sábado, julho 25, 2009
Cruzada Libertadora
Arrependimento de informação errada,
Contentamento na carteira, na anotação amassada,
Carteira vazia no emprego, desespero da falta de mesada.
Abandono das faculdades,
Dos mestres e das felicidades
Fantasiadas, vestidos
E disfarces.
Quero cortar a barba do professor,
Raspar sua autoridade, seu caráter opressor,
Esmagar seu livro, seu nariz franzino,
Sumir com sua lousa, com o quadro
Que será quebrado
Em meu punho.
Quero acabar com a escola,
Depois cuspir no emprego,
Quero acabar com a escolha
E punir a frustração, evitar
Que ela me encolha.
E sou como uma bomba sem direção,
Uma rolha de uma garrafa, acertada
Por suas bolhas internas, ração
Da minha revolta, reação.
quarta-feira, julho 22, 2009
Pequenez
Que me sustenta,
Remenda
Os meus olhares de ausência,
Aumenta
Meu tato em teu corpo,
Nos teus passos.
Não é miúda, não é migalha,
É apenas pequena, uma concentração
Imensa em um ponto, suspensa.
Pequena
Que me alimenta
E cativa,
Pequeno
E grande sentimento.
segunda-feira, julho 20, 2009
Poema Torto
preferem fazer que é torto
fora do quadrado
Não foi isto que lhe pedi
Não coloque isso ali
este não é o seu lugar
Não faz isso assim
Não me olhe assim!
Nascer torto das idéias
Para ensinar o que é reto
Aos frágeis de esquadro
segunda-feira, julho 06, 2009
o leitor

O leitor é não só uma história de amor, ou mais um ponto de vista sobre o extermínio de judeus. É, também, mais uma possibilidade de sentir os alcances da literatura: o quanto ela pode ressignificar vidas e estabelecer elos duradores. É como afirmou Pennac: a virtude paradoxal da leitura é a de nos abstrair do mundo para nele encontrarmos algum sentido.
Sinuca de bico
Não irei para Valhalla,
Se eu não acreditar em Zeus,
Irei da mesma forma para o mundo subterrâneo,
Se eu não acreditar em Júpiter,
Terei o mesmo destino de cima,
Se eu não acreditar em Alah,
Não terei minhas 50 concubinas virgens,
Se eu não acreditar em Krishna,
Não atingirei o Nirvana,
Se eu não acreditar em Buddha,
Não alcançarei a iluminação,
Se eu não acreditar em Mitra,
Talvez aconteça algo ruim,
Se eu não acreditar em Baal,
Vou mal nas guerras,
Se eu não acreditar em Jeová,
Vou arder no inferno,
Se eu não acreditar em Deus,
Não vou para o Paraíso...
São justos esses deuses medíocres?
domingo, julho 05, 2009
O despertar do poder supremo
engastado nas entranhas
mais viscerais do senhor doutor
martela-se o pé, quebram os estribos;
arremessa-se a bigorna contra os detritos
livra-me disso por escrito
dê-me a única razão que não se abala
circunscreva todas as circunstâncias não circunscritas
e sobreviva à relação mais duradoura com seu empecilho favorito
é um mero atrito, mas que por desserviço achou melhor não se fazer de mito
um atrevimento só poderia ter lhe custado mais que a cabeça;
donde há de vir rolar mais do que idéias soltas
mais do que o sangue carmesim que flui
um deus de nanquim, plúmbeo
registrado, para sempre
neste blogado
terça-feira, junho 30, 2009
Fera-Eu
Desejou a liberdade
Estraçalhou a realidade
Uma fera quer ser liberta
E os ouvidos afiam suas garras
O espelho cresce conforme o admiramos
A realidade mostra-se hostil diante do desejo
Estraçalha o espelho, e tudo vem à tona
O desejo é podado, as mãos se cortam
Estanca-se o ferimento
Lava-se as mãos
Procura-se outro espelho
segunda-feira, junho 29, 2009
narcirexia 2
não enxerga além? Mais do que seus vibrantes olhos
inescrutáveis
mas ousam sonhar, perscrutadores..."
Quem é
O garboso jovem do sorriso doce
aparência tenra, beleza ímpar
um dia, beirando um lago
viu-se refletido
no espelho de águas
e curioso, procurava o irreconhecível
provando do seu mais malvado, irônico
destrutivo e corrompido
contempla o rosto, descontente
buscando o ser mais desumano
impassível, cruel-homem
o inimigo e irmão discreto
esquecido, passou tempos espreitando
uma fraqueza, criança tola
detém a força, recaída
e porventura mostra-se dócil e insolente
recalcado - gêmeo por natureza e separados por narciso
ao se atirar nos braços de eco
bem vindos à percepção irreal da persistencia
de uma subjetividade perversa
maligna até o osso
inconseqüente de raiz
Os dois jovens encaravam-se
mediam forças
tête-a-tete, de olhos injetados
disparando falácias que incidiam em ângulos incongruentes
centralizando mil sotaques de idiomas diferentes
sem conseguir pôr de lado um abraço
o bendit frut de vos ventre, do mágico
e da branca de neve.
quarta-feira, junho 24, 2009
Narcirexia
mira de lado
qual será o certo
e qual é o errado
a vida pelo retrato
dizer quem é
sem ao menos saber
se espelhar na dor
vira de lado
vira em cima
diga quem ser
sem demora
porque vaidade
não tem hora
sexta-feira, junho 19, 2009
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

sábado, junho 06, 2009
mulher [- reloaded]
vontade, muita vontade
desejos incontroláveis que não são entendidos
um sexto sentido que não se pode ignorar, mas que às vezes falha
um temor incontrolável pelo bem estar de aluguém que está muito longe
[e que talvez outros o teriam esquecido]
eterna sensação de que há algo de errado
eventual sensação de quem mais te ama, não te ama
costumeira sensação de que ninguém te ama
sensação de que o chocolate te ama
impressão de que há algo sobrando, e não é um filho
rara sensação de que há algo à mais, e é um filho
impressão de que não se sabe onde está, quando se sabe
domingo, maio 31, 2009
Mulher
Um corpo em curvas, feições, tato e luvas.
Dois olhos focados, uma boca delimitada,
Sensivel ao toque, desenhada,
Mas não é boneca de diversão,
É ação, é reflexão.
Mulher, mulher que é distinta
Talvez pela história terrível, a sina machista,
Mulher que, com corpo estético,
Não se difere do macho herético.
Mulher é igual ao homem,
Mulher é como o homem,
Mulher come o homem,
O homem não come a mulher,
Porque só quer as coisas
De colher.
quinta-feira, maio 28, 2009
memórias de leitura

São relatos, impressões, e opiniões que, para um leitor-em-formação-amante-de-livros, meu caso, fazem crescer ainda mais a vontade de estar rodeado por livros e por objetos de leitura. São relatos que inspiram a novos escritos, a descrições de momentos de leitura, como este. Cada livro merece um dizer, falando bem ou não. Cada livro merece o seu silêncio pós-leitura, um tempo para digerir o que acabou de se mastigar, e um registro, por menor que seja, incorporando-o, de fato, a si.
Não me vejo herdando alguma biblioteca, e sim construindo uma própria. Com livros bem selecionados, que me tocam de alguma forma, sem preocupações com classificações ou vendagens de revistas semanais ou semanários culturais. A construção de um leitor se dá pelo saber escolher o que ler. "Herdando uma biblioteca", para mim, foi uma boa escolha, sem dúvida.
terça-feira, maio 19, 2009
Prolixo
Das letras, do nicho
Das cabeças, da confusa
Maneira de compôr.
Uso meus dentritos
Em uma reciclagem, edição
Dos meus escritos.
terça-feira, maio 12, 2009
Anatomia
aqueles que aprendem morte.
Vista-se de conhecimento,
o corpo frio e vivo.
Quantas lágrimas correram
veias e artérias diversas!
Quantas emoções transcenderam
músculos e tendões endurecidos!
Olhos vidrados no infinito,
que haveria mais além:
morte viva, ou vida morta?
