Primeiramente, queira mudar o mundo
E não saiba como, se perca como um todo,
Cultue a vadiagem.
Em segundo lugar, transforme o ócio
Em semente do ódio, em carvalho
Moralista, em metáfora naturalista,
Cultive a imaginação, a curtição,
A utilização.
Finalmente, mexa os ingredientes,
Erre nos textos, mude os terços,
Faça versos vazios e certeiros,
Faça versos cheios e pequenos,
Não se preocupe com alheios,
Observe o cosmo nesses olhos,
A luneta dos homens cheios.
domingo, abril 20, 2008
Crises Estomacais/Intestinais.
O verdadeiro Cavalo de Tróia trafega
No embaraçoso e serpentado caminho
Do meu intestino delgado.
O estômago contrai, o corpo
Esterlizia seus dejetos
Em um vaso oval, trajetos
Que vão ser descartados.
Esse presente de grego
É um desespero, um emprego
Pra masoquista, uma oportunidade
Às palavras entaladas, palavrões.
No embaraçoso e serpentado caminho
Do meu intestino delgado.
O estômago contrai, o corpo
Esterlizia seus dejetos
Em um vaso oval, trajetos
Que vão ser descartados.
Esse presente de grego
É um desespero, um emprego
Pra masoquista, uma oportunidade
Às palavras entaladas, palavrões.
Fôlego
Tenho uma professora bastante especial, que analisa, de forma conceitual, tudo o que é escrito.
Ela já foi escritora, já foi pensadora de seu ideal, foi reflexo do seu olhar mais sincero e concreto.
Hoje ela diz que tudo o que produz é descartado, que a teoria suprime seu gosto criativo.
Eu, ao contrário, prefiro manter as produções, pretendo renascer a cada segundo, com várias dores, vários cortes profundos.
E ser o que eu sempre quis, ou, ao menos, se atirar pelo ar.
Até o pulmão estourar.
Ela já foi escritora, já foi pensadora de seu ideal, foi reflexo do seu olhar mais sincero e concreto.
Hoje ela diz que tudo o que produz é descartado, que a teoria suprime seu gosto criativo.
Eu, ao contrário, prefiro manter as produções, pretendo renascer a cada segundo, com várias dores, vários cortes profundos.
E ser o que eu sempre quis, ou, ao menos, se atirar pelo ar.
Até o pulmão estourar.
quarta-feira, abril 16, 2008
Vento no litoral
O retrato da dor causada por uma partida repentina, para o sempre. O fim de um relacionamento. O desequilíbrio emocional de Renato Russo. De repente, Robert Scott, a grande paixão (ou amor seria melhor?) da vida de Renato, vai embora do Rio de Janeiro, do apartamento em que ambos moravam, para nunca mais voltar. Sem justificar-se de nada. Apenas a ação de ir. E no líder da Legião Urbana fica um profundo corte a perfurar-lhe o coração, o corpo e a alma, chamado perda.
Renato sabia que nesse mundo ninguém é dono de ninguém (ao menos não deve ser). Não se considerava dono de Scott – rapaz a quem conhecera em uma de suas passagens por Nova Yorque – nem se via como servo do mesmo. A perda sentida não era de Scott, enquanto corpo, enquanto homem. A dor relacionava-se ao amor interrompido bruscamente, aos sentimentos únicos vividos entre os dois, nos rápidos dois anos em que viveram juntos no RJ. A dilacerante perda era de duas almas que longe uma da outra pouco provável sobreviveriam; Renato sentia isso.
Será Scott não se considerava merecedor de um amor tão intenso e profundo quanto o que Renato sentia por ele? Será Scott não sentia poder contribuir a tanto amor? Não sentir com a mesma intensidade? E por isso preferiu partir, como forma de respeito ao sentimento puro de Renato? Será havia se esgotado em Scott aquela paixão que os unira? Nada se sabe. Apenas ficou o registro do quanto esse sentimento chamado saudade, aliado à dor, tomou conta do ser de Renato Russo, dilacerando-o com rapidez, num mesmo passo em que ele sentiu que deveria erguer-se e aprender a viver com essa faca pontuda dentro de si, fazendo o possível para não se deixar ferir demais por ela.
É o que fica claro nos versos de Vento no litoral. O desejo de deixar-se ir, “Eu deixo a onda me acertar / E o vento vai levando tudo embora”, e a sapiência de que se deve ficar: “Quando vejo o mar / Existe algo que diz: / - A vida continua e se entregar é uma bobagem”. A dor da perda de tudo o que se viveu e planejou junto, a ciência de que aquele sentimento não mais seria vivido, e o quanto seria doloroso seguir em frente somente com a lembrança do que um dia sentiu-se na prática, Renato demonstra ao cantar “Dos nossos planos é que tenho mais saudade / Quando olhávamos juntos na mesma direção (...) Agimos certo sem querer / Foi só o tempo que errou / Vai ser difícil sem você”.
O poeta apresenta o quanto o sentimento por Scott permaneceria consigo até o último dia de sua vida, e que jamais seria possível apagar as marcas que ficaram no seu ser. Canta ele “Aonde está você agora / Além de aqui dentro de mim? (...) Porque você está comigo o tempo todo”. Ao mesmo tempo sabia que se erguer era fundamental. Seguir em frente por si e por quem, segundo o mesmo dizia, era a verdadeira Legião Urbana: o público, os fãs. A consciência de que, apesar de toda a dor a cortar-lhe a alma a fundo, ele teria que, a partir daquela ruptura brusca, viver por si mesmo, sentir-se bem consigo mesmo, está expressa nos versos: “Já que você não está aqui / O que posso fazer é cuidar de mim / Quero ser feliz ao menos / Lembra que o plano era ficarmos bem?”.
