segunda-feira, outubro 08, 2007

A diva vazia

desperto

amortecido nesta cavidade

e esta entranha

toda exposta

maldisposta

recusa-se a cicatrizar


......
......

apresento-lhes

a Rainha das Meretrizes, Bocetrizes

Cuja lembrança resgatada

dos recônditos esquecidos

das dobras do ocaso

mais oca que um santo barroco

......

traga me o fim

o vácuo abismal

a escuridão perfeita

as pétalas da noite

que desenham verdades

acabou, por ora.

......

aquele grito

delicioso

delineia a noite

como maquiagem de pobre

um minuto depois

e já foi embora

hão de convir, sadismo autêntico

sobrou uma vã existência

vestida de negro

com seu mais estupendo

vaticínio - gracejante

......

A diva vazia, supérflua

de alma lânguida, álgida

aflige o escritor, chula

com puto poder de sedução

......

É o fim

Diva, traga me o fim

um abismo para eu cair

espadas para a mim trespassar

volto ao meu pó

o mais puro nada

este vazio?




...

domingo, outubro 07, 2007

Números, números, números

Trinta e dois, sessenta e quatro, noventa e seis,
Cento e vinte e oito, duzentos e cinqüenta
E seis; O número, capataz que atormenta
Que conta, que mostra, ferramenta de reis!

Quinhentos e doze, um mil e vinte e quatro
Simbolozinhos nos papéis protagonistas
Que matam, consomem cérebros em vãs listas
Exercícios pífios, temperam o teatro

Co'amaro sabor de necessidade plástica
Atualmente usado por matéria escolástica
Despido da real e verdadeira essência

Teatro da vida, onde fingimos ver
Que algo podemos com os números fazer...
Não calculamos! Por quê? Degenerescência!

O motor humano se esgotou mais uma vez...

sexta-feira, outubro 05, 2007

O gauche às avessas

"A felicidade é um estado de espírito, por conseguinte, não pode ser duradoura."
Oscar Wilde

"Tudo vale a pena, se a alma não é pequena."
Fernando Pessoa


Passam horas, passam dias; passam pessoas, passam vidas. O amigo de infância que morreu baleado, o outro que se atirou de um prédio, as situações caracterizadas por um desespero imenso que – simplesmente – sumiu. Não é só você (ou eu) que envelhece: as idéias também. Cada algarismo passado é uma Revolução tornada ridícula. O amor que desmoronou. Nosso tempo não é o nosso tempo; cada dia é passado para trás antes mesmo de terminar.

As pessoas são tristes quando consideradas sem ênfase. Igualmente os momentos, eles são únicos. Poucos deles realmente vivemos; pela grande maioria apenas passamos. A preguiça escusa que rouba a hora potencialmente divertida; a preguiça cruel, oportunista, desgraçada. Seguida do arrependimento. Delírio de inferioridade constante. Enfatizar tudo é uma mentira: temos menos amigos que colegas, menos felicidades que amarguras.

O dia-a-dia é sujo e chato e azedo. Desequilíbrio. Sentir-se pendurado em uma janela desde a hora que acorda. O mito de Sísifo: levantamos nossa pedra (para alguns, pedregulho) e somos obrigados a vê-la rolar novamente para onde começaram nossos esforços; para o zero. Mas não é o morro e sua encosta que nos derrota; o peso do fracasso só é evidente quando se concorda em erguê-lo. Lutar contra o Fantasma diário, que nos alimenta de medo e mais medo.

O Absurdo é a verdade? Viver é mesmo fugir das ilusões e das luzes, de toda a (pouquíssima) esperança que temos? Eu não quero essa realidade. Louco, paranóico, estranho; prefiro ser um sonhador maluco do que um realista suicida. A sociedade fede, a responsabilidade fede, o amor-escravista fede: hei de comprar muito perfume!

Mais deprimente do que viver triste procurando alegria é viver alegre – ou quase – procurando a tristeza; o primeiro ainda vive, o segundo já morreu.

05/10/2007

De perto acontece.