A Anatomia vive em
corações diversos...digo
doutores, doutores da morte.
segunda-feira, maio 11, 2009
Ofuscada
virou o rosto
muito apressada
subiu à sala
esbocei um
"seja sensata"
som de poesia
mal sussurrada
uma vez excitada
cuspiu na cruz
pensa nas luzes
..esquece a ribalta
terça-feira, maio 05, 2009
Writers no TOP BLOGS
Saindo um pouco dos versos e das rimas...Criado pela MIX Mídia Digital, o concurso TOP BLOGS vai eleger o melhor blog em várias categorias - Celebridades, Cultura, Comunicação, Esportes, Games, Humor, Música, Política, Saúde, Sustentabilidade, Tecnologia e Variedades.
Mais detalhes sobre o TOP BLOGS, aqui.
segunda-feira, abril 13, 2009
Meu canto
Não tenho grandes valores para exaltar,
Vivo numa época de desesperar,
Ensaio um desperar, invento um renovar.
Não tenho grandes viagens para contar,
Só tenho um punhado de livros, meus olhos
E minha terra, meus cantos,
Minha fala em prantos.
domingo, abril 12, 2009
Jazz
Invento um verso, rimo com outro,
Teço grupos, estruturo os conjuntos,
Uso repertório, repito o repetido,
Uso obra de outro, destruo meu espírito.
Não espero nada das palavras,
Não espero nada das lavradas
Obras de meu destino,
Espero uma base, um tino
De fina arte, e crio
Idéias.
Poesias são idéias,
Não declarações de amor,
Nem fontes de odor,
São conceitos flutuantes,
Ululantes, pulsantes,
São momentos e intervalos,
Incessantes.
segunda-feira, abril 06, 2009
A solução para São Paulo
Mesmo sem verbalizar.
(Entenda ônibus como qualquer lugar.
Falar ao ônibus é como falar ao mundo,
exigindo coragem, ousadia e até uma
certa falta de noção, que é saudável)
quarta-feira, abril 01, 2009
P.A.Z
Parada Administrativa e Zunida
Pára o Auditivo Zelote.
Para Alguém Zelar
É Preciso Alertar o Zé.
Minhas iniciais brincam no fim e um pouco antes dele.
Não é? Pedro Zambarda de Araújo?
quinta-feira, março 26, 2009
Frenético
Amigo, patente do meu ascendente
Artístico, rente a irreverente
Loucura do místico, inteligente.
Dedicado a Guilherme Prestes Mendes, que completa 21 anos hoje.
sexta-feira, março 13, 2009
Uma existência presa
no plano do absurdo
sedenta por mundos
sou algo que vaga
no campo do inimaginável
imaginar-me, moldar-me
despido de probidade
é digno de pena
desconfortável
quando escondi
a dor da alma gêmea
existe livre arbítrio
ou é conversa das estrelas
sou preso por estar ciente
por quanto tempo
não consente
esta lógica
incoerente
e mais,
esta coleira
é de puro couro
do mais fino curtume
entre os dejetos dos firmamentos
exibo as algemas
não machucam as mãos, mas
os vislumbres do inconsciente
prendem-me a este mundo leviano
sou uma alma
acorrentada e torturada
subjugada ao mais cruel verdugo
a cruel mortalha
que cobre a carne viva
é da mais fina seda
especialidade da nobre colheita do oriente
sem saída, aberração
sem salvação neste plano
de certeza crua
e implacável desdém
preso ao valor
e à matéria prima
de alta qualidade
padrão de mercadoria
eu,
acho que penso
Revolução da Vida e da Morte
sobre a vida pública
é perfeita a hora
para semear dúvidas
no mais,
é viver e deixar morrer
e na prateleira guardar
o que não mais servir
pois,
de que adiantaram
todas as paronomásias
se os parnasianos invadiram França
dos bons costumes
ficaste a ver
os vagalumes
já ébrio, distante
de boemia
e decorado com uma cereja
é ordinária
a dulce fava
que serviu exércitos
e honras compradas
é triste igual
todo esse medo
sinal de destruição
é igualmente mordaz
a inteligência
que deixa sequelas
que prometeu o sangue
houve tempo
para imaturidade
domingo, fevereiro 22, 2009
Po.e.si.a
Da expressão sublime e primordial da lingaguem,
Dos adjuntos humanos, da comunicação e linhagem
De relações, o engenho dos corações
E dos célebres cérebros.
Uma construção como qualquer outra, rota de
Um emburrecimento inteligente, o inteligente emburrecido,
Sentido, bruto, refinado. É um tijolo da casa,
A palha da morada, o cimento da idéia.
Poeta entristecido
Poeta triste espalha angústia,
Enquanto poeta entristecido empalha sofrimento,
Pausa no momento exato de seu clímax, seu máximo.
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
(Des)Humano
Divide o pensamento com um murro,
Há o Ocidente de direita
E o Oriente de esquerda.
Tudo trocado,
Troca tudo!
terça-feira, fevereiro 10, 2009
lembrança pós-morte
O que meu subjugador foi na morte
Toma umas rédeas, contrito
e apregoa a boa oração
a mágica
a mágica reflete a beleza do olhar
a pureza do ser humano
que carga humanitária desdobra
perante a nobreza de sua verdade
o que mentiu é o que se foi
mais afastado de todos
porque misturas com o divino
coisas não compreendidas
e mistificadas foram tuas palavras
ambiente oráculo de sua mente
aperto de lembranças agastadas
multidão deveras crente...
sábado, fevereiro 07, 2009
A minha identidade
É meu ato e seu retorno, é meu rosto.
No entanto, ele não precisa ter face,
Porque não há personalidade
Sem fase.
- mais - mais -
Rosto ao contrário,
Espelho com rosto e com mais espelho,
Pentelho ao contrário, duas vezes.
Cabelo jogado para lá, cabelo caído pra cá,
Enquanto a superfície primeiramente mente,
Segundamente, desmente.
Quando és careca, as arestas são as mesmas.
Raspo, alongo, faço plástica, disfarço
Escancaro minha diáspora.
Você nunca vai saber quem sou,
Se ajo como eu ou como outrem,
Quisera Deus que eu fosse só sémem,
No entanto, sou humano, homem.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Punk
Vou te foder, seu filha puta,
Te contorcer, capar tua culpa,
Comer tua bunda.
O negócio é explodir amplificadores,
Peidar, comer hambúrgueres e experimentar
Motocicletas envenenadas, armar
O barraco, o arroto.
Meu moicano, meu cabelo repicado,
Minha jaqueta de couro, meu molho espalhado
No teu lanche vomitado.
O negócio é a bagunça,
A falta de rumo que me excita,
A orgia e a aversão, música.
domingo, janeiro 11, 2009
Glam
Minha boca pendura
O cigarro e a gula,
Pareço maluca.
Sou apenas,
Perua.
Ou peru,
Puro glamour.
Blues
Baixo pra cima, guitarra pra baixo,
Meu negro som em notas, em poucos tons,
Simula coloração, escala cromática
E pura prática.
Ácido
Devora meu saco, revira meu suco gástrico.
Não é droga, não é alucinógeno,
Talvez seja a dor dos estóicos.
Líquido puro e corrosivo,
Estomacal, anormal.
Dor abnominal, bestial
Sensação, compressão labial,
Reclamação matinal.
quarta-feira, dezembro 31, 2008
Intersecção
Mas hoje segue o ritual,
A receita matinal
E a cozinha, que é o homem.
Faz-se todos os dias
A mesma travessia,
O universo interseccionado,
A vida transvestida
Nas fantasias, fico fascinado.
Faz-se todos os dias,
Mas hoje é fim de ano,
Quero um beijo
Na boca,
Pois é um ânimo!
sábado, dezembro 27, 2008
A palavra, quando vibra
O corpo conjuga o verbo palavra
(Viviane Mosé, Toda palavra, p. 30).
Encarei outro livro de Viviane Mosé. Toda palavra. Mais um soco. Na boca. Na boca por onde sai a palavra. De onde ela sai esmagada, estrangulada. Não degustada, mas remoída: “Palavra nasce no corpo. / (...) Palavra precisa de adubo de passarinho”. Conforme o dito na orelha do livro, por Chacal, "Viviane tem um caso com as palavras, na medida do impossível, um caso muito bem resolvido".