Renato parecia saber que através da escrita de seus versos e das composições das músicas da banda ele poderia ajudar-se a superar tal perda. É o que demonstra ao cantar “Sei que faço isso pra esquecer”, este isso em referência ao processo de produção dos versos e da música, momento em que o poeta sentia que valeria a pena seguir em frente.
Vento no litoral é uma das mais belas músicas escritas e cantadas por Renato Russo. Pouco mais de cinco minutos de duração que levam um ouvinte sensível a sentir-se sob as pedras lisas de um mar agitado, sendo levado pelas ondas, acompanhado pela ajuda do vento, tirando de si as marcas indeléveis que uma paixão interrompida causara. Num mesmo instante em que se pode visualizar o movimento das ondas trazendo de volta à beira da praia o mesmo ser anteriormente engolido, agora já mais leve, sem tal faca cortante dentro de si chamada saudade, e pronto para seguir em frente por si mesmo, relembrando com carinho e respeito o que um dia tornara-se amor vivido na prática.
Na versão ao vivo da música, no disco Como É Que Se Diz Eu Te Amo, Renato diz: "Eu cheguei à conclusão de que se o amor é verdadeiro não existe sofrimento, senão fica um cara doente como o cara dessa música agora", e começa a cantar os versos de Vento no litoral. A consciência do estado no qual ele ficara com a partida para sempre de Scott. O reflexo principal do fim desse amor, no autor dos versos dessa música, é o ceticismo que passou a tomar conta dele no que se refere a um possível amor verdadeiro nessa vida terrena.
Uma obra prima de alguém que sempre deixará nos seus eternos admiradores esse mesmo sentimento que o consumiu por certo tempo: saudade.
Í.ta**
Í.ta**
domingo, abril 13, 2008
Cabelereira Crespa
Crespice, que chatice
Aos olhos alheios,
Aos comentários pentelhos.
Chapinha tá na moda,
Carequice, apesar do frio,
Dá e sobra.
Sou de cabelo retrógrado,
Com pão sou Jesus alado,
Com guitarra sou róquenrou
Irado.
Aos olhos alheios,
Aos comentários pentelhos.
Chapinha tá na moda,
Carequice, apesar do frio,
Dá e sobra.
Sou de cabelo retrógrado,
Com pão sou Jesus alado,
Com guitarra sou róquenrou
Irado.
sexta-feira, abril 11, 2008
Abelha Rainha
Abelha-Rainha
o que perscruta a mente insana
que redime a mente sã?
era uma pérfida abelha-rainha
perdida nas austeras horas
daquela longa e devassa noite
voava pelos becos escuros
a bisbilhotar prostíbulos
ferretreando proxenetas
enlouquecendo as mulheres
que exercitavam as (...?)
desenhava ganchos em linha
na parede das passagens
perscrutando à luz de velas
um labirinto de esfarrapados
perfura gargantas incômodas
despedaçando insolências
e de vão em vão
estalava o ferrão
mas por inexata
razão
com a violência de um peteleco
despedaçada foi-se então.
sinto falta do zunzum
das asinhas agitadas
enxeridas e afiadas
acho que tornei-me
mais um daqueles.
o que perscruta a mente má
que redime a mente vã?
o que perscruta a mente insana
que redime a mente sã?
era uma pérfida abelha-rainha
perdida nas austeras horas
daquela longa e devassa noite
voava pelos becos escuros
a bisbilhotar prostíbulos
ferretreando proxenetas
enlouquecendo as mulheres
que exercitavam as (...?)
desenhava ganchos em linha
na parede das passagens
perscrutando à luz de velas
um labirinto de esfarrapados
perfura gargantas incômodas
despedaçando insolências
e de vão em vão
estalava o ferrão
mas por inexata
razão
com a violência de um peteleco
despedaçada foi-se então.
sinto falta do zunzum
das asinhas agitadas
enxeridas e afiadas
acho que tornei-me
mais um daqueles.
o que perscruta a mente má
que redime a mente vã?
Realidade insana
Da cruel insanidade mental
povoada pela limitada lógica,
emergem as destruidoras dúvidas,
que aquela realidade circundam.
De nós nunca antes desmatados,
agride à loucura humana
aquela força toda interna,
que a vida externa não explica.
E a coexistência de dois mundos;
o dele, que a consciência fere,
e o dela, que chora a verdade;
jamais um elo constituem
até que aquele desapareça
no complexo infinito do outro.
povoada pela limitada lógica,
emergem as destruidoras dúvidas,
que aquela realidade circundam.
De nós nunca antes desmatados,
agride à loucura humana
aquela força toda interna,
que a vida externa não explica.
E a coexistência de dois mundos;
o dele, que a consciência fere,
e o dela, que chora a verdade;
jamais um elo constituem
até que aquele desapareça
no complexo infinito do outro.
segunda-feira, abril 07, 2008
Tentação do Não-Conseguir
A tentação do não-conseguir
Não é o desespero, este
Ao contrário do que se possa ouvir
Não é o não-esperar.
Impregna nossa mente, uma peste
Com pensamentos desconexos:
Vermelhos, azuis, homicidas...
De fogo e substância ácida
Com inúmeros venenos anexos
Vontade de ferro, de vagar.
Vontade de apagar,
Apagar-se ao desespero,
Desespero é escuridão,
Obscura voz muda em vão
Que grita atroadora
E nada e ninguém toca...
É como um oboé quebrado
Em ver sos li vre s,
Que esganiça as notas
À aguda baforada de seu musicista
Não é o desespero, sua música
É a música sua conquista...
Mas o desespero recorrente
Senóide...
São palavras descontentes
Sentimentalóides...
