrir da lua
os olhos desencontrados na imensidão
“E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim”
Perdidos entre os sons e os suspiros
a procurar os sonhos
em meio a escuridão
“Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim “
Mas há cores nas sais
brilhos nos olhos
procuras na mente
caminhos na vida.
“Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos Bandolins.."
quarta-feira, julho 14, 2010
conto premiado
um corte
por ítalo puccini
uma pausa. forçada.
ana e bruno sentiram foi isso mesmo. além da dor, é claro. estirados sobre a cama – bagunçada. não pensavam. respiravam. mas queriam pensar. ana e bruno sentiram foi isso mesmo. uma vontade de pensar. um desejo de não ter que. estirados sobre a cama, ana e bruno. lado a lado. mas não próximos. o suficiente para estar. somente. não para pensar. ou para agir.
ana e bruno transavam. um acaso. começaram não por um beijo, mas pelas roupas. ana e bruno transavam. mas antes tiraram as roupas um do outro. ágeis, para isto. as mãos. não mais que. ana e bruno souberam usar foram as mãos. primeiro nas roupas. não por coincidência, as peças ficaram simetricamente estendidas ao chão. ana e bruno não puderam reparar. mas as peças ficaram lá. simetricamente estendidas. ao chão. mesmo. mas ana e bruno não puderam reparar.
sentiram foi isso mesmo. uma ruptura. enquanto transavam. primeiro foram os corpos. que se romperam. depois das roupas. primeiro foram os corpos. de ana e bruno. que se encontraram. que não se procuraram, mas que se encontraram. antes de transarem. antes as mãos e os corpos. reconhecendo-se. procurando-se. então as roupas. arrancadas. longe. ao chão. ana e bruno não puderam reparar na simetria das roupas. mas sentiam a simetria dos corpos. sentiram a simetria dos seus corpos, antes. sentiam. agora também.
ana e bruno sentiram foi isso mesmo. uma vontade de pensar. porque já sentiam. mas que. ana e bruno transavam. e não mais. uma procura. logo um encontro. as mãos. os corpos. ana e bruno se completavam. frente e verso. um dentro do outro. era assim que ana e bruno transavam. quando.
as mãos de ana desceram logo. as mãos de ana eram ágeis, sim. desceram pelo peito de bruno. arranharam-no. desceram logo. as mãos de ana – e também a língua de ana – procuravam por bruno. por tudo o que fosse de bruno. pelos cabelos no peito de bruno. pelo piercing no mamilo esquerdo de bruno. pelos ossos do quadril de bruno. que.
que não sabia o que sentia. a língua de ana. as mãos de ana. seus olhos. os seus, não os de ana. seus olhos virados, torcidos. seus olhos que sentiam. eles. elas. as pernas tremendo. as coxas sendo arranhadas. os cabelos do peito sendo puxados. bruno não sabia o que sentia. o membro duro, agarrado, apertado, puxado. pralá e pracá. pralá e pracá. pralá e pracá. bruno não sabia.
as mãos de ana desceram logo. chegaram logo aonde. agarraram logo. e forte. as mãos de ana. aquelas mãos. que arranharam. que rasgaram. as mãos. que ritmavam o movimento do membro duro de bruno. pralá e pracá. pralá e pracá. sob os gemidos de bruno. agora os gemidos de bruno. os sons guturais. as entranhas de bruno sob a mão de ana. simbolicamente. mas sim. sob. as mãos de ana.
os sons guturais de bruno. pralá e pracá. bruno que não sabia o que sentia.
sentiram foi isso mesmo. ana e bruno. foi antes. o membro, as mãos. foi antes. até que.
agora deitados não sentem mais. sentiram. não mais sentem. foi um corte só. ou dois, talvez. umemdois. foi de ana. quando as mãos de ana desceram logo. e quando bruno não sabia o que sentia. se era frio ou não. se eram as unhas de ana ou não. mas doeu, sentiu bruno. foi isso o que bruno sentiu. que doeu. mas ana sorria. sorria e ria alto. ana. por isso bruno não sabia o que sentia. quando as mãos de ana desciam. e quando agarravam seu membro duro. foi a última coisa que bruno viu. seu membro duro. de prazer. foi quando bruno fechou os olhos. e de repente sentiu frio. e não entendeu. e não entendeu. mas sentiu.
foi quando.
as mãos de ana. não mais que. as unhas de ana. cortantes. o corte primeiro. as mãos de ana. aquilo que elas escondiam. uma ponta. só uma. não mais que. um corte. só um. depois os outros. um corte. e o frio de bruno. e o riso de ana. um corte e um membro não mais duro. um corte. só. e um membro. e as mãos de ana. e o membro. não mais.
e depois.
um corte. outro. e mais outro. e não mais bruno.
e um último.
um corte.
e não mais ana.
_ _ _ _ _
conto premiado com o segundo lugar no concurso de contos jaraguaenses, organizado por joão luis chiodini. presente no livro "mundo infinito", que contém os catorze melhores textos do concurso.
domingo, julho 04, 2010
Queria ser um anjo
Para ter asas e voar,
Para ser algo belo e próximo do homem,
E ter a frieza e a consciência das alturas,
Ter em meu ser a arte e a maldade,
Artificialidade constituída nas loucuras
Da fuga racional, da construção
Além dos limites do corpo e da matéria,
Da fuga e do encontro com o humano,
Enquanto boneco, simulacro.
Sou anjo, ciborgue, inumanidade,
Desunido, desumano, munido
De armas apocalípticas, de vigilância e demência
Generalizada, sou a câmera e clarividência
Duvidosas, quebro quebrar meu corporal,
Me espatifar em partes, chegar em Deus
E desintegrar minha face.
domingo, junho 20, 2010
Minha Paris
Post original do AB Strato.
Talvez ela não tenha tanto ar blasè,
Talvez não tenha sotaque, não tenha história e nem cause
Baque nas outras culturas, minha Paris
Tem um Sena de ouro, os louros
De César, os mouros,
Os negros e rotos.
Minha Paris é um mundo de portas fechadas,
Porque as liberdades, eu sei, são só fachada,
Minha Paris não é Olimpo
E, se existe alguém limpo,
Vive dentro de mim,
Apertando meu sinto.
Talvez ela não tenha tanto ar blasè,
Talvez não tenha sotaque, não tenha história e nem cause
Baque nas outras culturas, minha Paris
Tem um Sena de ouro, os louros
De César, os mouros,
Os negros e rotos.
Minha Paris é um mundo de portas fechadas,
Porque as liberdades, eu sei, são só fachada,
Minha Paris não é Olimpo
E, se existe alguém limpo,
Vive dentro de mim,
Apertando meu sinto.
A Escola
Mora dentro de todos nós. Não sei se todo mundo que me conhece saca disso, mas é por isso que eu gosto tanto de aula, de discussão e de aprender. Não se trata de acreditar cegamente em instituições que claramente te manipulam em muitos aspectos, mas de acreditar que alguns professores podem ser seus amigos e que o seu cérebro é seu templo de crescimento.
Se você abandona as convenções escolares e as normas de teus pais, pelo menos aprenda por si, torne seu tempo produtivo, nos ócios e nos ofícios. Isso traz sofrimento, mas também desenvolvimento e o tempo em si. Sem escola, não há hora, nenhuma delas.
A cabeça
É pequena pra tanto conhecimento,
Pra tanta prática e tanto intento,
Pra tanta regra e consentimento,
Pra tanta demanda e tantos elementos.
Mas é gigante para o fascínio,
Para o martírio, para o que eu resisto.
Pra tanta prática e tanto intento,
Pra tanta regra e consentimento,
Pra tanta demanda e tantos elementos.
Mas é gigante para o fascínio,
Para o martírio, para o que eu resisto.
sexta-feira, junho 18, 2010
O antigo e moderno escritor faleceu

Post original do Bola da Foca.
Mensagem do site JoséSaramago.org.
"Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12.30 horas na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença.
O escritor morreu estando acompanhado pela sua família,
despedindo-se de uma forma serena e tranquila.
despedindo-se de uma forma serena e tranquila.
Fundação José Saramago. 18 de Junho de 2010."
Ele escrevia somente com vírgulas e pontos finais. Ele era ateu e, mesmo assim, era atrevido o suficiente para escrever sobre religião. Ele defendia o uso do idioma português como a maioria dos escritores brasileiros, portugueses e todos que conhecem esse código de linguagem único. Defendendo esse código, ele faturou o prêmio Nobel de Literatura de 1998. Algumas de suas obras são Ensaio Sobre a Cegueira, Intermitências da Morte, Evangelho Segundo Jesus Cristo, Todos os Nomes e Caim.
O português José Saramago nasceu em 1922, viu a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, conheceu os jornais portugueses ao longo da carreira e traduziu experiências humanas em situações extremas em suas ficções. O escritor era tão situado em seu tempo que criou, inclusive, um blog, chamado O Caderno. Não parou no tempo e traduziu suas ideias para um site, não ficando preso no papel.
Era um intelectual antigo, de 87 anos, no mundo moderno. No último post dele em seu blog, reclamou da falta de filosofia do mundo, na falta de pensamentos profundos das pessoas. Sua afirmação era verdade pelas reações à sua morte no twitter hoje, oscilando entre brincadeiras impróprias e reações realmente emocionadas.
O português José Saramago nasceu em 1922, viu a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, conheceu os jornais portugueses ao longo da carreira e traduziu experiências humanas em situações extremas em suas ficções. O escritor era tão situado em seu tempo que criou, inclusive, um blog, chamado O Caderno. Não parou no tempo e traduziu suas ideias para um site, não ficando preso no papel.
Era um intelectual antigo, de 87 anos, no mundo moderno. No último post dele em seu blog, reclamou da falta de filosofia do mundo, na falta de pensamentos profundos das pessoas. Sua afirmação era verdade pelas reações à sua morte no twitter hoje, oscilando entre brincadeiras impróprias e reações realmente emocionadas.
quarta-feira, junho 09, 2010
Botão ligado emperrado
Me torno um humano emburrecido,
Uma nervura ensadecida,
Olheiras dispostas, carne composta
Pelo passar das horas, ornada
Pela atividade sem cessar.
Uma nervura ensadecida,
Olheiras dispostas, carne composta
Pelo passar das horas, ornada
Pela atividade sem cessar.
terça-feira, junho 08, 2010
Preenchimentos diferentes
Sozinho, indeciso, indeterminado, desiludido,
Não existe príncipes em castelos encantados,
Nem homens perfeitos, arrumados.
Sobram os preenchimentos para este vazio
Que me cerca, que me parece perfeito
Para um novo companheiro,
Ou uma noite de loucura, fora da amargura
Desse conjunto vazio.
Mas noto que há presenças,
Há amizades, há diferenças
Entre o que a realidade me mostra
E as minhas carências.
Há carências em todos os lugares
E satisfações em medidas distintas,
Há sensações em rostos únicos
Misturados com momentos mudos
De puro preenchimento.
E ir no cinema com a namorada, ou namorado,
Limita o número de filmes possíveis,
E, entre beijos, às vezes preciso olhar para os lados,
Não trocar saliva, procurar um sentimento infantil,
Um cantil de água para tomar fôlego
E conviver com preenchimentos únicos,
Diferentes.
Para Mariana Bruno
Não existe príncipes em castelos encantados,
Nem homens perfeitos, arrumados.