E, ao lê-la, quem acaba estreitando um caso mais profundo com as palavras, é o leitor. Se bem ou mal resolvido esse caso, depende de cada leitor. No meu caso, na medida do possível, mal resolvido. Ou melhor, nunca resolvido.
Pensar a palavra nunca deverá ser solução para algo. Estrangular a palavra é saída. É fuga. Fazê-la vibrar dentro de nós é o que nos resta. Sentir a vida através dela. Para daí sentir nossa própria vida. Não há mais o que se fazer.
E é isso que Viviane desanda a fazer em Toda palavra. Com a epígrafe de Arthur Bispo do Rosário, “Eu preciso dessas palavras. Escrita”, tem início o livro. A partir daí, há todo um desenrolar de palavras em linhas curvas. Em linhas com desníveis. Em linhas entrecortadas por facas: “O adubo de palavras mortas prepara palavras novas / (...) Uma palavra limpa é uma palavra possível”. É preciso lavar a palavra suja. Sem esquecer de que “Palavra não serve pra escrever cartas de amor. / Nem pra falar ao telefone. / Palavra não serve pra chorar. / Palavra só serve pra fazer poemas”.
Viviane diz procurar “uma palavra que me salve”. Eu também. Achá-la? Prefiro que não. Para em nenhum momento deixar de continuar procurando-a. Porque procurar por uma palavra que salve é alimento diário. É fuga e é sustentação. É contradição. É vida. Para isso, versa Viviane, “Toda palavra deve ser anunciada e ouvida”.
“Quem escreve escava / O que o silêncio palavra”. O silêncio palavra, sim. Palavra é verbo também: “Os verbos são duros por isso o abraço ao samba”. Palavrar é unir o distante: “Amor são palavras cruzadas”. É aproximar o que não se bica. É recriar sentidos. É vida, outra vez: “De todas as palavras que trago gravadas na pele / Amor é a que me assalta de madrugada. / O amor tem fome, muita fome. / Meu corpo são bocas abertas. / A madrugada me atravessa”.
Porém, ressalta Viviane, “(...) a palavra não sabe o que diz / (...) A verdade é que a palavra, ela mesma, em si própria, não diz nada. / Quem diz é o acordo estabelecido entre quem fala / e quem ouve”. A palavra é roupa que vestimos. E com quais palavras nos despimos, pergunta a autora? Eu, assim como Viviane, “Escorro entre palavras, como quem navega um barco / sem remo. Um fluxo de líquidos. Um côncavo silêncio”. Não me basta. Nunca me bastará. Mas não vivo sem. Sentar na calçada e virar a vida do avesso: “A vida ao avesso não tem fundo nem fim”.
í.ta**
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Sobre o nome
“Como assim italiano?” perguntavam algumas pessoas, com um ar de indignação moderado. E é sim. Italiano de Segunda Guerra Mundial, apenas um parentesco acima de minha mãe, na ordem cronológica. Não é uma descendência muito “alongada”, se é que me entendem, tipo coisa de bisneto. Mas o fato é que o nome marcou a minha vida toda. Causa risadas e algumas confusões. Acho que algumas pessoas o acham ridículo.
O fato é: determinado ano, uma senhorinha um tanto reprimida, coisa freudiana mesmo, resolveu me chamar o tempo inteiro por essa palavra. E ela não era qualquer senhorazinha, pois ela dava aulas tediosas que eu era obrigado a suportar durante um ano. Para mim, na sala de aula sempre se absorve alguma coisa, mas, ao ouvir aquele ser vociferar como se o nome fosse algo bizarro, eu realmente ficava um tanto quanto incomodado, e rancoroso, talvez.
Mas, como é coisa pra vida toda, que eu não pretendia mudar em cartório, fiquei de bico fechado. Talvez tenha dito pra ela uma ou duas vezes o que havia de errado com a bendita palavra. Mas ficou por isso.
A mulher falou tanto naquela palavra, mas tanto, que eu acabei até gostando dela.
Virou meu diferencial, meu nome único, superior.
No entanto, ainda causa risos. Sempre causará. Meu chefe não sabe falar essa palavra, e não parece querer saber. Meu irmão reduz a palavra pra virar apelido. Minha namorada dificilmente pronuncia.
Ao contrário da maioria das palavras italianas, esse sobrenome não é nada famoso.
Pedro Zambarda de Araújo
22/12/2008
segunda-feira, dezembro 15, 2008
Erro de Português
Regra dramática,
Pois teme a desgraça
Da tragédia e da falácia?
Não seria o sintaxe
A padronização e o encaixe,
Da falta de criatividade?
Não seria a concordância
Uma mera discordância
Dos ligamentos dos termos,
Do silêncio tenro
De meu desejo?
Se não são nada disso, eu sou o erro,
A sedução do descuido, o esmero
Vagabundo, o desespero.
Ou talvez seja apenas um errinho
Que a borracha pune, que se cobre
Com "branquinho".
Nunca morre
Nunca morre, corre muito, torce a palavra, contorce significado, predicado, espaço, poesia é expressão, poema é a extensão, termos usados à exaustão.
sábado, dezembro 13, 2008
Sujeito e Predicado
Apertava os olhos para enxergar melhor o final da rua, algum sinal dos comboios que faziam o percurso centro-interbairros. Um transeunte conhecido mascava chiclete.
A boca que mastigava, escancarada, atraía as pupilas que levemente reconheciam um rosto familiar. Ruidosamente, o transporte estacionava com um trinado estranho, sobressaltaram-se os presentes. Embarcou.
O aniversário da vovó. Ela sempre gostou de doces. Ultimamente, não podia levar nem uma balinha de anis à boca. Sofrendo de várias "Ites", incluindo uma tal de diverticulite, seu leque alimentar restringia-se a suquinhos de soja, arroz, feijão e chuchu, todos processados no liqüidificador. Um iogurte de vez em quando era saudável, dizia minha tia.
A família e a sua bagunça de sempre. Cansado de correr atrás dos primos, espiei pelo muro os vizinhos que também estavam em uma reunião de família. Ela se achava lá. Quem eram os vizinhos? Eu a conhecia de algum lugar. Algum lugar... Que sensação chata.
A ponte. Observara de longe, a pessoa acompanhada de amigos loquazes. Óculos escuros. Chiclete ruidoso. Erguera os olhos. Não acreditara até dobrar uma esquina. Amaldiçoara a ponte.
A rua de casa. Lar doce lar. Invadido por aliens. Reminiscências? Hama-mu?
Enlouquecia. Bufava. Sorria.
Eu a tinha visto, em um ponto de ônibus diferente.
Óculos escuros e chiclete escancarado. Eu havia me lembrado.
De que conhecia aquela pessoa de algum lugar.
Entre um evento e outro, anos haviam se passado. Anos e anos. Vivendo e vendo. A outra pessoa. Não se aproximara, sequer acenara. Limitara-se a observar.
Imensa interrogação. Inquietação, angústia.
Na faina da escada rolante, logrado os destinos, se é que existiam, tão particularmente obtusos. Um subia e o outro descia. 180 graus. Incredulidade.
No mesmo dia, em um banquinho de praça, degustando um saudável sanduiche. Estendeu a mão, e foi em um terno aperto de mão que a voz se fez ouvir.
- Tudo bem?
- É, tudo.
Virei-lhe as costas.
Costumo visitar o mesmo lugar, raso de lembranças. Ainda esperando um olhar.
domingo, dezembro 07, 2008
abraçar o sol sob um pé de cebolinha
Chuva ele sentia lhe sorrir quando a ouvia. Uma relação bastante íntima, de cumplicidade. Arco-íris também podia dizer que escancarava o sorriso a ele quando a encontrava. Neste caso, muito em função do próprio formato que o arco-íris adquire no céu, confessava. Diferentemente de mar, por exemplo, que, enquanto elemento da natureza, era apaixonado por, achava-o belo e sincero, mas, enquanto palavra, não lhe transpirava a mínima confiança e simpatia, dando-lhe a impressão de gritar sempre que falava.