Palavras não pertinentes
Implausíveis...
Impossíveis...
Inacessíveis...
Irreconhecíveis...
Decibéis infinitos soprados ao além
Vociferações mortas vistas por ninguém.
É a sala escura e o desespero plangente,
O momento triste de se virar gente
E deixar o mundo de Alice no lado escuro da Lua;
Hora de vagar, de ir enfim pra rua...
(E não conseguir
N'infinito porvir
D'incessante fracassar)
Não é o desespero, este
Ao contrário do que se possa ouvir
Não é o não-esperar.
Impregna nossa mente, uma peste
Com pensamentos desconexos:
Vermelhos, azuis, homicidas...
De fogo e substância ácida
Com inúmeros venenos anexos
Vontade de ferro, de vagar.
Vontade de apagar,
Apagar-se ao desespero,
Desespero é escuridão,
Obscura voz muda em vão
Que grita atroadora
E nada e ninguém toca...
É como um oboé quebrado
Em ver sos li vre s,
Que esganiça as notas
À aguda baforada de seu musicista
Não é o desespero, sua música
É a música sua conquista...
Mas o desespero recorrente
Senóide...
São palavras descontentes
Sentimentalóides...
Palavras não pertinentes
Implausíveis...
Impossíveis...
Inacessíveis...
Irreconhecíveis...
Decibéis infinitos soprados ao além
Vociferações mortas vistas por ninguém.
É a sala escura e o desespero plangente,
O momento triste de se virar gente
E deixar o mundo de Alice no lado escuro da Lua;
Hora de vagar, de ir enfim pra rua...
(E não conseguir
N'infinito porvir
D'incessante fracassar)
domingo, abril 06, 2008
Blasé
Biquinho pro lado,
Feições do vaso,
Vernizadas e maleáveis
Como papel almaço.
Tudo se fala,
Pouco se resvala,
Pouco revela.
Reticência armada,
Ares de cilada
Perseguem a cena
Filmada e, teoricamente,
Falada.
Não ter um porquê,
Ver a pomba no fio do poste,
Uma velha sem laquê
Apavorada com diversões
E porre leve de champanhe.
Blasé, saber para quê?
Espere outro anoitecer que vaporize os ares
E venha me dizer histórias, os lares
De quem fez muito,
Ou de quem se omitiu e foi inútil.
Beicinho pra frente,
Cara de quem entende
E o jeito idiota, de repente.
Feições do vaso,
Vernizadas e maleáveis
Como papel almaço.
Tudo se fala,
Pouco se resvala,
Pouco revela.
Reticência armada,
Ares de cilada
Perseguem a cena
Filmada e, teoricamente,
Falada.
Não ter um porquê,
Ver a pomba no fio do poste,
Uma velha sem laquê
Apavorada com diversões
E porre leve de champanhe.
Blasé, saber para quê?
Espere outro anoitecer que vaporize os ares
E venha me dizer histórias, os lares
De quem fez muito,
Ou de quem se omitiu e foi inútil.
Beicinho pra frente,
Cara de quem entende
E o jeito idiota, de repente.
Borboleta Amarela
És uma borboleta
Que apenas voa
Mas nunca passa
És em contraste linda
Na liberdade amarela
E na sombra voa
E na névoa passa
É de toda bela
Essa borboleta que voa
Mas nunca passa
Que apenas voa
Mas nunca passa
És em contraste linda
Na liberdade amarela
E na sombra voa
E na névoa passa
É de toda bela
Essa borboleta que voa
Mas nunca passa
sábado, março 29, 2008
Declarações de amor
É o velho duelo entre a prática e a teoria. Uns gostam de palavras melosas, canções de corno, canções sensíveis, transtornos emocionais, histeria, calmaria, correções pessoais, transfiguração, inversão de papeis e, principalmente, atuação. Outros preferem a falta de texto, as internas inexplicáveis, os silêncios intermináveis, os atos inacabáveis, preferem terminar, dar um tempo e voltar, ondulam como ondas, sussuram em conchas.
Aos práticos, digo que existe um texto. Não interessa se você não gosta de palavras, a letra nem precisaria existir para haver um texto. O código é o fundamento disso e a codificação se faz pela necessidade alheia de atenção. Há um observador e um curador, um arauto do seu segredo que, paradoxalmente, nunca o saberá por completo, seja seu amor ou seu leitor.
Aos teóricos, peço que provem o gosto da saliva, a sina dos amantes inconsoláveis. Não é nojento como falam, é combustível dos mais renováveis. É uma consumação de magia, uma religião da sacristia dos pagãos.
Aos práticos, digo que existe um texto. Não interessa se você não gosta de palavras, a letra nem precisaria existir para haver um texto. O código é o fundamento disso e a codificação se faz pela necessidade alheia de atenção. Há um observador e um curador, um arauto do seu segredo que, paradoxalmente, nunca o saberá por completo, seja seu amor ou seu leitor.
Aos teóricos, peço que provem o gosto da saliva, a sina dos amantes inconsoláveis. Não é nojento como falam, é combustível dos mais renováveis. É uma consumação de magia, uma religião da sacristia dos pagãos.
quinta-feira, março 27, 2008
Vida escolar
Alguns estudam e notam uma realidade que não esperam. Alguns estudam e se fecham em uma crosta, em um canto sem alma, em frios hábitos, com lábios frios e parede umedecida. Alguns estudam e se entusiasmam demais, falam demais, sorriem demais, são a demasia, sem negação e nem introversão. Alguns não estudam. Alguns jamais estudaram.
A escola de uns é uma etapa. E a etapa de outros é a escola de muitos.
A escola de uns é uma etapa. E a etapa de outros é a escola de muitos.
domingo, março 23, 2008
trecho 5.