Não há nada muito peculiar nesses dias, só uma conclusão velha que não pára de se manifestar como uma epifania à medida que entro em contato com seres humanos, tão semelhantes e distintos de mim.

Temos sim a constante necessidade de generalizar. E não adianta fugir ou encobrir essa verdade. Resolvi, então, simplesmente, passar por cima das generalizações e me aproximar das pessoas. Aproximar-me não emocionalmente ou psicologicamente, alegorias normalmente usadas nessas palavras, mas simplesmente de chegar perto, observar, abrir esses dois glóbulos que tenho e tentar construir algo produtivo nessa atividade.

Sumiram de mim as concepções de feio ou bonito, restou apenas uma noção básica de estética ligada à sensibilidade. Fiquei observando essas pessoas há horas e continuo com impulso de olhar, quase numa atração voyeur.

As monstruosidades ficam amostras. Mas não é para apavorar, uma vez que você tem sua própria criatura de estimação em ti. O monstro se prostra para você ingerir seus conhecimentos, suas dores. Doer é fazer contato.

Beleza então fica duradoura. Beleza então fica paradoxal. Eu fico com vontade de observar de diversas maneiras. Gosto de ser percebido ou de passar como um fantasma pelos outros. Mas o objetivo principal é ver, compreender suas limitações e seguir para a próxima pessoa. Se algum detalhe faltou, volte e reavalie.


Não quis, com essas palavras, parecer íntimo de todos. Quis apenas expressar assim como eu gosto de ver. Joguei as palavras no relento e descobri que, mais do que os significados, está a capacidade de significar. Mais do que a generalização, do que chamar a mina X de patty e o rapaz Y de intelectual, está a capacidade de chegar nesse veredicto. Acabei entendendo que o tesão da vida não é o julgamento, mas seu processo.

Está acontecendo agora. Vai morrer a qualquer momento.




Pedro Z, 05/10/2007.

Linhas inscritas em uma taça feita de um crânio

Não fuja – nem julgue a fuga de meu espírito:
em mim vejo o único crânio
do qual, diferente de uma cabeça viva,
tudo o que flui nunca é estúpido.

Vivi; amei; bebi – como tu;
morri: deixe à terra meus ossos resignarem-se;
complete-me! – tu não podes ferir-me;
o verme tem lábios mais nojentos que os teus.

Antes manter meu legado vivo
à acalentar a viscosa ninhada do verme;
e circular em torno da taça
a bebida dos deuses à comida dos répteis.

Onde uma vez brilhou meu pensamento,
em benefício de outros deixe, de novo, mostrar-se;
e quando, infelizmente, nossos cérebros forem-se,
qual mais nobre substituto que o vinho?

Beba enquanto pode; outra ossada,
quando tu e os teus forem como eu,
podes salvar-te do abraço da terra,
para rimarem e deleitarem-se com morte.

Por que não – já que durante a curta vida
nossas cabeças tão tristes efeitos produzem?
Redimidos dos vermes e da infértil terra,
essa chance é a delas serem úteis.

31/10/2006.

.

Esta tradução é de um poema escrito por Lord Byron - Lines Inscribed Uppon a Cup Made of Skull - do qual gosto muito. É uma sátira sobre um crânio encontrado na Abadia herdada por ele onde foi esculpida uma taça. Falta muita coisa nesta tradução: rimas e métricas. Perdão, mas ainda não tive paciência para remontá-la. Obrigado.

.

Pois é... faz tempo que não falo a respeito dele, mas o quase-blog que criei - O Monólogo de uma Sombra - foi atualizado. Postei alguns textos que gosto bastante. Não me perguntem porque diabos resolvi colocar coisas lá, não fechá-lo: não sei. Simplesmente quis. Além do deviantART, queria ter algum outro meio de publicar minhas coisas (sem desmerecer o BlueWriters, mas desejava algo meu).