Tinha que tomar muito cuidado para não sentir pela palavra o que seu significado apresentava, sabia disso. Mas com algumas palavras não conseguia dissociar esse gostar delas como estrutura do que elas significavam ou representavam. Vento, por exemplo, era palavra livre, leve e solta, tal qual o próprio vento era-lhe. Já madeira era palavra intransponível. Seca, fria, nem ousava mais se aproximar dela.
Não tinha lá muito apego a palavras que eram verbos. Pareciam-lhe sempre irritadiças, incomodadas com algo. Evitava pensar nelas. Preferia ir à procura de palavras mais leves, como azul e travesseiro. Amava viajar na pronúncia de travesseiro. Muito melhor do que dizer cobertor ou escuro; palavras carrancudas estas, afirmava. Linguagem era palavra suave, apaziguadora. Sempre disposta a lhe dar um minuto de atenção que fosse. Parecia-lhe a “mãe de todas”.
Mas era com a palavra palavra que mantinha uma relação secreta e inebriante. Viviam uma paixão escondida, da qual ninguém desconfiava, nem jamais soubera. Sabiam guardar segredo, sabiam respeitar a privacidade de cada um, sabiam quando era hora de se ver novamente. Aprenderam juntos a empinar pipa em cima de nuvens, a abraçar o sol sob um pé de cebolinha, a roçar os telhados do prédio mais largo da cidade, e não pararam de saltar do alto de um formigueiro ao encontro do sol à meia-noite. Viveram explorando ao máximo os subterfúgios que só mesmo a palavra podia oferecer quando bem tratada por alguém. Era ali que se encontravam. Era ali que a paixão existia. Por ali é que estas linhas foram escritas.
domingo, novembro 23, 2008
Vaso
No centro de seu crânio, um buraco
De urânio, pronto para explodir e implodir.
Mas outros são vasos,
Nada escassos, guardam objetos,
Às vezes dentro do formato estético,
Às vezes dentro do uniforme patético,
Mas sempre vasos, espaço
Vazio ou preenchido.
Saudade de poetar
No mundo dos macacos, das criaturas nos cantos,
Dos encantos e das idéias em sacos.
Soltar a decepção com o próprio desempenho,
Arrebentar as amarras do formato ou do pensamento
Livre em pleno descaso, focar o ato, o lado produtivo,
A arte do riso.
Saudade de poesia e de poetar,
Como no pomar das notas
Livres a cantar,
Saudade de lirismo e de amar
O seu riso em meu ciso,
Como uma presa decorativa,
Atração reativa.
Poete, poete este verso,
Repete os nomes do velho
Universo perdido, um ninho
No ópio do seu tédio, pronto
Para o nascimento.
Discursos
Faz de tudo.
Um pensa que a vida está uma maravilha,
Vive a milhas de distância da trilha.
Um não sabe de tudo, mas tem discurso bruto,
Revolucionário inculto.
Vários podem ser assim, acidentes de retórica,
Comodismo e história.
Um balbucia palavras, sussura idéia pouco explorada
Para um público em franca decadência, cego e na demência.
domingo, novembro 16, 2008
Colegas
De inexperiência, preconceituosos ociosos,
Crianças na ciranda da vida e do insosso.
Colégio interno, régio contato,
Fictício laço, maço de cigarro
E entorpecimento.
Vejo barcos afundarem
Nas cirandas, vejo andarem
Sobre o cadáver de quem
Desistiu, de quem regrediu.
Colegas partem do parque,
Da vontade, da vida em cheque,
Colegas partem do tempo
E do professor possesso, do proceso.
Colegas são um constante devir,
Um mártir do magnífico sentir-se
Solidário, visionário, retardado
Diante do estranho,
Solitário.
Bossa velha
Em um calor atroz
Nas ondas de Copacabana,
Em nossa copa, você me abana.
60 anos de
Um violão e uma voz,
E chega de saudade,
Chega da saúde,
Chega, chega
Na foz do rio e desagua
Nos mares, entre os seres.
sábado, novembro 08, 2008
A subversão culpada
Dez narrativas. Abrindo cada narrativa, uma epígrafe escolhida a dedo, cuidadosamente, que seduz o leitor para aquilo que virá nas próximas páginas, as dez personagens-leitoras. Cada uma com uma história muito própria com relação a algum livro. A culpa é sempre do livro. A culpa pelo bilhete perdido, pelo desejo incomum de devorar os livros cheirando-os, pela solidão e loucura provocadas por uma ausência de livros. A culpa pela busca do nada. A culpa pela exaltação da inutilidade. As melhores coisas da vida não servem para nada, e nem precisam. Construir junto a algum livro uma história própria é algo maravilhosamente inútil feito por cada personagem-leitora do livro de Gómez.
Inutilidade esta representadora de um ato subversivo. Talvez o ato mais subversivo dos dias de hoje. Mergulhar na história de um livro, abraçar este livro, torná-lo algo inerente a si, e, principalmente, deixar claro o desligamento das coisas mundanas no momento em que se lê tal livro, são ações que assustam e que incomodam muito a quem não as vivencia. É o sujeito-leitor, hoje em dia, o maior revolucionário, aquele que se incorpora a um livro para engendrar-se na vida.
Livros, sozinhos, não fazem ruídos. Acumulam pó. Livros são exigentes. Para movê-los, para extrair deles algum som possível, exige-se grande esforço. Ser leitor é colocar-se à disposição deste esforço. É o leitor o ingrediente fundamental de uma história. Um leitor perspicaz, sensível ao que existe ao seu redor. Um leitor que trata a leitura como interação com o mundo e consigo mesmo. Um leitor corajoso, que a todo o momento se vê diante de escolhas a fazer, que vive sempre uma batalha em busca de algum sentido. Um leitor de livros errantes, que sente demais o medo de passar um livro para a frente.
Estes sujeitos-leitores presentes em A culpa é do livro representam também o leitor trazido por Piglia, em O último leitor. O leitor extremo, sempre apaixonado e compulsivo; viciado, que não consegue deixar de ler, insone, sempre desperto, para quem a leitura é uma forma de vida, para quem a literatura dá um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica. São, estes sujeitos-leitores, os últimos leitores, aqueles leitores em busca do sentido experiência perdida, que dão à literatura uma utilidade inimaginável. Que dão ao livro uma vida transformadora.
Trecho do livro:
“Quando voltei a ler a frase daquele poema, lembrei-me, surpreso, que existia um bilhete dentro de algum livro da minha biblioteca, guardado propositadamente para que eu pudesse ler, muito tempo depois. Minha mente tinha aparentemente criado um bloqueio em relação àquele pedaço de papel e, após todos estes anos em que nem sequer me lembrava de sua existência, fiquei curioso pelo seu conteúdo. Mal sabia onde poderia estar escondido, depois de anos, e nem o que ele dizia.
Talvez algumas pessoas saibam a minha idade, aparência e profissão (muitas vezes tentei não mentir!), mas todos esses dados não me descreveriam por completo. Os livros, eles sim, conseguem me expor como um espelho sem máscaras, embora com algumas vírgulas e reticências. E pelo que lembrei agora, também por alguma ou outra história incompleta contada em algum bilhete esquecido entre suas páginas.
Minha biblioteca abriga diversos volumes, de várias gerações. É verdade que ela já não é tão completa, mas ainda restam aqueles de amor secreto. Não sei quantos deles só abri para folhear e quantos li, de fato. Cultivei o ato da leitura sabendo que nenhum livro é o primeiro, e nenhum é o último. Sempre percebi que formar uma biblioteca é um ato de criação; assim, como considero livros o principal instrumento da imaginação, não os leio tentando aprisionar o superficial. Todos esses livros são, para mim, companheiros vivos, que sorriem, choram, abusam, formam, acalentam, respiram. Minha surrada colcha de retalhos literários. Convivem pacificamente entre novos e velhos, lidos e esquecidos, clássicos e anônimos e valem pela satisfação que provocam em quem os têm nas mãos. Eu os sinto todos ligados a mim por laços invisíveis e remotos”. (do conto O bilhete perdido, pp. 24-25).
sexta-feira, outubro 31, 2008
Anti-decepção
Quando o cético vira o ético,
Quando o pé vira a mão,
Quando o céu vira o mausoléu.
Você não deixa de acreditar,
Mas o seu suspiro vira escama
E o seu libido, chama.