Em uma parede escura
num castelo muito antigo
há uma pintura que deveria ter sido bela
porque as pessoas não param de olhar para ela
e sentar-se ao redor
para ouvir histórias
essa pintura está muito feia
gasta pelo tempo
muito velha
a minha mãe não iria deixar que eu a trouxesse pra pendurar em casa
o artista pintou um Cristo
de braços estendidos
todo espasmos
sofrendo o martírio mais cruel da época
A dor era grande, mas Cristo sorria
e contava muitas histórias para quem chegava ali
alguns adormeciam embalados no torpor
e outros escutavam vidrados - ou desconfiados
e enquanto eu ouvia
via vultos arrastando-se como traças
ao redor do corpo de Cristo na parede escura
ladeado por seus pobres apóstolos feitos de pastel
e sua mãe que pranteava inconsolada com a perda
a angústia eternizada em seu rosto lacrimoso
exultantemente devorado por um verme
que encontrou uma iguaria excepcional
que mistério doloroso na história sobre a cruz!
os buracos, segundo me disseram
deixaram de ser furos há séculos
são grosseiros rombos sem remendos.
eu visitei o quadro na parede escura
querendo afastar uma dúvida
que sufocava meu coração
e Cristo disse-me assim:
-volto em 3 dias, qualquer coisa deixe seu recado com Maria Madalena.
Aí fiquei puto da vida. Respondi assim:
olha, Sr. Cristo, eu prefiro que o senhor volte com uma história melhor...
Feliz Páscoa pra vcs :D
num castelo muito antigo
há uma pintura que deveria ter sido bela
porque as pessoas não param de olhar para ela
e sentar-se ao redor
para ouvir histórias
essa pintura está muito feia
gasta pelo tempo
muito velha
a minha mãe não iria deixar que eu a trouxesse pra pendurar em casa
o artista pintou um Cristo
de braços estendidos
todo espasmos
sofrendo o martírio mais cruel da época
A dor era grande, mas Cristo sorria
e contava muitas histórias para quem chegava ali
alguns adormeciam embalados no torpor
e outros escutavam vidrados - ou desconfiados
e enquanto eu ouvia
via vultos arrastando-se como traças
ao redor do corpo de Cristo na parede escura
ladeado por seus pobres apóstolos feitos de pastel
e sua mãe que pranteava inconsolada com a perda
a angústia eternizada em seu rosto lacrimoso
exultantemente devorado por um verme
que encontrou uma iguaria excepcional
que mistério doloroso na história sobre a cruz!
os buracos, segundo me disseram
deixaram de ser furos há séculos
são grosseiros rombos sem remendos.
eu visitei o quadro na parede escura
querendo afastar uma dúvida
que sufocava meu coração
e Cristo disse-me assim:
-volto em 3 dias, qualquer coisa deixe seu recado com Maria Madalena.
Aí fiquei puto da vida. Respondi assim:
olha, Sr. Cristo, eu prefiro que o senhor volte com uma história melhor...
Feliz Páscoa pra vcs :D
sexta-feira, março 21, 2008
Somente esta
De mil palavras pensadas,
do grande mar de espinhos,
como ondas que vão e voltam;
como o retorno do mar
que prenuncia a tsunami.
Os versos ferem meu dia
que fica assim, todo
difuso. Ferem no ônibus,
ferem numa conversa,
numa caminhada, numa leitura.
E tudo se esvai, some.
Desaparece no mar infindo
das palavras de um
poeta, que não pode a
todas contemplar e atender.
Borboletas e pássaros
pedem a voz em
linhas estreitas.
E voam expulsos
pelo exagerado tempo.
Que esperem as vis
palavras, diante das
eternas idéias! Pois
em linhas tão estreitas,
somente esta entrou.
do grande mar de espinhos,
como ondas que vão e voltam;
como o retorno do mar
que prenuncia a tsunami.
Os versos ferem meu dia
que fica assim, todo
difuso. Ferem no ônibus,
ferem numa conversa,
numa caminhada, numa leitura.
E tudo se esvai, some.
Desaparece no mar infindo
das palavras de um
poeta, que não pode a
todas contemplar e atender.
Borboletas e pássaros
pedem a voz em
linhas estreitas.
E voam expulsos
pelo exagerado tempo.
Que esperem as vis
palavras, diante das
eternas idéias! Pois
em linhas tão estreitas,
somente esta entrou.
domingo, março 16, 2008
Olhares atentos para o mundo que transborda de si
No livro que mandou a mim, o poeta e cronista Rubens da Cunha agradeceu minhas leituras sempre atentas para seus olhares sobre o mundo. Olhares tão bem registrados pelas palavras. Retratos da consciência, que em seus escritos Rubens demonstra ter, de ser um sujeito imerso numa realidade mundano-social aprisionadora do próprio ser humano, da qual tenta ao máximo extrair algo que o alimente, que se junte aos alimentos diários da leitura e da escrita, ou que sirva de alimento para um desses dois “vícios” que apresenta ter. O escritor de Aço e Nada, livro recém lançado pela Design Editora, é um sujeito dividido em diversos modos de ser/pensar/agir, presentes em diferentes crônicas-quase-contos do livro, que se complementam num só.
Após dois livros de poesia publicados, Campo Avesso (2001, Letra d´água) e Casa de paragens (2006, Editora da UFSC), o escritor de Joinville (SC) divulgou sua produção em outro gênero literário, o da crônica, e lançou um livro com algumas das que escreveu entre fevereiro de 2004 e março de 2007 para o caderno Anexo, do jornal A Notícia, onde publica todas as quartas-feiras.