Sobram os preenchimentos para este vazio
Que me cerca, que me parece perfeito
Para um novo companheiro,
Ou uma noite de loucura, fora da amargura
Desse conjunto vazio.
Mas noto que há presenças,
Há amizades, há diferenças
Entre o que a realidade me mostra
E as minhas carências.
Há carências em todos os lugares
E satisfações em medidas distintas,
Há sensações em rostos únicos
Misturados com momentos mudos
De puro preenchimento.
E ir no cinema com a namorada, ou namorado,
Limita o número de filmes possíveis,
E, entre beijos, às vezes preciso olhar para os lados,
Não trocar saliva, procurar um sentimento infantil,
Um cantil de água para tomar fôlego
E conviver com preenchimentos únicos,
Diferentes.
Para Mariana Bruno
quarta-feira, maio 19, 2010
Na beira
Passo fio a fio em margem a imensidão
E ao som de jazz e blues
vou deixando essa desilusão.
Em passos
Neles vejo o mar.
Apagando pegadas.
Ao me chamar,
a doce mãe do oceano
embala um som.
O lamento de seus filhos,
esquecidos.
E a bateria,
imita meu coração.
Como ele poderia saber que é tão triste?
Como eu poderia saber que é tão belo?
E ao som de jazz e blues
vou deixando essa desilusão.
Em passos
Neles vejo o mar.
Apagando pegadas.
Ao me chamar,
a doce mãe do oceano
embala um som.
O lamento de seus filhos,
esquecidos.
E a bateria,
imita meu coração.
Como ele poderia saber que é tão triste?
Como eu poderia saber que é tão belo?
segunda-feira, abril 05, 2010
domingo, março 28, 2010
Pares atraentes
Não se encaixam, não são quebras-cabeças,
Não são cabras a serem adestradas, patas de um bicho
Decupável, classificável no reino dos nichos
Das espécies, biologias dos ridículos
Rebanhos de ovelhas adestradas.
Pares atraentes são como véus em queda,
Cascas finas de transformação, vê-las instáveis
Na completa escuridão,
Pares atraentes são delicados, são frágeis
Como o ágil pensar
E o difícil sentir.
Não são cabras a serem adestradas, patas de um bicho
Decupável, classificável no reino dos nichos
Das espécies, biologias dos ridículos
Rebanhos de ovelhas adestradas.
Pares atraentes são como véus em queda,
Cascas finas de transformação, vê-las instáveis
Na completa escuridão,
Pares atraentes são delicados, são frágeis
Como o ágil pensar
E o difícil sentir.
sábado, fevereiro 20, 2010
Hipnodança
Dance, dance, hipnodança
A vírgula de olhos hipnotireóidicos
O palhaço estreou na dança
Atravessada em sua garganta, uma lança
Minhas mãos, hipercalejadas
E meus olhos, hiperdilatados
Da êxtase o vinho dos deuses
Eu ponho a venda os olhos
É um maligno affair, orgia orquestrada
Já não preciso mais sentir
Só sei é curtir
Dance a dança
Hipnodança
Hipnofálica
Hipnodrástica
Hipnomágica
A vírgula de olhos hipnotireóidicos
O palhaço estreou na dança
Atravessada em sua garganta, uma lança
Minhas mãos, hipercalejadas
E meus olhos, hiperdilatados
Da êxtase o vinho dos deuses
Eu ponho a venda os olhos
É um maligno affair, orgia orquestrada
Já não preciso mais sentir
Só sei é curtir
Dance a dança
Hipnodança
Hipnofálica
Hipnodrástica
Hipnomágica
Originalmente havia um sentido
Aqui deixo meu veredicto
Sobre aquele místico que já se foi
Naquele dia que já não existe
Com suas lembranças já apagadas
Se algum dia hei de abandonar em desalento
Não posso julgar tanto quanto demonstro
Acho que às vezes esconde-se em mim
Um monstro
A propósito final
A agulha fatal
Me concede um ponto doce
Ignore-me ou desmorone-se
Sobre aquele místico que já se foi
Naquele dia que já não existe
Com suas lembranças já apagadas
Se algum dia hei de abandonar em desalento
Não posso julgar tanto quanto demonstro
Acho que às vezes esconde-se em mim
Um monstro
A propósito final
A agulha fatal
Me concede um ponto doce
Ignore-me ou desmorone-se
Aceitável Modificação
A vida passa e os carros passam
Passo mal até o fim do mês
Aceito passe e passe bem
Passe a bola ou passe a vez
(Sereno vivo e não muito longe
Da fortaleza onde já fui rei)
Passo mal até o fim do mês
Aceito passe e passe bem
Passe a bola ou passe a vez
(Sereno vivo e não muito longe
Da fortaleza onde já fui rei)
terça-feira, fevereiro 16, 2010
Estantes
Somos como dois livros, sabe?
Nos damos bem quando possuímos intertextos,
Trocamos citações, conceitos, argumentações,
Parecemos pinturas com tintas misturadas,
Parecemos links de internet, texto com contexto.
Mas temo
Quando estamos em estantes opostas,
Separados por outros escritos, entrepostos
De confusões temáticas, de línguas estáticas,
Pouco congruentes, sem a continuidade da letra,
Do amor entre e com palavras.
Nos damos bem quando possuímos intertextos,
Trocamos citações, conceitos, argumentações,
Parecemos pinturas com tintas misturadas,
Parecemos links de internet, texto com contexto.
Mas temo
Quando estamos em estantes opostas,
Separados por outros escritos, entrepostos
De confusões temáticas, de línguas estáticas,
Pouco congruentes, sem a continuidade da letra,
Do amor entre e com palavras.
segunda-feira, fevereiro 15, 2010
Vida a dois
Não é uma reunião atroz,
É uma conjunção, uma assembléia a sós,
Com corpos misturados, rastros de sentidos,
Comunicação empírica, reino dos duplos sozinhos.
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Uma poesia por segundo
Se perde no trânsito do cotidiano urbano.
Se retrái no concreto desumano.
Ressoa pelos ventos interioranos.
Dissipa na brisa da praia.
Se perde no fôlego da minha fala.
Se retrái no concreto desumano.
Ressoa pelos ventos interioranos.
Dissipa na brisa da praia.
Se perde no fôlego da minha fala.
Grupo, sopa do mundo, colher
Estava imerso em um caldo de galinha,
Misturado aos meus amigos poetas, no molho
Do processo criativo, agora estou no ocioso
Período artístico, escrevendo
Sozinho.
Misturado aos meus amigos poetas, no molho
Do processo criativo, agora estou no ocioso
Período artístico, escrevendo
Sozinho.
Batman
Trauma de pais, trauma dos males,
Morcego ridículo, noite sem ritmo,
Voz rouca, filmes no lodo, na chuva,
No mofo, na caverna, na taberna
Sem cerveja ou poderes,
Sem muitos dizeres.
Batendo em palhaço maluco,
Correndo da polícia, em surto,
Eis o amor cego noturno,
O morcego.
Morcego ridículo, noite sem ritmo,
Voz rouca, filmes no lodo, na chuva,
No mofo, na caverna, na taberna
Sem cerveja ou poderes,
Sem muitos dizeres.
Batendo em palhaço maluco,
Correndo da polícia, em surto,
Eis o amor cego noturno,
O morcego.
Perdi o texto
Perdi
a
cifra
da
frase
e
poesia
na
síntese.
Perdi a tese sim, porque a cifra da viola
Não se encontra na frase adequada.
Incompletei a música. Sentença e contexto. Meu texto.
a
cifra
da
frase
e
poesia
na
síntese.
Perdi a tese sim, porque a cifra da viola
Não se encontra na frase adequada.
Incompletei a música. Sentença e contexto. Meu texto.
Super-Homem
Alien adotado como protetor nacional,
Estrangeiro sem passado e nem futuro
Com um comportamento presente estranho:
Vale (a pena) salvar um gato no telhado,
Enquanto ele pode ver todos nus pelos olhos
Vermelhos e censores, protetores?
Estranho no ninho, podia pulverizar o franzino
Homem, diante do seu poderio.
Estrangeiro sem passado e nem futuro
Com um comportamento presente estranho:
Vale (a pena) salvar um gato no telhado,
Enquanto ele pode ver todos nus pelos olhos
Vermelhos e censores, protetores?
Estranho no ninho, podia pulverizar o franzino
Homem, diante do seu poderio.
Homem-Aranha
Grudado no telhado, grudado nos livros,
Grudado na vizinha desejada, grudado nos quadrinhos,
Desgrudado do pudor ao ridículo, herói inseto mísero,
Pula através de cordas até o céu maldito
Do dia risível em que um lunático vai trocar
O estável pelo duvidoso.
Homem que toca ladrilhos, magro de repuxar pele até as costelas,
Seus sentidos são uma lanterna diante do perigo.
Grudado na vizinha desejada, grudado nos quadrinhos,
Desgrudado do pudor ao ridículo, herói inseto mísero,
Pula através de cordas até o céu maldito
Do dia risível em que um lunático vai trocar
O estável pelo duvidoso.
Homem que toca ladrilhos, magro de repuxar pele até as costelas,
Seus sentidos são uma lanterna diante do perigo.
Quadrinhos
Por que narrar?
Se posso esticar balões, quadrados, losangos, formas geométricas,
Rascunhar uma silhueta, rabiscar uma barba, dar uma noção em etapas
Ilustrativas para o que pretendo mencionar, registrar?
Se posso esticar balões, quadrados, losangos, formas geométricas,
Rascunhar uma silhueta, rabiscar uma barba, dar uma noção em etapas
Ilustrativas para o que pretendo mencionar, registrar?
Micropoesia
É coisa de poeta pouco desenvolvido,
Ou de gente pouco louca,
É pedaço mal-acabado do cotidiano,
Ou universo selado num imenso nada,
Definitivamente é indefinição de poeta
Porco na atitude, porco.
Ou de gente pouco louca,
É pedaço mal-acabado do cotidiano,
Ou universo selado num imenso nada,
Definitivamente é indefinição de poeta
Porco na atitude, porco.
Interrompa o jornalismo
Pare as rotativas, os sites de fofocas, as pautas escabrosas,
Abram as janelas das redações e cultuem
A não-expressividade, a falta de fato, o tato sem objeto.
Abram as janelas das redações e cultuem
A não-expressividade, a falta de fato, o tato sem objeto.
Paixão por baquetas
Ritmo perneta, ou com dois pés num pedal duplo,
Dos surdos aos bumbos, quebrando pratos,
Tenho uma percussão com ritmo, mesmo
Aos socos, nos descompassos.
Dos surdos aos bumbos, quebrando pratos,
Tenho uma percussão com ritmo, mesmo
Aos socos, nos descompassos.
domingo, fevereiro 07, 2010
Funkeiro
Músico do ritmo, da guitarra sem muito estrindente,
Do gingado do baixo, da bateria em ritmo alternado,
Podendo flertar com o soul, sendo sempre música preta
Na história vermelha dos pretos.
Do gingado do baixo, da bateria em ritmo alternado,
Podendo flertar com o soul, sendo sempre música preta
Na história vermelha dos pretos.
Falta de arte
Disparate ao verdadeiro sentido da vida,
Aparato de auto-destruição, vendeiro sem produto,
Campeiro sem arbusto.
Aparato de auto-destruição, vendeiro sem produto,
Campeiro sem arbusto.
sexta-feira, janeiro 29, 2010
Pavor
O medo acompanha a vida,
como quem anda em par.