Um pequeno apelo, sem nenhuma poesia
domingo, outubro 26, 2008
nu
o homem está nu
ele tirou suas roupas
tirou suas jóias
livrou-se de adereços
sufocou sua vida
arrancou sua pele
amputou seu ego
se despiu do preconceito
saltou fora seus medos
abandonou seus desejos
esqueceu seu passado
esqueceu seus sonhos
curou suas feridas
desistiu de suas ambições
perdeu seu ódio
agora sobra apenas
o que realmente importa
vazio
sábado, outubro 25, 2008
Conjunto solução inteiro
Alienante do instante
Em vigência, uma tendência
Em colapso num mundo
Relapso de imundos
Conceitos.
Portador da chave
Que o senhor entrave
Insiste em proclamar:
"O senhor é a margem,
O centro e a estalagem,
Em ti passam todos os barcos,
Por ti juntam todos os espaços".
quarta-feira, outubro 22, 2008
Conjunto solução vazio
E para qualquer outro valor no sentido horário.
Assume-se um relógio com dois ponteiros,
Como na definição, o sentido horário é o negativo,
Tão negativo que seu avançar traz o desespero.
Cada segundo que passa, o tempo é gasto.
O tempo chega, talvez seja a hora, a hora final,
Aquela hora onde a vida se resolve, obrigatoriamente.
O dia onde não haverá amanhã e o hoje próximo é escasso;
O dia onde o basta acontece, a dor finalmente finda-se...
Os problemas desaparecem, a angústia some,
O dia onde o tango argentino é finalmente tocado
E a única coisa a fazer já foi feita...
Odeio o dia, não este... Mas seu conjunto complementar.
sábado, outubro 11, 2008
Hallucinogenas
Posso ver em seu olhar
O monstro que machuca gente
Sem um momento de paz
Confusão e indecisão
Pobre valentão
Sem dó, exigente.
Mãe amada
Recomeçou
Repetirei mais uma vez
Seu mundo – meu mundo
O suplício da indecisão
Decisão atroz, incompetente
Incompletude inadimplente
Estado de desânimo
Uma loteria, uma lástima
Esta espada, o amargor.
Não guardo remorso
Posso enxergar e não posso ler
Posso andar e não posso mover-me
Afundado na cama, os escombros
O grito da alma mutilada
Ecoa na folha de poesias
Pelo que eu fiz
Visito o exílio
Simpático, esboça riso.
Já é mais do que tarde
Ventos do exílio
Curvam-se, polêmicos
Dobram palmeiras, araucárias
Ingazeiros, Flamboyants e Ipês
Verde à mercê
Para voltar atrás
À força engastado
Em campos belicosos
Carniças ardem com o fogo
Que a ira ateou
Os ventos do exílio levam
Devagarzinho
O Sombrio Lamento
Que seja capaz de semear a tristeza
Que congela a vingança
A que horas virá?
Sempre esperei por ela
Quando todos que encontrei
Esqueci de quem devia lembrar
E procurar, o que mais?
Faltam os remédios!
...eles me divertem...
Liquidam as sensações.
Eles vão
Nada restou, apenas uma história sem mãe
E a dor desta noite punge
Dizendo maliciosa:
“Tome um banho de sangue”
E a vingança charmosa
Chamusca o peito do jovem refinado
Fumegando a dor do exílio
De suas próprias lembranças
Eu esquecerei de quem procuro
Mamãe por favor, me ajude
Não a verei mais
Um por um
Tenho pouco tempo
Antes de dormir a ilusão dos séculos
Onde corpos jazem em receptáculos minúsculos
Comida dos cães
Bebi seu sangue, comi seu corpo!
E minhas lágrimas ainda não secaram!
Embrulharam-me o estômago.
Seus olhos
Quando
As outras víboras lhe levarem
Cave seu túmulo
Já não intercederei mais
Seus pálidos olhos frios
Despojado do próprio rosto
Por sua vontade cometi seus melhores erros
Todos que encontro ouviram seus lamentos
Através do vento do exílio
Ignorando as lembranças do passado amargo
Arrancaram-me da pele pesada chaga
Todas as crianças
Vomitei seu vômito e ingeri sua bílis
Mas ainda esqueço o teu nome
Nome de salvador
Recordar-me de sua face, nem nos sonhos
Por sua glória
Cuidado com sua própria virtude
Tombam as máscaras, deitam por terra os medos
Mas o calafrio ainda persiste no lamento
Aquele vento vivo,
Que dobra as árvores
Devagar marcham
Em fuga desconhecido
Descontrolado
Mordi seu braço
Andei sozinho
Tentando ao máximo não esquecer
De quem eu era
Para a morte
Quem, por estas chamas
Por capricho do precipício
Puxou-me do salto
De planar rasante
Todas as suas crianças
Preferi não consolar a morte
Mas estão me privando
Da consciência
As complicações e falta de sossego
Dores de cabeça
...minhas amigas
Perderam-se
Faltam remédios
--- esqueci de seu rosto mais uma vez
Olhe por onde anda
O grito da alma ensandecida
Rasgou a goela do tempo
Faz pingar o escarlate
Do passado
Calcinado
Pois vai perder-se também
As pessoas apavoram, e olham
E não estão mais aqui
Mas sinta! Os gritos ainda ecoam
É melhor aproveitar
E concordar a sofrer as conseqüências
Faltam remédios, sim, faltam remédios
E o suplício ainda não decide a angústia
À primeira vista pode faltar amor
e os grilhões invocam a dor
Faltam remédios, e eu suplico ao grito
Levante meu vento!
Não há mais
Fingir problemas que não comigo
Nadar no rio onde desovam peixes triviais
Camões entulha-me de superficiais
Vil contratempo
É Contra o vento
tempo
Choca meu lamento
Através dos tempos
Chega ao destino
E desafina
Não há mais
Se há uma coisa que não admito
É desarmonia
tempo
Espatifa-se – tiraram-me a voz
Sobrou o murmúrio das árvores
Que dobraram o vento
Vejo coisas
Estou no comando
Segurando
Todas as cordas
Dos movimentos das marionetes
Dos perdedores
Em suas mãos de assassino
Que não se cansa de prejulgar
E cometer sacrifícios ousados
Porque o grito que alerta a alma Que já perdeu tudo
Ainda te causa dor
demais
Mas não fique preocupado, apenas deixe-me daqui sair
Ouve este sussurro? Para além do verde distante e pálido
Merece um outro olhar
Eu digo – isso é bloqueio
Uma perversidade
Deles, que estão por toda a parte
Vigiando os sentimentos e rendendo toda gente
Vejo coisas
Exilaram meus movimentos
Momentos partiram-se em pedaços
Cansado, dormi em seus braços.
Demais.
quinta-feira, outubro 09, 2008
Pátria amada, Brasil!
Teu espírito, senhoril,
Respira um ar pueril.
Seu moleque senil!
quarta-feira, outubro 08, 2008
cenidistante
enquadrados no silêncio
tique taque de seu peito
és uma máquina, é verdade
mas tão verdadeira
quanto o lobo e a coruja
asinhas delgadas,
fitas de silêncio
pouca voz e sorriso.
energias na espinha
hostis
sinto-me no escuro
tétricas,
horrendas
és prática
rotina fatal -
queima-me as retinas
por um relance de amor
queima, queima,
como agulha na brasa
os minúsculos pontinhos
encarnação da derrota, um fiasco.
domingo, outubro 05, 2008
már
morrendo à noite
na beira da praia
engolindo as estações
o estrondo de àgua
castigando os rochedos
fustigando os sentidos
fugindo em asas delta...
sibila o vento - enreda os pés
na areia de diamante
nos cabelos o torvelinho
saltado das falésias
o mar está morrendo
e você ainda sonhando...
poema sobre experiência
o amado leito de morte
decorado com algodão-doce
e atroz bílis, o açoite;
estende seus lençóis, garras
ágeis e senis
Na face, de lado a outro
risca altivo, um esgar
brota mais sorrisos frios
tão distantes deste débil
vestindo trapos de Brasil.
sexta-feira, outubro 03, 2008
Descaminho
Sistemas, distrações, reinvenções.