Para mim, e creio que para muitos outros leitores, são releituras a se fazer das crônicas presentes no livro. Ora mais densas, ora mais suaves, ora críticas ora não, ora mais poéticas ora mais objetivas em determinados assuntos, ora também quase-contos, transbordando sensibilidade e poesia, as crônicas foram separadas no livro em quatro diferentes partes, com as últimas crônicas de cada parte dando nome à mesma correspondente: Os animais dentro, Olho vigiador, O corpo da gratidão, O morador das palavras, que bem estariam encaixadas se não houvesse divisão, uma vez que a escrita em si do autor apresenta um traço muito bem caracterizado, sendo possível reconhecê-la à distância, encontrá-la, por exemplo, nos poemas-aço que formam sua Casa de paragens: nos cômodos da sua casa-corpo, nos mínimos detalhes da natureza, e nos animais-moradores-de-seu-corpo: na dor corpórea da alma; na fragilidade de ser humano.
Um olhar sempre constante nas crônicas do livro (e também nos poemas do Casa) dirige-se aos animais. Estão eles dentro do escritor Rubens, ao redor, nos olhares, nos sonhos, na memória. As crônicas de Os animais dentro trazem um pouco dessa relação, assim como duas outras crônicas, localizadas em outros compartimentos do livro, como a crônica “Antologia”, presente junto às crônicas de O morador de palavras, na qual Rubens afirma serem os animais “poemas de Deus”, e os compara brilhantemente a diferentes formas de poemas: a borboleta é o hai-kai, “mínimo e preciso”; o cavalo é o soneto, “a elegância poética”; o tigre, poema perfeito, sendo “Um tigre preso num zoológico, ou circo qualquer, o poema de arrependimento de Deus por ter escrito o homem”.
Também, a crônica “Os observadores”, localizada junto às crônicas em O corpo da gratidão, em que o cronista afirma falar muito dos animais em seus textos: “são imagens recorrentes, já que ainda não descobri elementos mais poético na natureza e mais propício às buscas metafóricas que pratico”.
Ainda, nas crônicas de Os animais dentro pode-se encantar com outros modos de ser animal, com o ser humano e suas formas de pensar, sentir e agir. O encantamento que se tem com Miguel, o menino que fugiu com o vento; com a solidão, abandonada em um sapato qualquer estirado sobre o asfalto; com o retrato descrito do Rubens que se era e do Rubens que se é, pouco diferente por fora, corroído pelo tempo-humano por dentro, um homem do seu tempo, mas carregando uma alma ancestral ao caos moderno; com a mulher que se salga por dentro para se libertar e com a que goza ao cheirar as pedras que separam as praias de Itaguaçu e Ubatuba; com a mulher-fortaleza derrubada pela paixão; com o menino envolvido em seu universo, “um barranco cheio de buracos mais argila”; com o cão no ponto de ônibus, perturbando a rotina do homem; e com Dona Ernestina, a poeta que “não cresceu e por isso ficou maior que tudo”, a poeta que sopra hai-kai como “por entre as nuvens, o sol caiu no lago, saiu molhado”
Nas crônicas de Olho vigiador, Rubens da Cunha apresenta seus olhares “adestrados na busca de pequenos absurdos humanos”. Olhares atentos para os habitantes e para a sua, até o momento, casa de paragem, cidade na qual nasceu e em que vive. Os chapas, “fantasmas diurnos”, uma vendedora de cocadas, com “a fome atravessada nos olhos”, o malabarista, que “finge o tropeço, finge o riso, finge o agradecimento”, o jovem que “quer trocar 1 Real por duas canetas”, os “indiferentes na indiferença urbana”: “Há neles agonias impossíveis às palavras”.
Pela cidade também que o Rubens cronista busca o assunto para suas crônicas semanais. Nas manhãs de domingo, em que “tudo que é normal dorme, tudo que é banal está fechado”, nas pessoas por quem passa, nas vozes e meias-conversas que ouve, ficando sempre “um pouco mais repleto de fascínio que a cidade lhe oferece. Seja nas imagens, seja na fala anônima de sua gente. (...) que revelam instantes vastos de poesia, ainda o melhor antídoto contra a cegueira medíocre que nos atinge a vida continuamente”.
O corpo da gratidão qual será? Um lobo em dia de caça, o domingo de visita dos netos, o sorriso, os transplantes, um rio despoluído? A gratidão é a mãe, é a noite, é um poço de contrários, “é uma inutilidade feita apenas para agüentar o peso do mundo: um poema perdido entre os cadernos; flores nas beirais das casas; fotografias”.
As crônicas que formam esse corpo da gratidão revelam ainda mais disso que ela é para o cronista. A natureza, recoberta de poesia, que, “sem avisar, põe sobre a cidade um lençol branco”; o vento, “Espada solar”, aquele que “veste de umidade a carne urbana”, que “Nas madrugadas volta, amante sorrateiro”, e então é possível ouvir as palmeiras gozando novamente; os eclipses e arco-íris, “choques de loucura, (...) retornos, lembranças que acontecem para nos animalizar de novo”; o olhar atento do pai para o filho recém-nascido, ainda frágil para a ação do verbo viver; a revolução da delicadeza, mesmo sendo “bem mais fácil matar alguém toda manhã do que descrescer”.
A gratidão também moldada pelo fluxo inexorável da vida cotidiana passando por cima do tempo e do espaço, de amizades antes fortalecidas; pelas “pequenas desafinações no ritmo monótono da vida”, os inusitados presentes no dia-a-dia, como um beija-flor entrando numa sala por engano, um poema anônimo dentro de um livro, um pensar em alguém e esbarrar com esse alguém na próxima esquina; pela conjunção “se”, “Palavra-abismo”, reveladora da eterna condição de metade do ser humano; pelo tempo (cabeça-passado, tronco-presente e membros-futuro); pelo sentir que animaliza o humano; pela contradição, a “máquina raio-x da vida, que diz aquilo que somos, que nos humaniza pela fragilidade”.