A url está ao lado, nos sites relacionados deste mesmo blog. Quem quiser visitar, agradeço.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Peleja

Os pássaros que caem do céu
Sobre seu sangue eu caminhei
Os gritos das mães, as asas contorcidas
Perdido entre penas e mártires

O vôo de algum dia, meu retornar
Ao que eu nunca fora
Expulso, jogado para o lado de fora
Esperando apenas por esperar

Nuvem negra descende em cascatas
A chuva tem gosto de vingança
E assim, feito um rasgo na comodidade
Aspirantes a deuses surgem da sujeira.

Ao amanhã as armas serão carregadas
Mais e mais casualidades ocorrerão
Não mais o cantar de vidas fugazes
Não mais o trair de vilões atrozes

The Dawn

Act 1- The Dawn

A menina sabia o que viria a seguir. Faziam anos que a tradição não era quebrada, mas seu teste vocacional acabara de confirmar o que ela já sabia. Não tinha vontade de ser espadachim. Dobrou o papel da resposta calmamente enquanto dizia ao homem a sua frente que queria seguir o caminho descrito na folha. Enqüanto o homem entregava-lhe itens imprescindíveis para um bom começo na sua profissão, ela pensava em como esconderia, pelo menos no começo, tal disparate à sua linhagem.
Tinha sangue da família Hopkins, antiga descendência de excelentes lordes. Toda a criança nascida em seu berço era imediatamente levada a um treino na arte de manusear espadas, que perduraria por anos, até que este atingisse a maioridade. Tornavam-se espadachins muito cedo, e a corrida de irmãos para mostrar mais talento era um espetáculo tenebroso apreciado pelo chefe da linhagem. Atualmente tal posto era ocupado por Werther Hopkins, seu pai. Ele teria o desgosto de não ver sua filha chegando em Izlude, e mal saberia que agora ela pisava em Alberta.
Andou pelas ruas empedradas da metrópole comercial até avistar o que parecia ser a guilda dos mercadores. Haviam alguns outros na mesma situação -ao menos aparentemente- que ela. Entrou na fila e dirigiu-se ao homem atrás de um balcão para candidatar-se a profissão.
-A inscrição custa mil zenys, mas se quiser pode parcelar em duas vezes. Uma agora e outra quando acabar o teste.
-Prefiro pagar numa vez só.
Talvez fosse sorte da menina que sua família fosse rica, mas certamente preferiria liberdade de futuro a condições monetárias. Desembolsou mil zenys, permitindo ao homem que desse-lhe um código e dissesse:
-Vá até o chefe do almoxarifado. Ele entregará uma caixa correspondente ao código. O destino é a Ilha Byalan, com a Kafra responsável pelo local. A ilha é acessível pegando um barco na cidade de Izlude, o marujo não cobra tão caro.
-Sem problemas. Voltarei o mais cedo possível.
-Ah! Se não for um incômodo, poderia levar essa carta a ela?
Surpresa com o pedido do homem, aceitou o pedido. Dirigiu-se ao chefe de almoxarifado, dise-lhe o código e o destinatário da encomenda e recebeu uma caixa do mesmo. De posse da caixa, seguiu até o norte de Alberta, onde uma funcionária Kafra atendia seus clientes. Mais uma vez a vantagem de ter dinheiro bateu-lhe na porta.
-Com licença, senhora, gostaria de um teleporte para a cidade de Izlude.
-Com prazer.
Sem delongas encontrou-se na cidade de Izlude. Faria de tudo para não precisar pisar naquela cidade, porque algum servo dos Hopkins poderia estar espionando a saída da guilda dos Espadachins, ou até mesmo toda a cidade, a procura dela. Espremeu-se por vãos entre as casas, fazendo o máximo para não ser vista. Olhou para o outro lado da praça central, e para seu horror avistou um dos capangas de seu pai. Virou o rosto e acelerou o passo. Uma mão a segurou. Sobressaltada, virou-se para ver quem era.
Um espadachim, menino, pela face infantil; desproporcionalmente alto para a idade que aparentava, olhava inocentemente para sua face.
-Desculpe pelo susto. De quem está fugindo?
Ela não conseguiu evitar olhar para o servo, e o menino, percebendo para quem os olhos dela apontavam, posicionou-se num modo que impossibilitava ao homem vê-la.
-Por que está fazendo isso?
-Eu... sei o que é fugir de alguém. Vai até onde na cidade?
-Não sei se posso confiar em você...
-O que você tem a perder?
Os olhos dos dois se encontraram. Era possível ver que ele não mentia, nem era ameaça.
-Para o porto. Preciso ir até Byalan.
-Certo, siga-me.
Os dois chegaram até o barco, onde o capitão da balsa os recepcionou.
-A passagem para Izlude custa cento e cinqüenta zenys, senhores.- Olhou para o espadachim.- Por pessoa.
-Você vem? - Disse a menina para o espadachim.
-Sim, Byalan é um lugar interessante para treinar...
-Eu pago a sua então. Como gratidão por ter me salvo.
Embarcaram os dois na balsa. A maré estava calma, e uma brisa refrescante soprava em seus rostos. Ela olhou para o menino.
-Qual o seu nome?
-Eu... não tenho nome. Me chamam de Iron Knuckle, pelo tamanho...
-Certo, Iron. O meu é Sarah Hopkins.
Chegaram em Byalan em menos de vinte minutos. Sarah falou com a Kafra, entregou a encomenda, a carta, e recebeu uma nota fiscal.
-Preciso voltar à Alberta agora. Obrigada pela ajuda.
-Nada...
O tom depressivo com o qual ele falava despertou uma curiosidade estranha na menina. Um menino sem nome, de proporções gigantescas, abandonado no mundo. Prometeu a si mesma voltar a Byalan assim que possível, a fim de procurá-lo. Pegou uma asa de borboleta e voltou a Alberta. Entrou novamente na guilda dos mercadores.
-Aqui está o recibo.
-Deixe-me checar... tudo certo! Parabéns, Sarah, agora você tem permissão para circular o mundo como mercadora. Boa sorte em sua jornada.
Sarah pegou o uniforme de mercadora e saiu rapidamente da guilda, decidida a encontrar aquele curioso espadachim que a ajudara.