A criatividade implodida,
O coito interrompido.
sexta-feira, setembro 26, 2008
caminho
mapa, bússola, sextante, GPS, navegador
pra que antever meu caminho
se o meu nariz sempre aponta onde devo ir ?
segunda-feira, setembro 15, 2008
A harmonia da transcendência
Ou o sintético,
Fazendo o surdo,
Ou o patético,
A lisergia e a orgia
Racional continuarão.
Pelas cordas vibrantes,
Pelas nuances ondulantes,
Eu permito ao diamante louco
E insano o brilho profano e puro
Das minhas teclas espaçadas,
Do meu teclado harmônico.
Pelas notas inseridas e tocadas,
Faço você sentir o paraíso,
Procuro o riso contido
E seu choro mais desgraçado.
Vamos juntos viajar
Nesse mar de nuvens cor-de-abórbora,
Na abóboda do seu festejar.
Entendo em três sentidos
quarta-feira, setembro 10, 2008
Velkinta Kadavro
Por linda forma, num branco vestido,
Ofuscava a tudo enquanto o lindo sorriso
Brilhava, rutilante; Dizia eu: preciso!
Preciso vê-la, logo ali, adiante
Tão longe, inalcançável... Tão distante...
Dois passos, um universo interminável...
Esplendorosamente inigualável!
Imóvel como estátua, enevoada,
Parada ao longe apenas observando,
Entre as nuvens do céu admirando,
A alma triste que soluça, desgraçada.
Pobre ser que não pode fazer nada,
Que sente a vida para sempre malograda:
A essência do mundo que o conforta,
Jazia em sua frente pálida... Morta...
quinta-feira, setembro 04, 2008
o livro
Autor: Francesco Petrarca
Texto: Meus amigos
Livro: A paixão pelos livros
Ano: 2004
p. 51.
Editora: Casa da palavra
quarta-feira, setembro 03, 2008
Saudade
Antes tudo, tão próximo
Mas a distância do espaço
Gerou a distância do tempo
Esqueço de qualquer imagem, realidade
Quem é esse que me abraça
E me esqueço?
Imagem que sigo, esquecida
Tão protegida, e de tanto, bloqueada
Um ídolo que sigo e nao vejo
Admiro-o sem lembrar
Uma infância perdida...
Em apenas doze horas de distância
Inspiração
Que nunca me deixa só
Uma imagem cobre-me a lembrança
E não me deixa ver além
Respiro saltitante
Coração palpitante
Por que me afundas
Em mares de saudades?
E tão logo recobro a consciência
Ainda inquieta e saudosa
Repasso-te em pensamento
Papel, tinta ... escrevo
sexta-feira, agosto 29, 2008
Escultura
Andai por caminhos torturantes, tortuosos
Todos lotados, cheios disso tudo!
Passa não passa, passa não passa!
Para onde vais com tanta pressa?
Se muito parado estás?
Estática Cidade, cresce um porém!
Algo não sai, não floresce
Mas está perto, está sob o solo
Nasce a crise, estática crise!
Permanente crise, crise cheia!
Estamos cheios disso tudo!
domingo, agosto 24, 2008
Podresia
Não necessariamente poética,
Que não possui uma rítmica bem formulada.
A podresia é aquela poesia morta,
Não necessariamente aritmética,
Que descreve vasos em versos decassílabos.
Ela também não é paralelística,
Mas nunca se encontra com seu significado.
Ela não possui significado,
É uma poesia corroída,
Mas não ao ponto de tornar-se vendida.
Na realidade, é uma poesia vadia,
Totalmente mal-escrita, sem cuidado,
Feita por não-poetas às pressas,
Com letras grudadas, bem presas.
A podresia é um lirismo de palavras vãs,
Todas presas ao nada e jogadas ao vento;
É à poesia e à arte um imundo desalento.
Desprezível e mefítica reunião de palavras,
Que apenas toma o tempo curto do leitor,
Obnóxia abjeção feita com o inverso de primor.
É uma a-poesia que nada contesta;
A charneca literária oriunda do marasmo,
Onde verso atrás de verso é um inútil pleonasmo,
Mais mal feita que a podresia... Só existe esta.
sexta-feira, agosto 22, 2008
alguma coisa de muito diferente

fiz a leitura de De repente, nas profundezas do bosque, do escritor israelense Amós Oz, e, novamente, durante e após a leitura, o sentimento de que a literatura provoca no ser humano algo que foge de sua compreensão me invadiu. é uma sensação muito boa, alguma coisa de muito diferente de todo o resto. ainda bem que não consigo mais viver sem sentir isto. um livro após o outro. um sentimento que complementa o outro.
uma fábula muito gostosa, sem maiores enrolações, escrita com leveza. os capítulos são, em sua maioria, curtos. não são todos os capítulos que terminam fazendo alguma ponte direta com o próximo. não há essa necessidade.
em uma aldeia pacata não há bicho algum. o que seria um mistério, é tratado com certo descaso pelos adultos. não por algumas crianças. poucas. três ou nove. o mergulho delas em tal mistério é o fio condutor da narrativa. elas sentem que há algo a mais naquele bosque. seus olhos imploram por novas imagens. elas não recuam. e... (é fazer a leitura e descobrir o que elas descobrem; ou não).
nunca havia lido nada do escritor israelense. se a primeira impressão é a que fica, esta é muito boa. é um livro infanto-juvenil. desconheço se o único do autor para essa faixa etária. independentemente desta categorização, é um livro para todos aqueles que se dispõem a se aventurar por entre árvores e personagens, mergulhando no mistério da solidão humana e animal.
í.ta**
domingo, agosto 17, 2008
Silêncio, ruído e comunicação
Há uma verdade rejeitada,
Há uma inércia involuntária,
Há uma manipulação inventada.
Há vozes, simples ruídos,
Há um silêncio constrangedor,
Há um interloculor medroso,
Há um mundo tenebroso.
E há, quando saímos de chiados e paralisias,
Quando a voz assume timbre e rítmica,
Uma breve comunicação.
De resto, tudo é apenas sons e vácuos.
Ideologia
Enquanto o conservador repete um discurso conhecido,
Enquanto os embates ficarem na revisão do conhecido e público,
Eu vou querer que a ideologia se exploda, esse mal bem recebido.
Não vou sonhar utopias,
Não vou fixar pernas em uma realidade momentânea,
Vou caçar um pensamento e uma filosofia contemporânea,
Vou unir rebeldes e tradicionais, orgulho e revolta,
Eu vou ser completo nas minhas alegorias.
segunda-feira, agosto 11, 2008
sábado, agosto 09, 2008
Paralogismo
Do falar prolixo
E do olhar em riso.
Gozação, piada, mentira
Do discurso, do impulso até a alucinação.
Silogismo
Do meu terço, que oro,
Frases estão avulsas, coro,
Estamos no seio do meio
Que nos indica ao finalizado.
Começo, meio, fim.
Do sujeito-objeto
Aos detalhes do trajeto
Que guiam o fim completo.
Prosa Idiota I
Me desloco um pouco, a paisagem, ela está deserta.
Noto que a choupana que se situava ao fundo, ao lado da colina, não emite mais a doce fumaça da lareira que esquentava seus moradores.
Nossa! Haviam moradores, mas... O que lhes ocorreu?
Fui averiguar... Abri a porta, noto uma ossada totalmente decomposta; vermes banquetearam naquela casa. Mas... O que faço eu num lugar tão longe? Não devia estar na cidade? O que vim fazer por aqui?
Existe cidade?... De onde me veio esse conceito: "cidade"?
A neve está acinzentada. O que está havendo nesse lugar?
Noto o céu, há uma lua brilhante, mas contracenava com a tenra luz do dia de sol tímido de inverno. Esse lugar, não me faz sentido...
Alguém, há alguém por aqui? Há?
# ## # ### # # ## ## # ### #
Que barulho é esse?!
# # # ### # ## # # # # ## # #
Alguém me respondeu, mas é um crocitar!
Há um corvo nessas imediações... Não só um corvo, as árvores, elas não desfolharam somente, elas estão mortas.
Está se adensando uma névoa obnóxia, ela me sufoca, me faz querer correr.