De mãos dadas,
as esquinas,
avenidas
nas cozinhas
e aviões.
O medo é mansinho,
pequenino,
delicado.
Até ver que a vida pode se afastar,
ir embora,
e não voltar.
Então ele enfurece,
cresce,
engole!
Fica maior que a vida.
Ela então grita,
geme,
pois teme o medo
e treme.
como quem anda em par.
De mãos dadas,
as esquinas,
avenidas
nas cozinhas
e aviões.
O medo é mansinho,
pequenino,
delicado.
Até ver que a vida pode se afastar,
ir embora,
e não voltar.
Então ele enfurece,
cresce,
engole!
Fica maior que a vida.
Ela então grita,
geme,
pois teme o medo
e treme.
segunda-feira, janeiro 11, 2010
Árvore
Não consigo pensar em ninguém
Que tenha ficado em silêncio
A vida toda
Mas consigo ver
Através de teus olhos verdes
Uma folha cadente
Condescendente
Ousa ficar em pé
Até mesmo sob gentil brisa
Que balança a maré
Prefere guardar silêncio, imóvel
Todo segredo a ti confiado
Feliz encobre
É por isto que és Árvore
e eu, Homem
Que tenha ficado em silêncio
A vida toda
Mas consigo ver
Através de teus olhos verdes
Uma folha cadente
Condescendente
Ousa ficar em pé
Até mesmo sob gentil brisa
Que balança a maré
Prefere guardar silêncio, imóvel
Todo segredo a ti confiado
Feliz encobre
É por isto que és Árvore
e eu, Homem
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Atração claustrofóbica
Adrenalina, adrenalina, esfrega o corpo e alucina,
Sexo em lugar inapropriado, sigo meu faro e seus passos,
Adrenalina, perde a linha, narcotiza a morfina,
Sinta o proibitivo no labirinto.
Sexo em lugar inapropriado, sigo meu faro e seus passos,
Adrenalina, perde a linha, narcotiza a morfina,
Sinta o proibitivo no labirinto.
quinta-feira, dezembro 31, 2009
Universo de Tolkien
Dos senhores negros, dos elfos em desespero,
Dos pequeninos e dos anéis, dos poderes dos reis,
Das colinas, dos vales, das magias em cálices
Adormecidos na mente acadêmica
Fantasiosa de um velho e seu cachimbo.
Guerras, amores, deuses, conceitos,
Cultura envolta nos preceitos
Do universo de Arda, munido
De fuga da realidade, misantropo
E reconhecível a todos.
Dos pequeninos e dos anéis, dos poderes dos reis,
Das colinas, dos vales, das magias em cálices
Adormecidos na mente acadêmica
Fantasiosa de um velho e seu cachimbo.
Guerras, amores, deuses, conceitos,
Cultura envolta nos preceitos
Do universo de Arda, munido
De fuga da realidade, misantropo
E reconhecível a todos.
Radiofonia
Vozes frias, ou seriam quentes?
Pulsos elétricos que tocam meus ouvidos,
São guiados pelos neuróticos neurônios,
Será que o locutor mente?
Forma rápida de jornalismo,
Compacto de fofoca,
Seria o resumo do cinismo?
Pulsos elétricos que tocam meus ouvidos,
São guiados pelos neuróticos neurônios,
Será que o locutor mente?
Forma rápida de jornalismo,
Compacto de fofoca,
Seria o resumo do cinismo?
domingo, dezembro 27, 2009
Cruzar São Paulo
Marginais entupidas, quebras embutidas
Nas avenidas e periferias preferidas
Da feira de cidadãos, da ceia dos ladrões,
Cerceando e ceifando a liberdade.
Nas avenidas e periferias preferidas
Da feira de cidadãos, da ceia dos ladrões,
Cerceando e ceifando a liberdade.
domingo, dezembro 20, 2009
Marginais de São Paulo
Presas pelo corredor de carros,
Pelo fluídos combustíveis,
Pelas carcaças substituíveis
Dos carros.
Irrigadas pelas águas lodosas,
Irritadas por temperamentos implosivos,
Agitadas por gritos inexpressivos.
Pelo fluídos combustíveis,
Pelas carcaças substituíveis
Dos carros.
Irrigadas pelas águas lodosas,
Irritadas por temperamentos implosivos,
Agitadas por gritos inexpressivos.
quinta-feira, dezembro 17, 2009
Depois do trabalho
Eu chego em casa, sou grosso de graça,
Bato porta, piso firme, faço caras e mexo a boca,
Desenboco desaforos aéreos, falo em som estéreo,
Sussurro em mono, resmungo.
Bato porta, piso firme, faço caras e mexo a boca,
Desenboco desaforos aéreos, falo em som estéreo,
Sussurro em mono, resmungo.
Rastejar
O arrastar do tempo me desgasta,
Peço ajuda ao leito que me arrasa,
Encontro-me derrubado pelos feitos,
Procuro pistas nos fatos.
Estupefato de tanto ler,
Envesgo-me sem foco,
Tenho estrábicos sentimentos
Sobre como me manter
Em solo frio.
Peço ajuda ao leito que me arrasa,
Encontro-me derrubado pelos feitos,
Procuro pistas nos fatos.
Estupefato de tanto ler,
Envesgo-me sem foco,
Tenho estrábicos sentimentos
Sobre como me manter
Em solo frio.
Bola da Foca
Elaborei como uma rima gozada
Encostado com a cabeça no vidro do ônibus,
Não imaginei que sua notoriedade se traduz
Por umas idéias simples postas em prática.
Trata-se de um blogue de pseudo-jornalistas
Para um proto-público, nu diante das falhas
Diárias e retardatárias de um coletivo
Esperto.
Encostado com a cabeça no vidro do ônibus,
Não imaginei que sua notoriedade se traduz
Por umas idéias simples postas em prática.
Trata-se de um blogue de pseudo-jornalistas
Para um proto-público, nu diante das falhas
Diárias e retardatárias de um coletivo
Esperto.
quarta-feira, dezembro 16, 2009
Bang-bang italiano
Mestiço do mediterrâneo,
Mulato do Brasil,
Que maltrata os conterrâneos,
Os escravos sem vil comportamento,
Nem hostil envolvimento.
Mistureba de tiros,
Juba escalpelada na caça, no rio,
Pizzaiolos malucos munidos de facas,
Adaga no peito da pureza, duelo babaca.
Mulato do Brasil,
Que maltrata os conterrâneos,
Os escravos sem vil comportamento,
Nem hostil envolvimento.
Mistureba de tiros,
Juba escalpelada na caça, no rio,
Pizzaiolos malucos munidos de facas,
Adaga no peito da pureza, duelo babaca.
terça-feira, dezembro 15, 2009
Título Atrativo
(Insira um título atrativo)
Exponha toda sua angústia
É tudo o que pede o poema
O que seus pulsos abertos lhe falam
Insira aqui
Uma estrofe para acompanhar
Os sentimentos a rimar
E aparecem tilintantes
Os desejos que antes
Te faziam despótico
Mais que um dilema
Este morfema
É ilusão de ótica
Pouca prática
Com a mais perfeita possível
Notável prolixidão utópica
Deixa a marca de ouro
O final filosófico.
Exponha toda sua angústia
É tudo o que pede o poema
O que seus pulsos abertos lhe falam
Insira aqui
Uma estrofe para acompanhar
Os sentimentos a rimar
E aparecem tilintantes
Os desejos que antes
Te faziam despótico
Mais que um dilema
Este morfema
É ilusão de ótica
Pouca prática
Com a mais perfeita possível
Notável prolixidão utópica
Deixa a marca de ouro
O final filosófico.
quinta-feira, dezembro 03, 2009
Bem...
Muitos vão estranhar o fato de eu postar no blog....o fato é que eu não esqueci dele...só não andava escrevendo...
Outros vão estranhar o texto....e este é mesmo de se estranhar....
Mas depois agente conversa melhor sobre ele, só uma coisa a dizer....personagem nova na área.
Beijos
É bom revê-los...
Perfeita Imperfeição
Hoje tenho trinta anos e sou absolutamente satisfeita e feliz.
Aliás, como todo mundo a minha volta.
Tenho um marido maravilhoso que me ama muito. Nunca tive um coração partido, nenhuma desilusão, nunca me senti só.
Meu trabalho é exatamente o que desejei, só faço aquilo que sempre quis, ganho mais que o suficiente para me sentir bem. Nunca levei uma bronca do meu chefe, nem me sinto pressionada com prazos e metas.
Esse é o único mundo que conheço.
Não tenho filhos, pois ainda não os quis, mas se quisesse poderia tê-los, quantos fossem, e seria capaz de criá-los e educá-los como qualquer outra.
Nunca tive uma tranza ruim. Nunca lamentei a ausência de um orgasmo.
Até porque, satisfação sexual própria e do parceiro por aqui é assunto de escola, matéria regular e obrigatória.
Falando em escola, isso me lembra que ela era maravilhosa, interessante em todos os aspectos. Os professores não podem dar aulas entediantes, nem chatear seus alunos, pois todos têm de estar felizes.
Meus pais foram os mais amorosos e presentes o possível, pais bem treinados para fazerem seus filhos felizes. Eles são da última geração a conviver com a transição.
A sociedade mais feliz do mundo! Esta em todos os muros da cidade, limpa e cheia de cidadãos gentis.
Pois a mim a palavra felicidade não diz nada, somente é a única realidade que conheço.
Não sei o que é ser triste, só, sentir dor, angústia, ou qualquer um desses sentimentos que nos tornem pessoas melancólicas, nem ao menos sei o que essas palavras significam.
Tragédias não nos dizem respeito, portanto não são veiculadas, não por serem proibidas, não seria preciso, ninguém as compra. Quem gostaria de ser visto sorvendo algo tão mórbido?
Não sei se felicidade é bom.
Sei que é comum, banal, cotidiano, é tudo que me rodeia.
Por aqui estar alegre, ser feliz é lei.
Todos te fazem feliz, queira você ou não.
Meu avô é anterior a lei da felicidade, me disse que quando era criança as pessoas choravam.
Choravam de tristeza!
E que um sorriso sincero era tão raro, que era considerado uma das coisas mais preciosas que poderiam existir. Devia ser lindo.
Pra mim o sorriso é uma coisa tão corriqueira, que não tem o menor valor.
Gostaria que as pessoas entendessem o que essa ausência de tristeza me causa, essa inexpressividade, esse tédio.
Ser alegre é neutro.
Não me entenda mal!
Não quero o retorno das guerras, da fome, da desigualdade, ou de nenhum desse males que segundo os livros de história, maltratavam as pessoas do passado.
Gostaria apenas de ter emoções. Saber o que significa ser feliz! Comparar a felicidade e o sofrimento, saber que rir é o contrário de chorar, não por ter lido em livros velhos, mas por ter vivido.
Quero me sentir real. Preciso saber se Sou de verdade.
Sei que algumas pessoas são capazes de se sentirem tristes com tudo que nos rodeia, mas nunca conheci alguém assim. São excluídos, tratados como doentes, nocivos a sociedade.
Eu não vejo dessa forma. Para mim eles são preciosidades. Sadios entre todos nós, loucos e obcecados com os nossos sorrisos. Eles são capazes de ver e sentir algo além da perfeição que me cerca, eles são verdadeiros, reais.