------------------

Fanfic de Ragnarök Online, feita há muito tempo. Primeiro capítulo. Como não tenho texto melhor pra postar e não quero abandonar esse blog, botei ela logo. Se puderem, avaliem, talvez isso me faça completá-la.

Até!

Acontece sempre.

Minha própria borboleta bate asas, faz os modos de uma águia, devora vermes como um falcão. Minha própria borboleta me encanta, me embaraça, me toma a taça e derrama seu sangue. Minha própria borboleta bate asas, faz as pazes para começar os embates, os empates, os contrastes.

Enquanto as pequenas rajadas de vento circulam, o furacão absorve, comove, amedronta. Não há equilíbrio de John Nash, nenhuma conta matemática exata. Paira o caos, o contraste, o barroco, sem sobrar qualquer toco. O pouco que peço é que as borboletas da minha vida não sejam vistas como avatares delicados, mas sim como prelúdios inusitados.


Pedro Z, 04/10/2007.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Palavras Acerbas

Da perfídia és filha
Enigmática e sombria
És vazia, pálida Maria
És um mito, recontado por mero escrito

Dona beneplácita, doravante ficarás sabendo
Nego toda razão a ti atribuída
Não há porque aprofundar-se
Na sua história rasa, malcontada

És mesmo uma velha fenecida
Derramo lágrimas de deleite
Pois creio que ao expô-la ao ridículo
Escarneço também toda sua estirpe

Depósitos de lixo abruptos e bestializados
Servem só pra ocupar espaço
Vez por outra, alguém vislumbra
Algo estranho por detrás da penumbra...

Ritual Funeral

Austeras palavras decoram esta arenga
Uma vez entoada à guisa de ode fúnebre
Celebrando as exéquias, a rotura destas penúrias
Veredas obscuras por onde andava enredado.

Carrego esta vestidura que me leva ao cadafalso
Simboliza parte mundana que reservar-se-á

ao oblívio.