As últimas crônicas do livro, morando no capítulo O morador de palavras, são as que melhor retratam a relação do poeta e cronista Rubens da Cunha com aquela que é sua ferramenta de trabalho, senão diária, quase que isso: a palavra, e as ramificações que ela faz existir: a língua, a leitura, a escrita.
Presentes nas últimas crônicas encontram-se reflexões sobre a língua portuguesa, a qual, segundo Rubens, é no erro que se torna poesia: “puta de esquina, freira de claustro, mulher amarga e doce, barroca lavadeira esfregando-se mundo afora”; sobre a poesia, para o autor tão parecida com o bambu, este também “pouso de pássaros, criadouro de sombras, paragem do vento”, a poesia também mãe deste filho poeta e cronista, que mais do que tudo deseja ardentemente sempre “Sentar naquele sofá-estrofe no canto da página. Beber um verso-café feito na hora e nada ouvir além da chuva teimosa compondo um outono frágil”; sobre o analfabetismo que carrega dentro de si, o musical, restando a ele apenas metaforizar músicas e instrumentos, sendo Beethoven, por exemplo, um rio de águas negras, e uma orquestra sinfônica uma tempestade às seis horas da manhã; e sobre a leitura, esta abortada pela velocidade cotidiana, e o ato de ler, a ação de “vencer o medo de afogar-se e nadar onde não encostamos os pés no chão. (...) Ler é doar-se em solidariedade consigo mesmo. Ler é difícil”.
Nas últimas crônicas também é apresentado ao leitor o Rubens da Cunha escritor. O morador da palavra exílio (ou seria apenas mais um dos personagens marcantes no livro?). O escritor por prazer, por sentir o sangue correr em seus abismos, pela águia, fazedora de poemas, quando voa, melhores que os seus. Escritor “para que a alma retorne ao corpo”. Pela dor: “O papel me dá seus ouvidos e demais buracos gratuitamente. O papel é uma prostituta apaixonada. Escrevo para gozar e porque tenho bom vocabulário”. Pelo poder de ser escritor, pelas máscaras que colocam sob os escritores. “Por aquilo que não explico quando olham para meu texto e dizem que eu escrevo difícil. Escrevo porque é fácil ser difícil. A simplicidade é para os gênios. Eu não sou gênio. Sou mais um cego teimoso”. Escritor por maldade, por instinto, por covardia, por alegria, “por estar preso nesse cárcere e porque aprendi a mentir desde cedo”.
Bom se existissem mais mentirosos assim.
__________________________________________________________
Resenha publicada na edição de março da revista virtual de literatura e arte, GerminaLiteratura.
Í.ta**
Após dois livros de poesia publicados, Campo Avesso (2001, Letra d´água) e Casa de paragens (2006, Editora da UFSC), o escritor de Joinville (SC) divulgou sua produção em outro gênero literário, o da crônica, e lançou um livro com algumas das que escreveu entre fevereiro de 2004 e março de 2007 para o caderno Anexo, do jornal A Notícia, onde publica todas as quartas-feiras.
Para mim, e creio que para muitos outros leitores, são releituras a se fazer das crônicas presentes no livro. Ora mais densas, ora mais suaves, ora críticas ora não, ora mais poéticas ora mais objetivas em determinados assuntos, ora também quase-contos, transbordando sensibilidade e poesia, as crônicas foram separadas no livro em quatro diferentes partes, com as últimas crônicas de cada parte dando nome à mesma correspondente: Os animais dentro, Olho vigiador, O corpo da gratidão, O morador das palavras, que bem estariam encaixadas se não houvesse divisão, uma vez que a escrita em si do autor apresenta um traço muito bem caracterizado, sendo possível reconhecê-la à distância, encontrá-la, por exemplo, nos poemas-aço que formam sua Casa de paragens: nos cômodos da sua casa-corpo, nos mínimos detalhes da natureza, e nos animais-moradores-de-seu-corpo: na dor corpórea da alma; na fragilidade de ser humano.
Um olhar sempre constante nas crônicas do livro (e também nos poemas do Casa) dirige-se aos animais. Estão eles dentro do escritor Rubens, ao redor, nos olhares, nos sonhos, na memória. As crônicas de Os animais dentro trazem um pouco dessa relação, assim como duas outras crônicas, localizadas em outros compartimentos do livro, como a crônica “Antologia”, presente junto às crônicas de O morador de palavras, na qual Rubens afirma serem os animais “poemas de Deus”, e os compara brilhantemente a diferentes formas de poemas: a borboleta é o hai-kai, “mínimo e preciso”; o cavalo é o soneto, “a elegância poética”; o tigre, poema perfeito, sendo “Um tigre preso num zoológico, ou circo qualquer, o poema de arrependimento de Deus por ter escrito o homem”.
Também, a crônica “Os observadores”, localizada junto às crônicas em O corpo da gratidão, em que o cronista afirma falar muito dos animais em seus textos: “são imagens recorrentes, já que ainda não descobri elementos mais poético na natureza e mais propício às buscas metafóricas que pratico”.