Enquanto eu nem consigo me considerar humana.
Margarethe.
Outros vão estranhar o texto....e este é mesmo de se estranhar....
Mas depois agente conversa melhor sobre ele, só uma coisa a dizer....personagem nova na área.
Beijos
É bom revê-los...
Perfeita Imperfeição
Hoje tenho trinta anos e sou absolutamente satisfeita e feliz.
Aliás, como todo mundo a minha volta.
Tenho um marido maravilhoso que me ama muito. Nunca tive um coração partido, nenhuma desilusão, nunca me senti só.
Meu trabalho é exatamente o que desejei, só faço aquilo que sempre quis, ganho mais que o suficiente para me sentir bem. Nunca levei uma bronca do meu chefe, nem me sinto pressionada com prazos e metas.
Esse é o único mundo que conheço.
Não tenho filhos, pois ainda não os quis, mas se quisesse poderia tê-los, quantos fossem, e seria capaz de criá-los e educá-los como qualquer outra.
Nunca tive uma tranza ruim. Nunca lamentei a ausência de um orgasmo.
Até porque, satisfação sexual própria e do parceiro por aqui é assunto de escola, matéria regular e obrigatória.
Falando em escola, isso me lembra que ela era maravilhosa, interessante em todos os aspectos. Os professores não podem dar aulas entediantes, nem chatear seus alunos, pois todos têm de estar felizes.
Meus pais foram os mais amorosos e presentes o possível, pais bem treinados para fazerem seus filhos felizes. Eles são da última geração a conviver com a transição.
A sociedade mais feliz do mundo! Esta em todos os muros da cidade, limpa e cheia de cidadãos gentis.
Pois a mim a palavra felicidade não diz nada, somente é a única realidade que conheço.
Não sei o que é ser triste, só, sentir dor, angústia, ou qualquer um desses sentimentos que nos tornem pessoas melancólicas, nem ao menos sei o que essas palavras significam.
Tragédias não nos dizem respeito, portanto não são veiculadas, não por serem proibidas, não seria preciso, ninguém as compra. Quem gostaria de ser visto sorvendo algo tão mórbido?
Não sei se felicidade é bom.
Sei que é comum, banal, cotidiano, é tudo que me rodeia.
Por aqui estar alegre, ser feliz é lei.
Todos te fazem feliz, queira você ou não.
Meu avô é anterior a lei da felicidade, me disse que quando era criança as pessoas choravam.
Choravam de tristeza!
E que um sorriso sincero era tão raro, que era considerado uma das coisas mais preciosas que poderiam existir. Devia ser lindo.
Pra mim o sorriso é uma coisa tão corriqueira, que não tem o menor valor.
Gostaria que as pessoas entendessem o que essa ausência de tristeza me causa, essa inexpressividade, esse tédio.
Ser alegre é neutro.
Não me entenda mal!
Não quero o retorno das guerras, da fome, da desigualdade, ou de nenhum desse males que segundo os livros de história, maltratavam as pessoas do passado.
Gostaria apenas de ter emoções. Saber o que significa ser feliz! Comparar a felicidade e o sofrimento, saber que rir é o contrário de chorar, não por ter lido em livros velhos, mas por ter vivido.
Quero me sentir real. Preciso saber se Sou de verdade.
Sei que algumas pessoas são capazes de se sentirem tristes com tudo que nos rodeia, mas nunca conheci alguém assim. São excluídos, tratados como doentes, nocivos a sociedade.
Eu não vejo dessa forma. Para mim eles são preciosidades. Sadios entre todos nós, loucos e obcecados com os nossos sorrisos. Eles são capazes de ver e sentir algo além da perfeição que me cerca, eles são verdadeiros, reais.
Enquanto eu nem consigo me considerar humana.
Margarethe.
sábado, novembro 07, 2009
Micro escrita social
É uma fatia do literal
Grito da multidão, diversão
Digital é a fama desse twitter,
Reter informação em pílula,
Ou ter acesso para a porta, pulula
Dados na tela.
Grito da multidão, diversão
Digital é a fama desse twitter,
Reter informação em pílula,
Ou ter acesso para a porta, pulula
Dados na tela.
sexta-feira, novembro 06, 2009
Superação. Supera ação.
Super reação, inversão
De papéis na cama, na lama,
Super retração, retardação,
Inflação do momento,
Larga a mão, minto e não
Desminto o mito.
Esforço contra o peso,
Encaixo seu desejo,
Vou além do ato,
Deixo vir o todo.
Era um dia super,
Num contexo líder
De fracasso, é mister
Ir além do fato, do próprio
Faro.
De papéis na cama, na lama,
Super retração, retardação,
Inflação do momento,
Larga a mão, minto e não
Desminto o mito.
Esforço contra o peso,
Encaixo seu desejo,
Vou além do ato,
Deixo vir o todo.
Era um dia super,
Num contexo líder
De fracasso, é mister
Ir além do fato, do próprio
Faro.
Inspirado na música Muros e Grades, Engenheiros do Hawaii.
Um dia super, uma noite super, uma vida superficial
Entre as sombras, entre as sobras da nossa escassez
Um dia super, uma noite super, uma vida superficial
Entre cobras, entre escombros da nossa solidez
Um dia super, uma noite super, uma vida superficial
Entre as sombras, entre as sobras da nossa escassez
Um dia super, uma noite super, uma vida superficial
Entre cobras, entre escombros da nossa solidez
quinta-feira, novembro 05, 2009
Lenda
O que faz uma lenda viva
Se o solitário
Morreu na véspera
Da sua composição
Não partilho
dessa lucidez
A força é tanta
Que até me espanta
Ao girar o guarda-sol
Fractal de raios
Pretendo
manter a lenda
e canto
farei do espelho
metade
Juntar os cacos
da única obra
mais sozinha
O velho homem sabe
Que lenda vive agora
A moça que corta os pulsos
Infiel seguiu até a morte
Bebeu taças de compunção
Nada adiantou
Se o solitário
Morreu na véspera
Da sua composição
Não partilho
dessa lucidez
A força é tanta
Que até me espanta
Ao girar o guarda-sol
Fractal de raios
Pretendo
manter a lenda
e canto
farei do espelho
metade
Juntar os cacos
da única obra
mais sozinha
O velho homem sabe
Que lenda vive agora
A moça que corta os pulsos
Infiel seguiu até a morte
Bebeu taças de compunção
Nada adiantou
quarta-feira, outubro 14, 2009
a vida é costura
Uma palavra é um entrelaçamento de letras. Uma história é um entrelaçamento de palavras. E sentires.A vida é por um fio. Sempre.
Às vezes, um entrelaçamento de fios. Mais das vezes, embaralhados.
Viver é desfiar palavras.
João sabe disso.
Que João?
O “João por um fio”, criado pelo Roger Mello.
João tem uma história própria. Esse João. Uma história dele. Sobre ele. Uma história que ele deixou compartilhar conosco, seus leitores.
Conhecer histórias é viver também. Um cruzamento de histórias. Costuras de vida.
A história deste João começa assim:
João se pergunta, ao dormir: “Agora sou só eu comigo?”.
Pode ser, respondemos. Como pode não ser.
João sonha quando dorme. O que significa que nem sempre seja ele com ele somente. E há os leitores, claro, que o acompanham enquanto ele dorme.
Os leitores a quem cabem algumas perguntas de respostas-não-prontas:
“Onde é que se esconde a noite que beija João?”
“Quem tem medo de um gigante chamado João? Ou quando é que o gigante dorme?”
“Se João cai no sono, com que paisagens ele sonha?”
“E se o medo derrama, João é que abre a torneira?”
“Que rede segura um peixe maior que a gente?”
“De que tamanho é o furo na colcha que cobre João?”
“Como se para um furo que não para?”
De repente, eis que, num susto, João acorda, e se preocupa: “Quem desfiou minha colcha?”.
Nós, leitores, sabemos quem foi. Ou como foi que a colcha se desfiou. Mas não podemos falar a João. Não podemos porque ele precisa descobrir o desenrolar da sua colcha. Ele precisa sentir como isso aconteceu. Ele precisa aprender a costurá-la novamente.
E João mostra saber disso: “No meio do vazio viu palavras espalhadas no chão”.
Então, ele resolve costurar palavras “como retalhos numa colcha”. E, ainda mais. “Enquanto costura, João inventa uma cantiga de ninar”.
Faz mais do que imaginávamos. Surpreende-nos.
E a nós, que acompanhamos João assim de perto, fica a pergunta: “De que tamanho é a colcha de palavras que cobre João?”.
Mas não fica-nos somente esta pergunta. Por trás dela há outra, que João espertamente nos deixa:
De que tamanho é a colcha de palavras que nos cobre?
E, para respondê-la, cabe-nos fazer como João: ao sonhar, desfiar a colcha que nos cobre, abri-la, explorá-la. Expormo-nos. E, depois, costurarmos palavras que nos cobrirão novamente.
A vida são ciclos, mostra-nos João.
A vida é um se despir para se conhecer.
_ _ _
í.ta**
sexta-feira, outubro 02, 2009
Formalizar o Deformado
É escrever um poema, um resto de teorema,
Ao som e ao áudio do vídeo de Ferreira, o Gullar,
Falando do "antiformalista por excelência" para os ouvidos
Aguçados de Ivan Juqueira, beirando palavras
Das incertezas.
Faz parte da poesia brasileira, que nada tem de portuguesa,
E é verso freguês de bar barato, ato sem muito tato.
Sua destruição é a lei,
É a vez do que se desfez.
Ao som e ao áudio do vídeo de Ferreira, o Gullar,
Falando do "antiformalista por excelência" para os ouvidos
Aguçados de Ivan Juqueira, beirando palavras
Das incertezas.
Faz parte da poesia brasileira, que nada tem de portuguesa,
E é verso freguês de bar barato, ato sem muito tato.
Sua destruição é a lei,
É a vez do que se desfez.
escrever é dar a cara a tapa
publiquei artigo, na quarta-feira, no jornal "hoje", que circula por jaraguá e região.
o título do artigo é o título do post.
é sobre o escrever.
_ _ _ _ _
Escrever deveria ser sempre um incômodo.
o título do artigo é o título do post.
é sobre o escrever.
_ _ _ _ _
Escrever deveria ser sempre um incômodo.
Incomodar, segundo o Novo Dicionário Aurélio, significa, entre outras coisas, causar incômodo a, importunar, desgostar, irritar.Escrever deveria ser tudo isso, pois.
Estar incomodado é estar “levemente indisposto, constrangido”, ainda segundo o dicionário. E todo texto deveria incomodar. Incomodar o escritor e o leitor. Deixá-los indispostos, constrangidos diante do que se escreve e do que se lê.
Uma das finalidades de todo e qualquer texto, literário ou não, deveria ser esta. Já afirmara o crítico Umberto Eco, em seus “Seis passeios pelo bosque da ficção”, que “o texto é uma máquina preguiçosa que espera muita colaboração da parte do leitor”.
E essa colaboração nem sempre deve significar um ato de concordância. Contudo, não significa que deva se tornar rígida e excessivamente discordante.
Um texto cumpre com sua finalidade quando propõe um algo a mais para quem o lê. E para quem o escreve também.
Um algo a mais que reflita num pensar mais elaborado, que signifique um repensar determinado ponto de vista, ou que jogue luz sobre alguns caminhos de compreensão ainda não alcançados.