Suave mortalha que, aceita de boa vontade
Separadas são, as duas metades.

Hostil cerimônia cingida em penitências
Abstenções pontuadas por reveses
Decisões profundas apoiadas em desprezo
Culminam na Extrema Unção.

Morro, conquanto prezo
Sem desdém
A metade desta agora destinada ao limbo.
Na que me resta, espero apenas
Certeza de fruição.

terça-feira, outubro 02, 2007

Não aconteceu.

Dureza maior do que a dor é o que não é dito. Voltei da faculdade hoje, poderia ter voltado de qualquer lugar que a sensação é a mesma, maldito. Uma frase me escapa, uma farpa de algo que não houve. Há minutos e minutos. Muitas conclusões. No entanto o processo escoa, escapa, espelha e espera. Muitas coisas que poucas pessoas usam.

Em verdade, não existe a "não-palavra", existe significados que não são explicitados. Para esses, a vida nos reserva conforto e magia em seu mistério ou confusão e revolta por sua omissão.


Pedro Z, 02/10/2007.

Revisitando o Universo

Em homenagem ao meu amigo William Gnann.
Por um simples trocadilho com a palavra me fez voltar nesse assunto.

--

Os olhos traiçoeiros dormem, dobrem
A vigilância, recobrem a tolerância,
Olhos traiçoeiros não podem ter ganância.

Olhos traiçoeiros despertam
Lamentos, inconformados
Andam os homens, desinformados
Seguem seus sistemas.

Planetas revelam arenas
De batalhas sem temas,
De propósitos sem lemas,
Planetas revelam armas
Sem qualquer dilema.

Não há tempo pra pensar,
Não há luz para imaginar.

Unir verso é desunir o avesso,
Aceite os olhares traiçoeiros,
Universo é aversão ao único texto,
Aceite os olhares traiçoeiros,
Verso unificado não é solitário,
É arbitrário, é dúbio,
Sempre causa dúvida.

O tecido, a malha, envolve o relógio,
Meu horário não espera refúgio,
Unir avesso, unir desalinhados,
Meu cosmo vibra uma luz sem alvos.

O cosmo vibra uma luz sem laços,
Ficam soltos os abraços amargos
Que não recebo, fica a idéia que não concebo.

O cosmo vibra uma união de versos,
Versículos de uma oração sem pontos,
Desatadas estão nossas estrelas,
Me perdi em minhas próprias
Maneiras.

Unir verso.
Universo.
Unir inversos.
Universos.
Unir invernos.
Unir infernos.
Universo.

O cosmo vibra a união
Da desunião com o embrião.

O cosmo vibra desilusão
Da interpretação sem visão.