Ainda, nas crônicas de Os animais dentro pode-se encantar com outros modos de ser animal, com o ser humano e suas formas de pensar, sentir e agir. O encantamento que se tem com Miguel, o menino que fugiu com o vento; com a solidão, abandonada em um sapato qualquer estirado sobre o asfalto; com o retrato descrito do Rubens que se era e do Rubens que se é, pouco diferente por fora, corroído pelo tempo-humano por dentro, um homem do seu tempo, mas carregando uma alma ancestral ao caos moderno; com a mulher que se salga por dentro para se libertar e com a que goza ao cheirar as pedras que separam as praias de Itaguaçu e Ubatuba; com a mulher-fortaleza derrubada pela paixão; com o menino envolvido em seu universo, “um barranco cheio de buracos mais argila”; com o cão no ponto de ônibus, perturbando a rotina do homem; e com Dona Ernestina, a poeta que “não cresceu e por isso ficou maior que tudo”, a poeta que sopra hai-kai como “por entre as nuvens, o sol caiu no lago, saiu molhado”
Nas crônicas de Olho vigiador, Rubens da Cunha apresenta seus olhares “adestrados na busca de pequenos absurdos humanos”. Olhares atentos para os habitantes e para a sua, até o momento, casa de paragem, cidade na qual nasceu e em que vive. Os chapas, “fantasmas diurnos”, uma vendedora de cocadas, com “a fome atravessada nos olhos”, o malabarista, que “finge o tropeço, finge o riso, finge o agradecimento”, o jovem que “quer trocar 1 Real por duas canetas”, os “indiferentes na indiferença urbana”: “Há neles agonias impossíveis às palavras”.
Pela cidade também que o Rubens cronista busca o assunto para suas crônicas semanais. Nas manhãs de domingo, em que “tudo que é normal dorme, tudo que é banal está fechado”, nas pessoas por quem passa, nas vozes e meias-conversas que ouve, ficando sempre “um pouco mais repleto de fascínio que a cidade lhe oferece. Seja nas imagens, seja na fala anônima de sua gente. (...) que revelam instantes vastos de poesia, ainda o melhor antídoto contra a cegueira medíocre que nos atinge a vida continuamente”.
O corpo da gratidão qual será? Um lobo em dia de caça, o domingo de visita dos netos, o sorriso, os transplantes, um rio despoluído? A gratidão é a mãe, é a noite, é um poço de contrários, “é uma inutilidade feita apenas para agüentar o peso do mundo: um poema perdido entre os cadernos; flores nas beirais das casas; fotografias”.
As crônicas que formam esse corpo da gratidão revelam ainda mais disso que ela é para o cronista. A natureza, recoberta de poesia, que, “sem avisar, põe sobre a cidade um lençol branco”; o vento, “Espada solar”, aquele que “veste de umidade a carne urbana”, que “Nas madrugadas volta, amante sorrateiro”, e então é possível ouvir as palmeiras gozando novamente; os eclipses e arco-íris, “choques de loucura, (...) retornos, lembranças que acontecem para nos animalizar de novo”; o olhar atento do pai para o filho recém-nascido, ainda frágil para a ação do verbo viver; a revolução da delicadeza, mesmo sendo “bem mais fácil matar alguém toda manhã do que descrescer”.
A gratidão também moldada pelo fluxo inexorável da vida cotidiana passando por cima do tempo e do espaço, de amizades antes fortalecidas; pelas “pequenas desafinações no ritmo monótono da vida”, os inusitados presentes no dia-a-dia, como um beija-flor entrando numa sala por engano, um poema anônimo dentro de um livro, um pensar em alguém e esbarrar com esse alguém na próxima esquina; pela conjunção “se”, “Palavra-abismo”, reveladora da eterna condição de metade do ser humano; pelo tempo (cabeça-passado, tronco-presente e membros-futuro); pelo sentir que animaliza o humano; pela contradição, a “máquina raio-x da vida, que diz aquilo que somos, que nos humaniza pela fragilidade”.
As últimas crônicas do livro, morando no capítulo O morador de palavras, são as que melhor retratam a relação do poeta e cronista Rubens da Cunha com aquela que é sua ferramenta de trabalho, senão diária, quase que isso: a palavra, e as ramificações que ela faz existir: a língua, a leitura, a escrita.
Presentes nas últimas crônicas encontram-se reflexões sobre a língua portuguesa, a qual, segundo Rubens, é no erro que se torna poesia: “puta de esquina, freira de claustro, mulher amarga e doce, barroca lavadeira esfregando-se mundo afora”; sobre a poesia, para o autor tão parecida com o bambu, este também “pouso de pássaros, criadouro de sombras, paragem do vento”, a poesia também mãe deste filho poeta e cronista, que mais do que tudo deseja ardentemente sempre “Sentar naquele sofá-estrofe no canto da página. Beber um verso-café feito na hora e nada ouvir além da chuva teimosa compondo um outono frágil”; sobre o analfabetismo que carrega dentro de si, o musical, restando a ele apenas metaforizar músicas e instrumentos, sendo Beethoven, por exemplo, um rio de águas negras, e uma orquestra sinfônica uma tempestade às seis horas da manhã; e sobre a leitura, esta abortada pela velocidade cotidiana, e o ato de ler, a ação de “vencer o medo de afogar-se e nadar onde não encostamos os pés no chão. (...) Ler é doar-se em solidariedade consigo mesmo. Ler é difícil”.
Nas últimas crônicas também é apresentado ao leitor o Rubens da Cunha escritor. O morador da palavra exílio (ou seria apenas mais um dos personagens marcantes no livro?). O escritor por prazer, por sentir o sangue correr em seus abismos, pela águia, fazedora de poemas, quando voa, melhores que os seus. Escritor “para que a alma retorne ao corpo”. Pela dor: “O papel me dá seus ouvidos e demais buracos gratuitamente. O papel é uma prostituta apaixonada. Escrevo para gozar e porque tenho bom vocabulário”. Pelo poder de ser escritor, pelas máscaras que colocam sob os escritores. “Por aquilo que não explico quando olham para meu texto e dizem que eu escrevo difícil. Escrevo porque é fácil ser difícil. A simplicidade é para os gênios. Eu não sou gênio. Sou mais um cego teimoso”. Escritor por maldade, por instinto, por covardia, por alegria, “por estar preso nesse cárcere e porque aprendi a mentir desde cedo”.