Se hoje escrevo, é por ler tantas e tantas coisas maravilhosas (e quantas ainda por ler!).
Se hoje escrevo, é porque desenvolvi em mim a pretensão de achar que através de minhas palavras as pessoas também poderiam se sentir tocadas, seja se encontrando em meus rabiscos, seja desenvolvendo uma antipatia pelos mesmos (e consequentemente por mim).
Se hoje escrevo, isso se deve ao trabalho de penso inserido nessa prática. Algo que me alimenta como sujeito. Algo em que acredito que possa alimentar a outros da mesma forma.
Se hoje escrevo é também por acreditar que esse ato possa ser contagioso.
Escrevo porque dói, e porque essa dor é minha fuga. Escrevo para me contradizer e porque ainda não encontrei melhor forma de solidão.
_ _ _
í.ta**
_ _ _
í.ta**
quinta-feira, outubro 01, 2009
O estranho dos estranhos
Vi escapar tão de repente
o trejeito no seu sim
Vi também o ai de mim
que vazou sem se tocar
Vê também que te vêem assim
por causa do teu som
Saiba que não foges aqui
14 mil a te olhar
O estranho dentro do ninho
O mais doido varrido
Um príncipe desvairado
E a moça delatada
A cobra peçonhenta
Na teia encantada
A merda que foi feita
Não serve mais de nada
Vê também quem ri de mim
Tão principe que eu sou
Saiba que aqui estou
Mais vão do que
Tu
O cálice entornado
A rosa desfolhada
A linda namorada
De lábios marejada
Desfilo na parada
Com seios de vinil
E mostro a minha cara
Pra todo o Brasil
Quero tê-lo, mas não tenho como.
o trejeito no seu sim
Vi também o ai de mim
que vazou sem se tocar
Vê também que te vêem assim
por causa do teu som
Saiba que não foges aqui
14 mil a te olhar
O estranho dentro do ninho
O mais doido varrido
Um príncipe desvairado
E a moça delatada
A cobra peçonhenta
Na teia encantada
A merda que foi feita
Não serve mais de nada
Vê também quem ri de mim
Tão principe que eu sou
Saiba que aqui estou
Mais vão do que
Tu
O cálice entornado
A rosa desfolhada
A linda namorada
De lábios marejada
Desfilo na parada
Com seios de vinil
E mostro a minha cara
Pra todo o Brasil
Quero tê-lo, mas não tenho como.
quarta-feira, setembro 23, 2009
Rock Brasileiro
É mutante, é o instável
Contratante, o faminto
Imigrante, rumo ao
Desconhecido reino do
Barão vermelho.
Engenharia havaiana
De quintal, muquirana
Forma de manifestar
Opinião, palavra perdida.
É a coca-cola de uma legião de urbanos,
É o ópio da consciência aberta ao estranho
Jeito de viver neste globo, neste ovo.
Contratante, o faminto
Imigrante, rumo ao
Desconhecido reino do
Barão vermelho.
Engenharia havaiana
De quintal, muquirana
Forma de manifestar
Opinião, palavra perdida.
É a coca-cola de uma legião de urbanos,
É o ópio da consciência aberta ao estranho
Jeito de viver neste globo, neste ovo.
quinta-feira, setembro 17, 2009
As chaves da prisão
Um pouco do teu caráter é
mau; fecha os olhos vaidoso;
puxa a venda;
decide não pertencer
a conhecer o mais negro porvir
É covarde e vai embora
sem se despedir.
A juventude que te é roubada
por quem havia de proteger
É vã, foi há tempos promessa.
Esta chaga que te adoece
cava um poço e atola na lama
faz-te penar à guisa de carma
inveja a luz que já foi tua arma!
Busca refúgio, como se fosse culpado
de um crime imaginário
Te mandam recados escandalizados
Te chamam de otário
Tudo em nome do amor
Foge de casa e esquece
a panela vazia
e a mulher que termina o seu dia
com ar de concubina
Faz tempo que se foi
Meu belo beija-flor
Não voltou mais
Preciso do teu mel
pras amarguras da vida, sim senhor
Faze loucuras tardias
Devaneio, ilusão
Atitude de perdedor
Te perguntei quais são
os sonhos que te fizeram assim...
Sem as chaves da prisão
o mundo se fez em mim
mau; fecha os olhos vaidoso;
puxa a venda;
decide não pertencer
a conhecer o mais negro porvir
É covarde e vai embora
sem se despedir.
A juventude que te é roubada
por quem havia de proteger
É vã, foi há tempos promessa.
Esta chaga que te adoece
cava um poço e atola na lama
faz-te penar à guisa de carma
inveja a luz que já foi tua arma!
Busca refúgio, como se fosse culpado
de um crime imaginário
Te mandam recados escandalizados
Te chamam de otário
Tudo em nome do amor
Foge de casa e esquece
a panela vazia
e a mulher que termina o seu dia
com ar de concubina
Faz tempo que se foi
Meu belo beija-flor
Não voltou mais
Preciso do teu mel
pras amarguras da vida, sim senhor
Faze loucuras tardias
Devaneio, ilusão
Atitude de perdedor
Te perguntei quais são
os sonhos que te fizeram assim...
Sem as chaves da prisão
o mundo se fez em mim
domingo, agosto 23, 2009
Biblioteca
Marco o texto, decoro a página, cerro os olhos
Ao imaginar a desventura, a ternura
Protagonizada, a cena transporta
Minha mente com meus anseios,
Transborda sentimento.
Percorro as estantes de mofo,
As salas esterilizadas e modernas,
Descanso no registro abandonado,
Anestesio minha sede de invadir
Seu cérebro e colidir suas memórias.
Dedicado ao Ítalo Puccini, que tanto fala sobre leituras.
Ao imaginar a desventura, a ternura
Protagonizada, a cena transporta
Minha mente com meus anseios,
Transborda sentimento.
Percorro as estantes de mofo,
As salas esterilizadas e modernas,
Descanso no registro abandonado,
Anestesio minha sede de invadir
Seu cérebro e colidir suas memórias.
Dedicado ao Ítalo Puccini, que tanto fala sobre leituras.
segunda-feira, agosto 10, 2009
o medo que um livro ainda provoca
artigo publicado por mim no jornal "hoje", que circula em jaraguá e região, há três semanas. o título do artigo é o título do post.
_ _ _ _ _ _ _
Causou muita estranheza e revolta nos meios literários e educacionais, no mês passado, a retirada de mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza, o atual ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Mais estranheza e revolta ainda se deveu ao fato de que o Governo do Estado de Santa Catarina comprou mais de cem mil exemplares do livro citado e, depois de ter gasto um montante para este fim, retirou-os de circulação das escolas catarinenses. Tudo isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados, que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.
A literatura, assim como as outras formas de arte, nada mais é do que a representação da vida, de fatos vividos por todos nós, independentemente de sexo, raça ou credo. Não levar isso em conta é dar topada nos livros, é desaprender com eles ao abri-los. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso.
O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso levar isso em conta ao se escolher, por exemplo, um livro para se trabalhar em sala de aula. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou no cinema hollywodiano. Ela está, também, nos livros, e não somente nos de contos de fadas infantis ou nos best-sellers de fórmulas prontas. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol.
A literatura, assim como as outras formas de arte, nada mais é do que a representação da vida, de fatos vividos por todos nós, independentemente de sexo, raça ou credo. Não levar isso em conta é dar topada nos livros, é desaprender com eles ao abri-los. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso.
O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso levar isso em conta ao se escolher, por exemplo, um livro para se trabalhar em sala de aula. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou no cinema hollywodiano. Ela está, também, nos livros, e não somente nos de contos de fadas infantis ou nos best-sellers de fórmulas prontas. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol.
í.ta**
segunda-feira, agosto 03, 2009
0 1
direita ou esquerda
pra cima ou pra baixo
certo ou errado
vai ou vem
ser ou não ser
vivo ou morto
positivo ou negativo
aceso ou apagado
verdade ou mentira
amigo ou inimigo
amor ou ódio
coragem ou medo
a vida é booleana
pra cima ou pra baixo
certo ou errado
vai ou vem
ser ou não ser
vivo ou morto
positivo ou negativo
aceso ou apagado
verdade ou mentira
amigo ou inimigo
amor ou ódio
coragem ou medo
a vida é booleana
Festa cheia
Uma coisa leva à outra, e essa a mais uma.
Uma festa, longe de casa, longe de regras.
O limite nem mais é a consciência, a moral.
O raciocínio esvai-se, apenas se mexe.
-Anda, mexa-se!, diz a situação,
Alguém que não se mexe, não existe em tal lugar.
Está tão frio, por que não bebe algo para esquentar?
Taças, e copos, e taças, música, copo, música.
A música gira o mundo, o pensamento, o chão.
Música, copo, música, copo, copo, corpo...
Tudo balança e mexe como uma harmonia.
O álcool no sangue, parece combustível.
A música o motor, o chão a estrada,
estrada que vai levando, levando...
Apenas curte esse momento, curte,
pois não se sabe se é permitida
uma lembrança do que ocorrer.
O corpo se mexe por impulso.
Tudo vai ficando mais extenso, intenso.
Tudo vai...girando...andando...mexendo...
O corpo que não é meu,
também se mexe, se mexe como eu,
Mas tal como o meu, não tem rosto.
Só tem corpo, copo, corpo, copo...
A festa estende-se pela noite sombria.
A memória esvai-se pela festa cheia.
Cheia, cheia, cheia de corpos sem rosto.
Uma festa, longe de casa, longe de regras.
O limite nem mais é a consciência, a moral.
O raciocínio esvai-se, apenas se mexe.
-Anda, mexa-se!, diz a situação,
Alguém que não se mexe, não existe em tal lugar.
Está tão frio, por que não bebe algo para esquentar?
Taças, e copos, e taças, música, copo, música.
A música gira o mundo, o pensamento, o chão.
Música, copo, música, copo, copo, corpo...
Tudo balança e mexe como uma harmonia.
O álcool no sangue, parece combustível.
A música o motor, o chão a estrada,
estrada que vai levando, levando...
Apenas curte esse momento, curte,
pois não se sabe se é permitida
uma lembrança do que ocorrer.
O corpo se mexe por impulso.
Tudo vai ficando mais extenso, intenso.
Tudo vai...girando...andando...mexendo...
O corpo que não é meu,
também se mexe, se mexe como eu,
Mas tal como o meu, não tem rosto.
Só tem corpo, copo, corpo, copo...
A festa estende-se pela noite sombria.
A memória esvai-se pela festa cheia.
Cheia, cheia, cheia de corpos sem rosto.
domingo, agosto 02, 2009
Encontro dos rostos
Encosto meu desejo
Nos poros presentes,
Recordo do gosto
No momento do beijo.
Afasto e abro
As pupilas e os lábios,
Vejo meu rosto
No sorriso dos teus olhos.
Nos poros presentes,
Recordo do gosto
No momento do beijo.
Afasto e abro
As pupilas e os lábios,
Vejo meu rosto
No sorriso dos teus olhos.
Um texto definitivo para alguém...
Seria uma carta, um e-mail inesperado, uma comunicação diversa, um ato que é reflexo do tempo com telefonema que não incomoda, são as palavras que saltam da boca.
Seriam todas as citações que eu li sobre nós, teria toda a palavra que diz algo sobre você, seria um intertexto entre mídias e seria meu contexto na sua vida, em rimas podres, pobres, mas conscientes.