Pusilânime, não consigo. O tremor me faz evitar os movimentos.
...
Existe! Existe! Existe!
Olho ao meu redor. Há cinzas, não neve, ela se acinzentou cada vez mais.
O céu está numa vermelhidão, cor de sangue, uma atmosfera escarlate.
O ambiente está cada vez menor, as árvores estão se contraindo, há forças ocultas atuando sobre nossos corpos.
Uma atração gravitacional, eu suponho... O que é gravidade?...
A família! Ela morreu, morreu de peste!
A choupana, a choupana exalava um doce aroma de lareira porque eu morava lá.
Por que eu não moro lá?
Por que morreram?!
Por que eu estou vivo.
Eu NÃO estou vivo...
Este é o ...
...
quinta-feira, agosto 07, 2008
Tres Haicais
Decreto
força de sol maior
desce a corda até fá
mas esquece mi
Morte
Espero que seja
rápido e indolor
o disparo
Derreto
Olho para a névoa
de linho branco
derreto n'água
Terror
Nos olhos esbugalhados
Que a admiração embrulhada
Conjuga com os estômagos contorcidos.
Terror roto em terremoto,
Rosto ligado ao pescoço rouco.
Comédia
Enquanto as caretas dizem,
Decididamente,
Que a realidade é uma farsa,
Pois o coração está nas traças.
Drama
Enquanto o mundo roda, enquanto o vivo se aloja
Nas impressões individualizadas.
Nossas caretas ficam eretas,
Nossas palavras ficam suspensas,
E a falta de verbalização deixa a situação
Menos picareta.
Drama é tensão,
Mas o tenso não vive sem o líquido
Racionalizado, pensamento.
Tragédia
Sorrir sabendo do lacrimejar,
Acabar a melodia depois de solfejar.
Trágico é ser homem,
Criar e destruir deuses,
Pegar fiapos e soltar o sentido,
Crer no eterno
Enquanto nossas impressões somem.
Morte certa e errada
Na mente que sente a lente de repente,
A visão obscura, a perda latente.
Morre-se muito, morre-se todas as vezes,
Morre muito nas vezes em que as fezes
São os restos de gente.
Morreu de câncer, morreu no lance
De sacada, na bancada do hospital,
Sem as amarras do pecado capital,
Morreu feliz, morreu por um triz,
Podia viver sempre.
Morreu na batida policial,
Na colisão frontal, na corte marcial,
Morreu bestamente, morreu subitamente
Da morte mais morrida de todas,
Na queda mais sofrida de todas.
Morre-se de um jeito, morre-se de outro,
E, na real, a vida é só uma morte sem sentido,
Uma observação positiva, um medo destemido,
A vida é a morte que a morte nunca teve desejo.
domingo, agosto 03, 2008
Teu medo
De balas perdidas, de corrupção incessante,
de mosquito egípcio, de crise permanente?
E fazes o quê? Choras?
Choras o sangue espirrado, o dinheiro perdido,
a doença-epidemia, o futuro esquecido?
De medo fazem tua cabeça
uma bagunça covarde e reprimida!
Mas, o caos do dia é mantido.
E ainda te dizes correto?!
Por sentar e esperar,
por dizer e sentar!
As desculpas correm, o moedo fica.
Culpas e te desculpas.
Pobre de ti, que hipócrita sê na vida!
Medo está em mudar.
És estático!
És obsoleto!
Muda e transforma!
Se tudo está assim,
tu és isso tudo!
segunda-feira, julho 28, 2008
Sob o signo sem ver.
Solene atina,
O hábito de sofrer.
Igual fruta caída,
Hesita em amadurecer.
Queda, distante,
Qualquer sonho a ter.
Insone, sente a manhã.
Incólume, insípido amanhã.
Descompasso, todos compromissos.
A sua vista outros iludidos.
Como homem que é.
Transeunte ou altaneiro.
Altíssono compadece.
Mítica simbiose
De ser e desespero.
sábado, julho 26, 2008
Silêncio ou a Tentação do Não-Falar
Pensar fugiente como jamais visto antes;
"Por que falar?" dizia, "Para que dialogar?"
Não faz mais sentido o ato de conversar.
Incomunicável, é o que o fato parece
"Comunicação não! Falar não me apetece!"
Fome por dizeres, o anseio, a expressão...
Não complementam mais minha alma da razão.
Resta para todos apenas o silêncio,
Silêncio que amarga os tão controversos versos
De significados paradoxais, dispersos.
Resta para todos apenas o silêncio,
Não silêncio surdo, que é apenas ignorado,
Mas silêncio mudo, dum agora calado...
Pensamentos sobre a Filosofia do Jornalismo #2
O terror mais sincero e duro
É ser o momento.
Tormento puro.
Pensamentos sobre a Filosofia do Jornalismo
Quando a notícia abandona o formato digitado,
Eletrônico,
A informação passa a trafegar em pé,
Separar-se de forma, ser um além
Dos formatos, passa a ser contato.
Eis que surge o indivíduo jornalístico. Ele não é uma colagem de revistas, nem jornais. Ele não é um chip de informática, nem é notícia que respira e sobrevive. O jornal, o diário, o cotidiano, o ordinário é o imediato, o sensato, o esclarecedor. Ele carrega e não carrega as incoerências do cotidiano. Nenhum cristianismo, nenhum mito e nenhum cientificismo encostou no homem-jornal. Nem mesmo o super-homem do bigodinho.
O jornal
Carrega as incoerências
Sem apelar para a demência,
Sem cair na dependência,
Ele não é Deus,
Ele não é homem,
A atualidade é a metamorfose,
Aquela não podemos deter, a simbiose
Da osmose que é não poder se controlar,
Não poder se tocar.
Indivíduo jornalístico irá compreender o panorama.
Irá investigar as minúncias,
Desmontando o programa.
Indivíduo olhará para a história,
Perdoando os assassinos,
Julgando apenas os erros
Disciplinares, as linhagens
Dos traidores.
O culpado pedirá pela morte,
Pedirá pela tortura, um forte
Sentimento masoquista,
E o indivíduo jornalístico
Corromperá com sua palavra.
O jornal penetrará no ser humano,
Não mais com número limitado de espaço,
Nem com gênero categorizável,
Será comunicação pura e mudança madura,
E todas as palavras terão sentido,
Ungido pelo terror que é a esquizofrenia.
O homem-informação,
A desinformação declarada,
Será um arauto a ser temido,
Por seu olhar, que é um cupido.
Apaixonado,
O ordinário homem compreenderá que
Diante do indivíduo jornalístico,
Não há basilisco
Da criação humana como arma.
Verás, por esse indivíduo,
O fim da imaginação,
Fim da sua personalização.
Pois o presente como verdade,
O duelo da ascensão,
Revelará todo resto como simulação.
quinta-feira, julho 24, 2008
Estudos Poéticos 2
espero que gostem :)
-------------
Adágio
Dor. Por ela, o violão chora.
e seu braço deita
Lenta e dolorosamente
Verruga
Ò verruga, serei capaz
Passar uma dura
à saliência tão desnuda
Canora
O cantador no peitoril
Cita arpejos, preso:
Liberdade, que já voou.
quarta-feira, julho 23, 2008
terça-feira, julho 22, 2008
sobre a poesia
1ª lição
Rosa daninha:
Você quer que eu te ensine poesia e se confessa envergonhada da própria ignorância. Mea Culpa, Rosante! Não te ofendo por ruindade, mas de leviano que sou. Teus versos são maus, mas puros – o que é uma qualidade. Falta informação, cultura a você – sensibilidade você tem de sobra. Ler O Estrangeiro do Camus e gostar, na tua idade e com a tua formação, é algo admirável por si só. Entretanto, você acha Drummond um chato, o que é um crime de lesa-pátria. Certas coisas são sagradas, Rosinha. Não existisse Drummond e hoje eu seria um próspero vendedor de ações. O mal dele é que encalacra na gente, como certa menininha, princesa de castelo, que eu conheço. Às vezes escrevo versos e percebo que há mais alguém participando da tarefa – esses malditos fantasmas, grandes demais para caberem no túmulo. Vivem se metendo na obra alheia.