Bom se existissem mais mentirosos assim.
__________________________________________________________
Resenha publicada na edição de março da revista virtual de literatura e arte, GerminaLiteratura.
Í.ta**
quinta-feira, março 13, 2008
A se dizer
Não há nada a se dizer no momento
Nada a proferir a auto-contento
Só resta apenas o vazio silêncio.
Silêncio duma mente que não pensa
Mente que à vida é inreativa
Alma que vagueia ao mundo passiva.
Mente entrecortada por pensamentos
Corpo paralizado na indolência
Mente que com o corpo é ausência
Corpo que à mente é aborrecimento.
Substantiva e substancial
Matéria que com a mente constitui
A essência que em alma se dilui
Com'átomos em vazio espacial
Mente e corpo nada são afinal...
Nada a proferir a auto-contento
Só resta apenas o vazio silêncio.
Silêncio duma mente que não pensa
Mente que à vida é inreativa
Alma que vagueia ao mundo passiva.
Mente entrecortada por pensamentos
Corpo paralizado na indolência
Mente que com o corpo é ausência
Corpo que à mente é aborrecimento.
Substantiva e substancial
Matéria que com a mente constitui
A essência que em alma se dilui
Com'átomos em vazio espacial
Mente e corpo nada são afinal...
sábado, março 01, 2008
É pau, é pedra, é começo...
Dizia Tom, sem nenhum tom,
O Jobim no piano, no soprano
Que dedilhava no violão,
Que eram águas de março
Fechando o verão,
A promessa de vida
No teu coração,
A música, a melodia,
A cantiga da minha
Solidão.
Era pau, era pedra, era começo
Do toco queimado, do pescoço
Degolado.
É pau, é pedra, é Elis cantando
MPB, é rapaz sambando
A cultura brasileira, a conversinha mineira,
Os miseráveis nordestinos, o papagaio altivo.
É pau, é releitura da pedra
Da cultura brasileira, que agride
A selva interna, a relva que espera
A onça estrangeira.
As águas na estação
Sujas pela poluição,
É a promessa política
Do Brasil sem perdão.
Obrigado Tom Jobim pela composição que inspirou essa poesia, totalmente.
Essa é a realidade bizarra que vivemos (...).
O Jobim no piano, no soprano
Que dedilhava no violão,
Que eram águas de março
Fechando o verão,
A promessa de vida
No teu coração,
A música, a melodia,
A cantiga da minha
Solidão.
Era pau, era pedra, era começo
Do toco queimado, do pescoço
Degolado.
É pau, é pedra, é Elis cantando
MPB, é rapaz sambando
A cultura brasileira, a conversinha mineira,
Os miseráveis nordestinos, o papagaio altivo.
É pau, é releitura da pedra
Da cultura brasileira, que agride
A selva interna, a relva que espera
A onça estrangeira.
As águas na estação
Sujas pela poluição,
É a promessa política
Do Brasil sem perdão.
Obrigado Tom Jobim pela composição que inspirou essa poesia, totalmente.
Essa é a realidade bizarra que vivemos (...).
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
pré-carta de amor engasgada
Sempre que desligo o telefone, me vem a melancolia, aquela que me estampa na cabeça que você não está aqui e me faz inventar diálogos e declarações de amor que eu deveria ter dito mas não disse e nunca digo.
Só, vou fumar na janela, sugando a fumaça como se sua língua, confundindo a vertigem do fumo com a que você me traz. Depois passo a boca pelo meu braço direito, quase na altura do ombro, até acabar mordendo-o, de fúria de ser só braço.
Por que não digo e me acabo na invençao?
Talvez o medo da realidade, perdível, me faça inventar um você indelével.
Desculpe, eu não sei ser romântica a não ser pra mim. Certas palavras não existem para ser ditas. Guardo-as, com medo de quebrar essa regra autoimposta. Certas palavras são como nossas duas pernas juntas: sem anúncios, sem saber como, existem na sensação, debaixo de um lençol.
Só, vou fumar na janela, sugando a fumaça como se sua língua, confundindo a vertigem do fumo com a que você me traz. Depois passo a boca pelo meu braço direito, quase na altura do ombro, até acabar mordendo-o, de fúria de ser só braço.
Por que não digo e me acabo na invençao?
Talvez o medo da realidade, perdível, me faça inventar um você indelével.
Desculpe, eu não sei ser romântica a não ser pra mim. Certas palavras não existem para ser ditas. Guardo-as, com medo de quebrar essa regra autoimposta. Certas palavras são como nossas duas pernas juntas: sem anúncios, sem saber como, existem na sensação, debaixo de um lençol.
domingo, fevereiro 24, 2008
Procura-se um Coração
Estou em busca.
Meu coração dourado, onde o perdi?
está camuflado entre vincos na testa,
ou como lêndea grudada num fio de cabelo branco?
(que insistem em aparecer aqui e ali)
Desde aquela meia-noite,
foi-se, para não voltar mais
foi-se, distanciando dos propósitos mesquinhos
que entupiam seus áureos ventrículos
e átrios.
a preciosidade que pulsava sob o crepúsculo
deixei largada no jardim, em meio aos brinquedos
que minha mãe pediu para eu guardar
antes do anoitecer (e que até então esqueci)
vejo o tempo passar
e tudo o que deixo acontecer
é o silêncio ecoar nesta pedra
engastada em meu peito
(mãe, já vou guardar os brinquedos)
Assinar:
Postagens (Atom)