Seriam todos os meus textos. Os textos de todo mundo. Seria a falta de foco e todo o foco do mundo no que você é. Seriam meus dedos e os dedos que me reforçam apontados para o que eu sinto, para a conexão do recinto.
Não seria conclusivo e nem inclusivo. Seria subjetivo. Será que é mesmo definitivo?
Progressão
Jazz em improvisação, desce os instrumentos em sincronia,
Pensa a harmonia que os unia, sobe a nota com precisão,
Experimenta efeitos, seleciona notas
E toca a alma, desarma.
Pensa a harmonia que os unia, sobe a nota com precisão,
Experimenta efeitos, seleciona notas
E toca a alma, desarma.
Augusto Sentimento
É reduto do contentamento
Sereno da minha mente,
É o templo da semente da flor,
É tempo da maturação da cor.
Sereno da minha mente,
É o templo da semente da flor,
É tempo da maturação da cor.
domingo, julho 26, 2009
Sobre o silêncio (e outros)
Dedicado a Priscila de Mello Jordão
Acho que só tenho duas mãos, dois olhos,
Um silêncio perpétuo de muitos, o ruído cativante de outros.
Falam que o contato é o mais sublime dos sentimentos. Mais importante do que expressar, é a informação trocada, os sentimentos e as compreensões geradas em conjunto. Coletivos inteligentes. Anizades. Grupos. Interação. Casais. Pais e filhos.
Manifestar alguma coisa não é apenas botar em palavras, nem em gestos. Tudo significa alguma coisa, seja por intenção ou apenas pela inércia de qualquer atitude. Pode não ter o sentido que você compreendeu, mas tem uma associação simples. Ou mais complexa.
O silêncio é outra atitude que comunica. Não são poucas pessoas que dizem que ele resolve situações. Menos ainda aquelas que dizem que o distanciamento é a resolução de muitos embates que não podem ser resolvidos no momento. Silêncio e tempo são abusados de seus significados.
Em música, em teoria musical, silêncio é um intervalo de notas que, agregadas em conjunto, gera o sentido da música. Pode ser entendido por outra palavra: pausa. No entanto, só faz sentido dar uma interrupção brusca se existem palavras entre cada silêncio.
Tudo comunica. Então, valorizar demais as palavras seria subestimar o valor delas. Seria achar que berros valem a pena, quando são tribais. Por outro lado, valorizar o silêncio é morrer corroído pelos seus próprios pensamentos. Morrer de ego. Não existem tempos que resolvem o problema de uma vida, e muito menos pausas que solucionam problemas de melodias. A música se resolve. O processo é o todo de uma obra, não o final. A comunicação deve rolar como ela quer: pela vontade das pessoas envolvidas.
Se você espera um silêncio que acabe com todos os males ou uma palavra que dê a salvação para toda a disarmonia, é melhor morrer tragado pela impiedade do tempo. É melhor morrer de esperança. Eu sinceramente não me categorizo nesse quesito. Quem domina seu tempo, normalmente decide suas atitudes. Eu não tenho esperanças.
Acho que só tenho duas mãos, dois olhos,
Um silêncio perpétuo de muitos, o ruído cativante de outros.
sábado, julho 25, 2009
A transada perfeita
Não foi traçada na história dos homens,
É a fornicação que foge da visão comum,
São corpos sobrepostos, sorrisos dispostos,
E nenhuma lembrança além dos gemidos.
É um filme pornô sem história,
Sem televisão, sem memória.
É a fornicação que foge da visão comum,
São corpos sobrepostos, sorrisos dispostos,
E nenhuma lembrança além dos gemidos.
É um filme pornô sem história,
Sem televisão, sem memória.
Fala interminável
Só ocorre no seu lamentável estado
De não querer ouvir, no devir
Da comunicação, espaço
Fechado, cada um
No seu quadrado.
De não querer ouvir, no devir
Da comunicação, espaço
Fechado, cada um
No seu quadrado.
Não ter o que dizer
John Milton Cage transforma em obra de erudita arte,
Meninas tímidas transformam em charme,
Escritores prolixos trasnformam em numerosas páginas de destaque,
Oradores pensam que é um excelente intervalo no palanque.
Eu fico na gagueira, no medo,
E é justo o momento que quero dizer
Tudo.
Meninas tímidas transformam em charme,
Escritores prolixos trasnformam em numerosas páginas de destaque,
Oradores pensam que é um excelente intervalo no palanque.
Eu fico na gagueira, no medo,
E é justo o momento que quero dizer
Tudo.
Cruzada Libertadora
Busca pelo conhecimento,
Arrependimento de informação errada,
Contentamento na carteira, na anotação amassada,
Carteira vazia no emprego, desespero da falta de mesada.
Abandono das faculdades,
Dos mestres e das felicidades
Fantasiadas, vestidos
E disfarces.
Quero cortar a barba do professor,
Raspar sua autoridade, seu caráter opressor,
Esmagar seu livro, seu nariz franzino,
Sumir com sua lousa, com o quadro
Que será quebrado
Em meu punho.
Quero acabar com a escola,
Depois cuspir no emprego,
Quero acabar com a escolha
E punir a frustração, evitar
Que ela me encolha.
E sou como uma bomba sem direção,
Uma rolha de uma garrafa, acertada
Por suas bolhas internas, ração
Da minha revolta, reação.
Arrependimento de informação errada,
Contentamento na carteira, na anotação amassada,
Carteira vazia no emprego, desespero da falta de mesada.
Abandono das faculdades,
Dos mestres e das felicidades
Fantasiadas, vestidos
E disfarces.
Quero cortar a barba do professor,
Raspar sua autoridade, seu caráter opressor,
Esmagar seu livro, seu nariz franzino,
Sumir com sua lousa, com o quadro
Que será quebrado
Em meu punho.
Quero acabar com a escola,
Depois cuspir no emprego,
Quero acabar com a escolha
E punir a frustração, evitar
Que ela me encolha.
E sou como uma bomba sem direção,
Uma rolha de uma garrafa, acertada
Por suas bolhas internas, ração
Da minha revolta, reação.
quarta-feira, julho 22, 2009
Pequenez
Pequena
Que me sustenta,
Remenda
Os meus olhares de ausência,
Aumenta
Meu tato em teu corpo,
Nos teus passos.
Não é miúda, não é migalha,
É apenas pequena, uma concentração
Imensa em um ponto, suspensa.
Pequena
Que me alimenta
E cativa,
Pequeno
E grande sentimento.
Que me sustenta,
Remenda
Os meus olhares de ausência,
Aumenta
Meu tato em teu corpo,
Nos teus passos.
Não é miúda, não é migalha,
É apenas pequena, uma concentração
Imensa em um ponto, suspensa.
Pequena
Que me alimenta
E cativa,
Pequeno
E grande sentimento.
segunda-feira, julho 20, 2009
Poema Torto
As pessoas aprendem tudo errado
preferem fazer que é torto
fora do quadrado
Não foi isto que lhe pedi
Não coloque isso ali
este não é o seu lugar
Não faz isso assim
Não me olhe assim!
Nascer torto das idéias
Para ensinar o que é reto
Aos frágeis de esquadro
preferem fazer que é torto
fora do quadrado
Não foi isto que lhe pedi
Não coloque isso ali
este não é o seu lugar
Não faz isso assim
Não me olhe assim!
Nascer torto das idéias
Para ensinar o que é reto
Aos frágeis de esquadro
segunda-feira, julho 06, 2009
o leitor

À parte as muitas e importante razões estéticas, acho que lemos romances porque nos dão a confortável sensação de viver em mundos nos quais a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece um lugar mais traiçoeiro (Umberto Eco, 1994, p. 97).
Assisti, nesse domingo, ao filme O leitor, que rendeu o Oscar 2009 de melhor atriz à Kate Winslet, pela marcante atuação. Já havia lido o livro, há três meses, mais ou menos, e acabei não indo atrás do filme (muito pela minha preguiça em me colocar à frente de uma televisão). E eis que nesse final de semana ele “apareceu” lá em casa, fruto de um empréstimo feito por minha namorada Nice junto a uma amiga sua.
Tomei coragem, então, após muito me enrolar para isso, e me deitei no sofá para assisti-lo. Tive que fazer isso de modo “quebrado”, é verdade, pois aguentar duas horas de filme é exigir muito de um ser sonolento como eu. Assisti a pouco mais de meia hora num dia, e ao restante no dia seguinte. E consegui chegar ao final!
Achei-o brilhantemente lindo. Mesmo já conhecendo a história, sempre há aquela interrogação: será que haverá muito de diferente para o livro? E isto é bom, pois mantém a pessoa atenta ao filme. Não tenho bagagem cinéfila para fazer aqui colocações mais aprofundadas sobre o filme e todos os aspectos de produção que o cercam. Estas linhas são dizeres simplórios sobre uma obra que suscita algumas reflexões no mínimo interessantes. E não faço referência somente ao caso de amor entre um adolescente e uma mulher mais velha, nem à 2ª Guerra Mundial e ao Holocausto, a este assunto que é tema recorrente de recentes produções literárias e de cinema.
O que mais me encanta na história de O leitor, tanto a descrita no livro por Bernhard Schlink, quanto a forma como foi filmada, é a força com que a literatura dá novo significado à vida da personagem Hanna, interpretada por Kate Winslet. Uma analfabeta que a todo custo, por vergonha, escondeu que não sabia ler nem escrever, chegando ao ponto de se prejudicar ainda mais no julgamento em que era acusada de deixar morrer trezentos judeus, e de abrir mão da aventura amorosa vivida com o ainda garoto Michael Berg. Garoto este que não entende o sumiço de Hanna, e que, mais para frente, já cursando a faculdade de Direito, depara-se com um julgamento em que uma das acusadas é Hanna. E é nesse momento que ele entende porque Hanna tanto lhe pedia para ler para ela. A rotina amorosa dos dois seguia este ritual: fazer amor, banhar-se juntos, e ele ler para ela. Até o momento em que Hanna some sem deixar vestígios nem explicações, o que só será compreendido mais à frente na história.
E é na parte final desta história que Hanna aprende a ler e a escrever. Na prisão, a partir das fitas que o menino-já-homem-feito Michael Berg mandava a ela, com as histórias de alguns livros que lera para ela quando no romance de verão que eles tiveram. Histórias como “A Odisséia” e “A dama do cachorrinho”. Hanna vai à biblioteca da prisão e pega um dos livros gravados por Michael, e ali, ouvindo e acompanhando no livro, ela descobre as letras, as palavras, as frases, e os sentidos que pode construir junto a elas.
O leitor é não só uma história de amor, ou mais um ponto de vista sobre o extermínio de judeus. É, também, mais uma possibilidade de sentir os alcances da literatura: o quanto ela pode ressignificar vidas e estabelecer elos duradores. É como afirmou Pennac: a virtude paradoxal da leitura é a de nos abstrair do mundo para nele encontrarmos algum sentido.
O leitor é não só uma história de amor, ou mais um ponto de vista sobre o extermínio de judeus. É, também, mais uma possibilidade de sentir os alcances da literatura: o quanto ela pode ressignificar vidas e estabelecer elos duradores. É como afirmou Pennac: a virtude paradoxal da leitura é a de nos abstrair do mundo para nele encontrarmos algum sentido.