Vermelho

Eu respiro forte e caricaturalmente, ainda assim o ar parece não entrar. Na lembrança tenho o vidro quebrado do perfume, o cheiro que me ficou à náusea, tudo entrecortado, justaposto, como num filme de baixo orçamento e grande pretensão. Ela não estava lá, de novo na rua quando cheguei, me perguntando com a resposta pronta se ela viria me receber. A água do chuveiro me molha o corpo, gradativamente me afunda nas lembranças daquele dia. Chovia. Madalena costumava me olhar fundo nos olhos de embriaguez, e eu passei a chamar aquilo de ‘o meu fim-do-mundo’. Mais tarde, ela veio morar comigo, entrou no meu apartamento e na minha vida do mesmo jeito, como se sempre estivera lá, tão óbvia e natural, Madalena era o abajur da sala, iluminava sutilmente meu mundo. Subia minhas calças pelas manhãs, se mostrava aguardente melíflua nessas horas, nos antes e depois. Toda noite saía, enquanto eu me afundava nas páginas de mil romances-naufrágios, para trabalhar em um bar, atendendo bêbados, casais, grupos. Mas ela se estendia, acabando em outro bar mais decrépito, Bêbada, talvez por vingança, pra se ver como a servida, trocar de papel. Ela tinha disso, era dualista. Já eu, era múltiplo, e éramos um só. Nos confundíamos de tal maneira que cheguei a querer engoli-la, me enfiar todo nela, vê-la por dentro, dissecá-la. Pedi-lhe, insisti, supliquei-lhe; eu precisava daquilo pra escrever, finalmente o romance estava deslanchando, mas os arranhões, as mordidas não eram mais motor suficiente. Madalena cedeu, de início excitada, depois estranhou, resignou-se, entristeceu. Cada jorro de líquido vermelho dos ombros, das coxas dela era um tesão frenético em mim. Naqueles dias escrevi como um insano, tinha a impressão de ver a tinta no papel vermelha. Não. Serei honesto; cheguei a vê-la, sim, rubra. Eu escrevia o sangue de Madalena, suas veias, seus intestinos. Ela, mais marcada, tremia ao voltar, quando voltava. Em mim, então, na centésima oitava página, veio o desespero, uma ânsia de uma certeza terrível subiu à garganta. Vomitei. Parei de escrever, desesperado. Por que cada letra para viver no papel tinha de sugar a vida da mulher que eu amava? Tornei-me sombrio, pálido, quase-morto, jogando-me exaustivamente ao trabalho naquele escritoriozinho de merda, ao qual nunca antes dedicara esforço. Esforço sem ganas, porém; apenas maquinal. Não amava mais, mal comia, dormitava sem sonhos, acordava sem mordidas em Madalena. Ela se desesperou, parou de beber, voltava em ponto para casa, implorou para que eu fosse como antes, para isso se cortava!, se cortou nas coxas, fez sangue verter pelo tapete. Berrou, louca. Foi o dia: ela quebrou o frasco do perfume histérico, o som da quebra e dos gritos, dizendo eu-te-amos enraivecidos, pedindo dó e se enfiando na carne um caco adocicado. Bebo na água do chuveiro o amargo do amor de Madalena. Peguei-lhe os pulsos, sacudi-a, incendiado de medo. Não poderia pedir a ela, contar tudo! A verdade da humanidade na minha mão: Contei-lhe. Ficou mais pálida, mais, era gesso, cal, a morenice esvaiu-se da pele, o tapete era vermelho e moreno sob seus pés. Súbito, vi um lampejo nela, pareceu-me descobrir o sentido da vida, o fim absoluto, um fim-do-mundo que já não era o meu. Entendemo-nos no silêncio; nunca a vira tão mulher. Pegou a faca afiada na cozinha, beijou minha boca e disse, Faz. Das três punhaladas saíram nascentes infinitas, toda a vida Madalena me havia dado para perpetuar nas palavras. Deu por si, senti-a dizê-lo no último som. Seus olhos abertos, fitando a janela, não tive coragem, ou tempo, para fechar. No mesmo dia terminei o último capítulo, sentindo até o último ponto final que a caneta era sua veia pulsante.

domingo, setembro 30, 2007

Universo

A poesia que define meu jeito de pensar.

Uma explosão luminosa
Que gera astros e a imensidão
Do vazio que alivia,
É a energia concentrada num grão
Que gira a vida.

Os buracos do nada
São a vontade entristecida
Do obscurecer.

Mesmo assim, esse espaço é um vasto de luzes,
São encontros de brilhos, das lentes
Que adquirem foco,
Das luas que ganham o brilho
Ao refletir seu raio.

Seus planetas, são corpos
Que carregam o desejo dos pólos
Magnéticos, estar unindo,
E que repele por ser um meio
Diverso.

A atração de todos juntos,
Que impede a completa junção,
Consiste na gravitação
De várias idéias em comunhão,
Esclarecidas pela luz da estrela, unidos.

Uma explosão luminosa
Foi o que vi dentro de seus olhos,
Demonstração clara, sem velhos
Jeitos de explicar a complexa
Máquina humana, um universo
Que eu sinto.

Homem Universo,
Diverso limitado.

domingo, setembro 23, 2007

Projeção

Sou um poeta triste;
um homem doente;
débil, mal-amado e carente:
um indeciso frustrado,

de uma frustração soberba
e vã que desperta
a Hidra psicológica.