Í.ta**
Sinuca de bico
Se eu não acreditar em Odin,
Não irei para Valhalla,
Se eu não acreditar em Zeus,
Irei da mesma forma para o mundo subterrâneo,
Se eu não acreditar em Júpiter,
Terei o mesmo destino de cima,
Se eu não acreditar em Alah,
Não terei minhas 50 concubinas virgens,
Se eu não acreditar em Krishna,
Não atingirei o Nirvana,
Se eu não acreditar em Buddha,
Não alcançarei a iluminação,
Se eu não acreditar em Mitra,
Talvez aconteça algo ruim,
Se eu não acreditar em Baal,
Vou mal nas guerras,
Se eu não acreditar em Jeová,
Vou arder no inferno,
Se eu não acreditar em Deus,
Não vou para o Paraíso...
São justos esses deuses medíocres?
Não irei para Valhalla,
Se eu não acreditar em Zeus,
Irei da mesma forma para o mundo subterrâneo,
Se eu não acreditar em Júpiter,
Terei o mesmo destino de cima,
Se eu não acreditar em Alah,
Não terei minhas 50 concubinas virgens,
Se eu não acreditar em Krishna,
Não atingirei o Nirvana,
Se eu não acreditar em Buddha,
Não alcançarei a iluminação,
Se eu não acreditar em Mitra,
Talvez aconteça algo ruim,
Se eu não acreditar em Baal,
Vou mal nas guerras,
Se eu não acreditar em Jeová,
Vou arder no inferno,
Se eu não acreditar em Deus,
Não vou para o Paraíso...
São justos esses deuses medíocres?
domingo, julho 05, 2009
O despertar do poder supremo
como despertar o poder
engastado nas entranhas
mais viscerais do senhor doutor
martela-se o pé, quebram os estribos;
arremessa-se a bigorna contra os detritos
livra-me disso por escrito
dê-me a única razão que não se abala
circunscreva todas as circunstâncias não circunscritas
e sobreviva à relação mais duradoura com seu empecilho favorito
é um mero atrito, mas que por desserviço achou melhor não se fazer de mito
um atrevimento só poderia ter lhe custado mais que a cabeça;
donde há de vir rolar mais do que idéias soltas
mais do que o sangue carmesim que flui
um deus de nanquim, plúmbeo
registrado, para sempre
neste blogado
engastado nas entranhas
mais viscerais do senhor doutor
martela-se o pé, quebram os estribos;
arremessa-se a bigorna contra os detritos
livra-me disso por escrito
dê-me a única razão que não se abala
circunscreva todas as circunstâncias não circunscritas
e sobreviva à relação mais duradoura com seu empecilho favorito
é um mero atrito, mas que por desserviço achou melhor não se fazer de mito
um atrevimento só poderia ter lhe custado mais que a cabeça;
donde há de vir rolar mais do que idéias soltas
mais do que o sangue carmesim que flui
um deus de nanquim, plúmbeo
registrado, para sempre
neste blogado
terça-feira, junho 30, 2009
Fera-Eu
Uma vez o espelho rosnou
Desejou a liberdade
Estraçalhou a realidade
Uma fera quer ser liberta
E os ouvidos afiam suas garras
O espelho cresce conforme o admiramos
A realidade mostra-se hostil diante do desejo
Estraçalha o espelho, e tudo vem à tona
O desejo é podado, as mãos se cortam
Estanca-se o ferimento
Lava-se as mãos
Procura-se outro espelho
Desejou a liberdade
Estraçalhou a realidade
Uma fera quer ser liberta
E os ouvidos afiam suas garras
O espelho cresce conforme o admiramos
A realidade mostra-se hostil diante do desejo
Estraçalha o espelho, e tudo vem à tona
O desejo é podado, as mãos se cortam
Estanca-se o ferimento
Lava-se as mãos
Procura-se outro espelho
segunda-feira, junho 29, 2009
narcirexia 2
"Olhe para si mesmo
não enxerga além? Mais do que seus vibrantes olhos
inescrutáveis
mas ousam sonhar, perscrutadores..."
Quem é
O garboso jovem do sorriso doce
aparência tenra, beleza ímpar
um dia, beirando um lago
viu-se refletido
no espelho de águas
e curioso, procurava o irreconhecível
provando do seu mais malvado, irônico
destrutivo e corrompido
contempla o rosto, descontente
buscando o ser mais desumano
impassível, cruel-homem
o inimigo e irmão discreto
esquecido, passou tempos espreitando
uma fraqueza, criança tola
detém a força, recaída
e porventura mostra-se dócil e insolente
recalcado - gêmeo por natureza e separados por narciso
ao se atirar nos braços de eco
bem vindos à percepção irreal da persistencia
de uma subjetividade perversa
maligna até o osso
inconseqüente de raiz
Os dois jovens encaravam-se
mediam forças
tête-a-tete, de olhos injetados
disparando falácias que incidiam em ângulos incongruentes
centralizando mil sotaques de idiomas diferentes
sem conseguir pôr de lado um abraço
o bendit frut de vos ventre, do mágico
e da branca de neve.
não enxerga além? Mais do que seus vibrantes olhos
inescrutáveis
mas ousam sonhar, perscrutadores..."
Quem é
O garboso jovem do sorriso doce
aparência tenra, beleza ímpar
um dia, beirando um lago
viu-se refletido
no espelho de águas
e curioso, procurava o irreconhecível
provando do seu mais malvado, irônico
destrutivo e corrompido
contempla o rosto, descontente
buscando o ser mais desumano
impassível, cruel-homem
o inimigo e irmão discreto
esquecido, passou tempos espreitando
uma fraqueza, criança tola
detém a força, recaída
e porventura mostra-se dócil e insolente
recalcado - gêmeo por natureza e separados por narciso
ao se atirar nos braços de eco
bem vindos à percepção irreal da persistencia
de uma subjetividade perversa
maligna até o osso
inconseqüente de raiz
Os dois jovens encaravam-se
mediam forças
tête-a-tete, de olhos injetados
disparando falácias que incidiam em ângulos incongruentes
centralizando mil sotaques de idiomas diferentes
sem conseguir pôr de lado um abraço
o bendit frut de vos ventre, do mágico
e da branca de neve.
quarta-feira, junho 24, 2009
Narcirexia
mira em cima
mira de lado
qual será o certo
e qual é o errado
a vida pelo retrato
dizer quem é
sem ao menos saber
se espelhar na dor
vira de lado
vira em cima
diga quem ser
sem demora
porque vaidade
não tem hora
mira de lado
qual será o certo
e qual é o errado
a vida pelo retrato
dizer quem é
sem ao menos saber
se espelhar na dor
vira de lado
vira em cima
diga quem ser
sem demora
porque vaidade
não tem hora
sexta-feira, junho 19, 2009
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

Voltei à Clarice semana passada. Para lê-la faço assim. Leio um aqui outro acolá. Desestrutura-me a escrita de Clarice. Encarei, então, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um livro que começa com uma vírgula (o significado de que há algo antes disso, antes da história, antes do livro, antes da personagens, antes de tudo) e termina com um dois pontos (há algo a ser completado, pelo livro, pelos personagens, pelo leitor, por tudo).
Há uma frase de Clarice antes do começo da história: “Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu”. Uma frase que muito representa Clarice e sua escrita. Uma frase que já prepara o leitor para o que virá adiante. Uma aprendizagem. Com dor, com angústia, com prazer.
Conheci, então, a história entre Loreley (Lóri) e Ulisses. Narrado em terceira pessoa, o livro apresenta como vivenciar uma forma de amor. Lóri é de família de posses, de origem agrária. Vive no Rio de Janeiro, separada da família, sozinha, trabalhando como professora primária. Para manter um padrão de vida acima das possibilidades de uma professora, Lóri recebe mesada do pai. Ulisses é professor universitário de filosofia. Aos poucos se percebe que Lóri está "aprendendo a amar", ou a "ter prazer", com Ulisses. São vários os momentos narrativos em que isto fica explícito: ela está sendo "preparada para a liberdade por Ulisses", "Ulisses determinará quando ela estará pronta para dormir com ele".
A aprendizagem do título é o caminho que percorre Lóri enquanto dura a narrativa. Caminho este que será finalizado quando Lóri estiver "pronta" para dormir com Ulisses. Significa, com Ulisses, aprender ou descobrir o prazer para além do meramente sexual: algo como um amor total, pleno. A busca de Lóri era também por um aprendizado de se tornar um ser humano. Uma aprendizagem para além dos limites do compreensível: “A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”. “(...) queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia”.
“Mas sua busca não era fácil. Sua dificuldade era ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível”. E, para ajudá-la nessa busca, ali estava Ulisses, com seus dizeres: “Aprende-se quando já não se tem como guia forte a natureza de si próprio. Lóri, Lóri, ouça: pode-se aprender tudo, inclusive a amar! E o mais estranho, Lóri, pode-se aprender a ter alegria!”; “(...), viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci. (...) O óbvio, Lóri, é a verdade mais difícil de se enxergar”.
Esta é a travessia do livro, a trajetória a ser percorrida pela personagem. Uma trajetória densa, na qual o leitor entra sem saber para aonde irá. Uma trajetória que se torna uma aprendizagem, um conhecer-se mais a si mesmo. Acompanhar Lóri, ouvir as frases filosóficas de Ulisses, exige uma entrega, pois “(...) não é mesmo com bons sentimentos que se faz literatura: a vida também não. Mas há algo que não é bom sentimento. É uma delicadeza de vida que inclusive exige a maior coragem para aceitá-la”.
í.ta**
sábado, junho 06, 2009
mulher [- reloaded]
vontade, muita vontade
desejos incontroláveis que não são entendidos
um sexto sentido que não se pode ignorar, mas que às vezes falha
um temor incontrolável pelo bem estar de aluguém que está muito longe
[e que talvez outros o teriam esquecido]
eterna sensação de que há algo de errado
eventual sensação de quem mais te ama, não te ama
costumeira sensação de que ninguém te ama
sensação de que o chocolate te ama
impressão de que há algo sobrando, e não é um filho
rara sensação de que há algo à mais, e é um filho
impressão de que não se sabe onde está, quando se sabe
domingo, maio 31, 2009
Mulher
Dois seios formosos, duas nádegas arrebitadas,
Um corpo em curvas, feições, tato e luvas.
Dois olhos focados, uma boca delimitada,
Sensivel ao toque, desenhada,
Mas não é boneca de diversão,
É ação, é reflexão.
Mulher, mulher que é distinta
Talvez pela história terrível, a sina machista,
Mulher que, com corpo estético,
Não se difere do macho herético.
Mulher é igual ao homem,
Mulher é como o homem,
Mulher come o homem,
O homem não come a mulher,
Porque só quer as coisas
De colher.
Um corpo em curvas, feições, tato e luvas.
Dois olhos focados, uma boca delimitada,
Sensivel ao toque, desenhada,
Mas não é boneca de diversão,
É ação, é reflexão.
Mulher, mulher que é distinta
Talvez pela história terrível, a sina machista,
Mulher que, com corpo estético,
Não se difere do macho herético.
Mulher é igual ao homem,
Mulher é como o homem,
Mulher come o homem,
O homem não come a mulher,
Porque só quer as coisas
De colher.
quinta-feira, maio 28, 2009
memórias de leitura

Acabei de fazer a leitura deste livro, "Herdando uma biblioteca", de Miguel Sanches Neto. Uma série de textos de cunho muito pessoal. Há, no livro, o retrato escancarado de um leitor. Um leitor sempre em formação. Há o início deste leitor, o como os livros se colocaram na vida dele. Há, também, o que e quem é este leitor nos dias de hoje, escritor renomado, crítico, e outras atribuições que a vida em volta dos livros lhe impõe.
São relatos, impressões, e opiniões que, para um leitor-em-formação-amante-de-livros, meu caso, fazem crescer ainda mais a vontade de estar rodeado por livros e por objetos de leitura. São relatos que inspiram a novos escritos, a descrições de momentos de leitura, como este. Cada livro merece um dizer, falando bem ou não. Cada livro merece o seu silêncio pós-leitura, um tempo para digerir o que acabou de se mastigar, e um registro, por menor que seja, incorporando-o, de fato, a si.
Não me vejo herdando alguma biblioteca, e sim construindo uma própria. Com livros bem selecionados, que me tocam de alguma forma, sem preocupações com classificações ou vendagens de revistas semanais ou semanários culturais. A construção de um leitor se dá pelo saber escolher o que ler. "Herdando uma biblioteca", para mim, foi uma boa escolha, sem dúvida.
São relatos, impressões, e opiniões que, para um leitor-em-formação-amante-de-livros, meu caso, fazem crescer ainda mais a vontade de estar rodeado por livros e por objetos de leitura. São relatos que inspiram a novos escritos, a descrições de momentos de leitura, como este. Cada livro merece um dizer, falando bem ou não. Cada livro merece o seu silêncio pós-leitura, um tempo para digerir o que acabou de se mastigar, e um registro, por menor que seja, incorporando-o, de fato, a si.
Não me vejo herdando alguma biblioteca, e sim construindo uma própria. Com livros bem selecionados, que me tocam de alguma forma, sem preocupações com classificações ou vendagens de revistas semanais ou semanários culturais. A construção de um leitor se dá pelo saber escolher o que ler. "Herdando uma biblioteca", para mim, foi uma boa escolha, sem dúvida.
Í.ta**
terça-feira, maio 19, 2009
Prolixo
Sou a favor do lixo
Das letras, do nicho
Das cabeças, da confusa
Maneira de compôr.
Uso meus dentritos
Em uma reciclagem, edição
Dos meus escritos.
Das letras, do nicho
Das cabeças, da confusa
Maneira de compôr.
Uso meus dentritos
Em uma reciclagem, edição
Dos meus escritos.
terça-feira, maio 12, 2009
Anatomia
Dizem-se doutores da vida,
aqueles que aprendem morte.
Vista-se de conhecimento,
o corpo frio e vivo.
Quantas lágrimas correram
veias e artérias diversas!
Quantas emoções transcenderam
músculos e tendões endurecidos!
Olhos vidrados no infinito,
que haveria mais além:
morte viva, ou vida morta?
A Anatomia vive em
corações diversos...digo
doutores, doutores da morte.
aqueles que aprendem morte.
Vista-se de conhecimento,
o corpo frio e vivo.
Quantas lágrimas correram
veias e artérias diversas!
Quantas emoções transcenderam
músculos e tendões endurecidos!
Olhos vidrados no infinito,
que haveria mais além:
morte viva, ou vida morta?
A Anatomia vive em
corações diversos...digo
doutores, doutores da morte.
segunda-feira, maio 11, 2009
Ofuscada
quando a avistei
virou o rosto
muito apressada
subiu à sala
esbocei um
"seja sensata"
som de poesia
mal sussurrada
uma vez excitada
cuspiu na cruz
pensa nas luzes
..esquece a ribalta
virou o rosto
muito apressada
subiu à sala
esbocei um
"seja sensata"
som de poesia
mal sussurrada
uma vez excitada
cuspiu na cruz
pensa nas luzes
..esquece a ribalta
terça-feira, maio 05, 2009
Writers no TOP BLOGS
Saindo um pouco dos versos e das rimas...Criado pela MIX Mídia Digital, o concurso TOP BLOGS vai eleger o melhor blog em várias categorias - Celebridades, Cultura, Comunicação, Esportes, Games, Humor, Música, Política, Saúde, Sustentabilidade, Tecnologia e Variedades.
Através de voto popular e júri acadêmico, as votações de blogs estão disponíveis na internet desde 4 de maio e só se encerrarão em 11 de agosto. O mais votado e eleito pelo júri, em cada categoria, receberá uma premiação especial do concurso.
O The Blue Writers está participando do concurso na categoria Cultura. Para votar, clique aqui ou no topo da coluna da direita. Coloque mamãe, papai, cachorrinho e todo o pessoal que você conhece na votação. Esse prêmio é muito importante para nós: focas, bolas e pretensos comunicadores.
Mais detalhes sobre o TOP BLOGS, aqui.
Mais detalhes sobre o TOP BLOGS, aqui.
segunda-feira, abril 13, 2009
Meu canto
Não tenho grandes viagens para contar,
Não tenho grandes valores para exaltar,
Vivo numa época de desesperar,
Ensaio um desperar, invento um renovar.
Não tenho grandes viagens para contar,
Só tenho um punhado de livros, meus olhos
E minha terra, meus cantos,
Minha fala em prantos.
Não tenho grandes valores para exaltar,
Vivo numa época de desesperar,
Ensaio um desperar, invento um renovar.
Não tenho grandes viagens para contar,
Só tenho um punhado de livros, meus olhos
E minha terra, meus cantos,
Minha fala em prantos.
domingo, abril 12, 2009
Jazz
Minha poesia é improvisação pura,
Invento um verso, rimo com outro,
Teço grupos, estruturo os conjuntos,
Uso repertório, repito o repetido,
Uso obra de outro, destruo meu espírito.
Não espero nada das palavras,
Não espero nada das lavradas
Obras de meu destino,
Espero uma base, um tino
De fina arte, e crio
Idéias.
Poesias são idéias,
Não declarações de amor,
Nem fontes de odor,
São conceitos flutuantes,
Ululantes, pulsantes,
São momentos e intervalos,
Incessantes.
Invento um verso, rimo com outro,
Teço grupos, estruturo os conjuntos,
Uso repertório, repito o repetido,
Uso obra de outro, destruo meu espírito.
Não espero nada das palavras,
Não espero nada das lavradas
Obras de meu destino,
Espero uma base, um tino
De fina arte, e crio
Idéias.
Poesias são idéias,
Não declarações de amor,
Nem fontes de odor,
São conceitos flutuantes,
Ululantes, pulsantes,
São momentos e intervalos,
Incessantes.
segunda-feira, abril 06, 2009
A solução para São Paulo
A menina feliz que fala com as pessoas no ônibus.
Mesmo sem verbalizar.
(Entenda ônibus como qualquer lugar.
Falar ao ônibus é como falar ao mundo,
exigindo coragem, ousadia e até uma
certa falta de noção, que é saudável)
Mesmo sem verbalizar.
(Entenda ônibus como qualquer lugar.
Falar ao ônibus é como falar ao mundo,
exigindo coragem, ousadia e até uma
certa falta de noção, que é saudável)
quarta-feira, abril 01, 2009
P.A.Z
Personalidade Aritmeticamente Zelosa,
Parada Administrativa e Zunida
Pára o Auditivo Zelote.
Para Alguém Zelar
É Preciso Alertar o Zé.
Minhas iniciais brincam no fim e um pouco antes dele.
Não é? Pedro Zambarda de Araújo?
Parada Administrativa e Zunida
Pára o Auditivo Zelote.
Para Alguém Zelar
É Preciso Alertar o Zé.
Minhas iniciais brincam no fim e um pouco antes dele.
Não é? Pedro Zambarda de Araújo?
quinta-feira, março 26, 2009
Frenético
Intermitente, interferente
Amigo, patente do meu ascendente
Artístico, rente a irreverente
Loucura do místico, inteligente.
Dedicado a Guilherme Prestes Mendes, que completa 21 anos hoje.
Amigo, patente do meu ascendente
Artístico, rente a irreverente
Loucura do místico, inteligente.
Dedicado a Guilherme Prestes Mendes, que completa 21 anos hoje.
sexta-feira, março 13, 2009
Eu,
Uma existência presa
no plano do absurdo
sedenta por mundos
sou algo que vaga
no campo do inimaginável
imaginar-me, moldar-me
despido de probidade
é digno de pena
desconfortável
quando escondi
a dor da alma gêmea
existe livre arbítrio
ou é conversa das estrelas
sou preso por estar ciente
por quanto tempo
não consente
esta lógica
incoerente
e mais,
esta coleira
é de puro couro
do mais fino curtume
entre os dejetos dos firmamentos
exibo as algemas
não machucam as mãos, mas
os vislumbres do inconsciente
prendem-me a este mundo leviano
sou uma alma
acorrentada e torturada
subjugada ao mais cruel verdugo
a cruel mortalha
que cobre a carne viva
é da mais fina seda
especialidade da nobre colheita do oriente
sem saída, aberração
sem salvação neste plano
de certeza crua
e implacável desdém
preso ao valor
e à matéria prima
de alta qualidade
padrão de mercadoria
eu,
acho que penso
Uma existência presa
no plano do absurdo
sedenta por mundos
sou algo que vaga
no campo do inimaginável
imaginar-me, moldar-me
despido de probidade
é digno de pena
desconfortável
quando escondi
a dor da alma gêmea
existe livre arbítrio
ou é conversa das estrelas
sou preso por estar ciente
por quanto tempo
não consente
esta lógica
incoerente
e mais,
esta coleira
é de puro couro
do mais fino curtume
entre os dejetos dos firmamentos
exibo as algemas
não machucam as mãos, mas
os vislumbres do inconsciente
prendem-me a este mundo leviano
sou uma alma
acorrentada e torturada
subjugada ao mais cruel verdugo
a cruel mortalha
que cobre a carne viva
é da mais fina seda
especialidade da nobre colheita do oriente
sem saída, aberração
sem salvação neste plano
de certeza crua
e implacável desdém
preso ao valor
e à matéria prima
de alta qualidade
padrão de mercadoria
eu,
acho que penso
Revolução da Vida e da Morte
Um comentário íntimo
sobre a vida pública
é perfeita a hora
para semear dúvidas
no mais,
é viver e deixar morrer
e na prateleira guardar
o que não mais servir
pois,
de que adiantaram
todas as paronomásias
se os parnasianos invadiram França
dos bons costumes
ficaste a ver
os vagalumes
já ébrio, distante
de boemia
e decorado com uma cereja
é ordinária
a dulce fava
que serviu exércitos
e honras compradas
é triste igual
todo esse medo
sinal de destruição
é igualmente mordaz
a inteligência
que deixa sequelas
que prometeu o sangue
houve tempo
para imaturidade
sobre a vida pública
é perfeita a hora
para semear dúvidas
no mais,
é viver e deixar morrer
e na prateleira guardar
o que não mais servir
pois,
de que adiantaram
todas as paronomásias
se os parnasianos invadiram França
dos bons costumes
ficaste a ver
os vagalumes
já ébrio, distante
de boemia
e decorado com uma cereja
é ordinária
a dulce fava
que serviu exércitos
e honras compradas
é triste igual
todo esse medo
sinal de destruição
é igualmente mordaz
a inteligência
que deixa sequelas
que prometeu o sangue
houve tempo
para imaturidade
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