Liberto minhas personalidades
E misturo-as.

19/08/2007

sábado, setembro 22, 2007

Memória

Gotas da história
Pingam nos seixos da memória
É rio caudaloso que entorta
E reconta estórias tão longas
De um passado distante
Onde Deus adormeceu

De fatos recheada
Saboreia o vinho nesta enseada


Onde foi mesmo que Deus morreu?

quinta-feira, setembro 20, 2007

cena



Uma praça como qualquer outra, dentro de uma cidade qualquer, um banco, uma calçada e uma moita.
E na calçada há um homem, jovem, não mais do que 26 anos.À sua frente duzias de pombas de amontoam. Em sua mão, um embrulho, um saco de pães frescos.
O homem pega o pão, o rasga em pedaços. Atira às pombas, e elas ficam felizes.

(texto antigo)

política



eu nego e renego minha pátria
eu nego a terra onde nasci
eu renego ao meu rei
e não, não é só isso, eu renego à tua pátria
e à de teu irmão
renego também à pátria daquele homem, que você nunca conheceu e que nunca o fará
eu renego o poder
renego o dinheiro
renego à lei
sobretudo eu renego o estado
isso porque eu acredito
eu acredito em ti, e em teu irmão
eu acredito no palhaço qe faz as crinças rirem
eu acredito no homem que dá seu suor e seu sangue para que seu filho seja mais feliz e acredite nas pessoas
eu que acredito no homem que planta a terra
eu acredito no homem que faz o teatro, seja onde for, e alegra o povo
em suma, eu acredito no homem


(texto antigo)

joão



tu que foste meu irmão, de nascença, de sangue, e de alma
tu que foste um homem honesto, integro e reto
tu que nunca pecaste, mentisse ou sonegasse, ou censurasse à ninguém
tu que tinhas um bom coração
tão puro quanto o de jesus, mas não tão brilhante
tu que foste meu melhor amigo
que estivessete comigo na saúde e na doença
tu que me apresentaste à minha esposa, e o meu filho ao mundo
tu que viveste em graça
tu que és um merda
tu que viveste de olhos fechados
tu que nada fizeste
tu que nada mudasse
tu que à tudo aceitaste
estás morto
e eu apenas digo
ainda bem

(continuando a linha de textos antigos)

domingo, setembro 02, 2007

Homenagem ao ato consumado

Ao fazer nada no ato de fazer nada
Centenas de espécies diferentes de insetos
Zumbem em açodamento no canal auricular
Farei mais nada enquanto tudo me espera

Nego até a morte, que por acaso me alegra
Que me engana sob vieses infectos
Este pedaço de graça irá pagar o que me deve
Disfarçado de olhar vago ao contemplar o não-feito

Olhos recolhem-se até o céu da boca
E portanto poderei cuspir-lhe o que vi
Mirando através das órbitas vazias recobertas
Enxertos de pele com tatuagens orgíacas

Quando o último estalar de meu pescoço
Perfurou o último silêncio gozado pelos tímpanos
Como címbalos atroantes provocando loucuras
Sentimentos cadavéricos perpassando nadas

Ardilosa fui ao enjaular-me nestes destroços
Digerindo vorazmente estas vozes, em letargia
Metaforizando frases de inestimável revelia
Quadrada através das barras estes olhos me fitam
Me desenformem deste estojo com coriza

Eu despenco desta pequena escuridão inserida
No conhecido mundo de possibilidades nulas
Perenemente amada doravante esquecida
Exibindo doze retalhos com requintes porfíricos

Isto é fantástico, ver o edema plástico
Da pessoa que julga tudo sem conhecer a nada
E quantas perguntas ao nada uma tolice crítica
Quando recebe respostas que contradizem sua lúcida

Eu me pergunto, como que estes olhares
Insistentes através desta gaiola
Me deixam excitada dez vezes eufórica
E na penumbra deixei-te escrever teu nome em meu cálice