Mas vamos à aula de poesia.
Artigo único: poesia não se ensina.
Está encerrada a lição. Mas, para não decepcioná-la por completo, falarei da poesia em geral, já que não posso ensiná-la. Antes de mais nada, dê uma folheada em algum manual de literatura (serve enciclopédias, daquelas que o teu pai compra em metro) para familiarizar-se ligeiramente com a História. Itens de pesquisa: Homero – Classicismo – Barroco-Arcadismo (ou neo-classicismo) – Romantismo – Parnasianismos – Simbolismo – Modernismo – Concretismo.
Pronto? Ótimo. Se não entender alguma coisa, não faz mal: esse pessoal todo já morreu, e em geral eram muito chatos. Conclusão primeira destes três mil anos:
- a poesia não é rima
não é forma
não é metro
não é papel cuchê de primeira
não é assunto
não é necessariamente música
não é estrofe
não é profundo mergulho na individualidade humana
não é uma borboleta voando
a poesia não é nada.
ou seja
que porra é a poesia?
Conclusão segunda da revisão histórica (preste atenção, Rosânida!):
- como não há mais nenhum discípulo de Homero e a Grécia virou uma bosta, como os clássicos da Renascença eram muito posudos, como os barrocos faziam piruetas, como os árcades só cuidavam de ovelhas, como os românticos morreram todos tuberculosos, como os parnasianos eram a última raspa do tacho da boçalidade acadêmica, como os simbolistas compensavam a falta de assunto com Iniciais Maiúsculas, como os modernistas envelheceram, como os concretistas, práxis, poetas-processo e suas cinco milhões de dissidências cooptaram todos pelas agências de publicidade:
ESTAMOS LIVRES!
HIP! HIP! HURRA
Não é um alívio, Rosaflor?
Isto facilita as coisas. Por que buscar um fio de meada que talvez tenha se perdido para sempre? Ora, a solução é cristalina. Não existe a meta-poesia?
Pois acabo de inventar a mata-poesia.
A mata-poesia (nada a ver com ecologia!) propõe o assassínio da Poesia. O Esquadrão Matapô não terá piedade: matará, estraçalhará, estrangulará tudo o que aparecer por aí sob o codinome de Poesia. O filho da puta do poeta que aparecer com textinhos mimeografados, com vanguardas obsoletas, com tiradas de cinco estrofes, com rimas ou sem rimas, com vaguezas sonambúlicas, comícios e aquilhos, saudades, dores, fragmentação do ser, trocadalhos e poemas em geral, estes comerá o pão que o diabo amassou. Para se filiar ao Matapô basta ser poeta e colocar seus préstimos a favor da destruição final da poesia. Vamos extirpar de vez esta vergonha nacional, esta horda de mendigos bem nutridos. Ofereçamo-nos em holocausto. Ave!
Rosance, essas cartas me estimulam! Refaço agora o título da aula: onde se lê A POESIA AO ALCANCE DE TODOS, leia-se A POESIA AO ALCANCE DO BRAÇO DE TODOS.
Porrada nela!".
Livro: Trapo
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Brasiliense
Ano: 1988
pp: 113, 114, 115.
terça-feira, julho 15, 2008
Como matar Deus (e se matar)
Refutar a garra que me agarra
Na masmorra que é vida, armadura.
Primeiro veio o homem,
Ou o homem veio a si, primeiramente,
A existência veio do sêmen
Nadador e penetrador do óvulo, somente.
Humanos olhos que enxergam,
A mente que fala, a esquizofrenia
Que trepa com nossos genitais,
Resvala nos pensamentos difusos,
Nasce uma imaginação.
Imaginação é senso,
Senso em conjunto vira consenso,
Imaginar é ser tenso,
É deixar de ter um olhar tenro.
Surge o superior,
O que fica abaixo e o interior,
Pode ser um homem de barba branca,
Ou uma pomba retardada, também manca.
Deus dialoga com o homem
E este apenas fala consigo,
Não porque é pecador,
Mas porque é amador.
(de si próprio, iniciante e penitente)
Dentro de tantas mitologias,
Transpassando as igrejas e as mesquitas,
A herança final do rito é o grito da razão,
E a esquizofrenia duplica, é a cisão
Dos saberes, a desapropriação
Desproporcional, idéias em suspensão.
Veio o sangue pelo nome divino,
Veio o equívoco científico,
(Cruzados e Bombas Nucleares, qual é o pior?)
Dormem os meninos entorpecidos,
Vieram todos os símbolos e todos os fantasmas,
A humanidade se revelou no miasma.
Surgiu um bigodinho maroto
E disse que Deus estava morto,
Surgiu um turbilhão de fragmentos,
O homem voltou a viver o momento.
Da apneia dos conflitos,
Surgiu a mais atéia das composições,
E a mais religiosas das confusões.
Ateu, tua religião é um Deus
Da negação, uma afirmação,
Uma admiração inimiga.
Negar o superior virou desculpa
Para selar a catapulta
Do assassinato,
Para quebrar a crença
Com o tesão cético.
Não se desacredita em Deus por vontade,
Mas deixa-se de acreditar por maldade.
Vingança é o credo do ceticismo,
Matança de seus órgãos internos,
Cínicos.
(onde foi parar o fim da Igreja?
vocês fundaram um ritual da suspeita,
um terrorismo de nascença,
não é um Deus tão temido
quanto o mais antigo?)
(homem sempre cria ´Deus´
nem sempre com um nome, nem sempre como um dos seus,
mas imaginar, enlouquecer e admirar são o crer e o cegar)
(somos estrangeiros, somos extraterrestres,
crentes ou desordeiros,
estamos sempre a pensar, ser.)
Estudos Poéticos
É tão doce
Que o vento soprou
É assim que sei
O som
Sabe
A saudade me seca
Suspiro e silêncio
Ouça
Esta solidão
Será serenata?
É só sensação...
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Música para ser ouvida:
Revèrie - Claude Debussy
Enjoy!
domingo, julho 13, 2008
A Floresta
Fadiga
Dos retardos constantes
Em mi, fá, sol, lá, lá em casa,
Na morada dos párias,
A fadiga diária.
Casa do violão, da guitarra,
Imprecisão da garra, cãibra,
Barba ralada, casa com o nada.
Pouca poesia
Que assopra no teu peito,
Que proseia no anseio
De te ver sem meio termo.
Lança a enzima
Da palavra, a esgrima
Da frase, da oração, do verbo,
De tudo o que for concreto e curto,
De tudo o que for ação no escuro.
E me anima.
O Templo das Pedras
o sábio
cria astuto enigma
é ilusão má
Ecoa o tempo e as tênebras
e roda
força os eixos e pára.
mental
Paranormal, é mistério
e solução
Uma mística reclusão
um labirinto
As asas presas a correntes
nem cera
Restitui a liberdade
ainda falta
metade do quebra-cabeças
quinta-feira, julho 10, 2008
Aqueles versos
Sorrindo tudo azul
Há um colar de bonecas
Rodeando duas canecas
Você quer mais o quê? Um bidet?
Um beijo gorgolejante,
Panquecas e CD's?
Construir um palácio despidos em um tanque
E depois nos afogarmos
Para o bem do bebê
Amanhã já foi descoberto
Porque nunca saberá o que é pena
De reunir tantos versos
Para um quadro azul
Deram-me um corpo
mas é de papel
Naufragam, os barcos
Tombam lânguidos, dentro do tonel
(ah!)
Louco com uma águia
Pena de bordel
Machucam toda noite, olho para o teto
lambuzo o céu
Peço-lhe que remende
Aqueles traços infantis
É tão decadência
Vejo:
Cabeças em alfinetes.
E a platéia aguarda-me com um atraso
E mais uma vez
Deslumbro decotes com simpatia
Todo mundo consulta seu relógio
é a ponte que liga
esperançosamente à pieguice
Oh, falta-me um inconsciente de uso
Falta-me um consciente humano
Falta-me uma dúvida munida
De pontuações descabidas
Falta-me luz e sombra, ser cruz e tumba
Falta-me uma graça perversa, à sombra dos fracos
Falta-me perversidade graciosa, prepúcio e bunda.
domingo, julho 06, 2008
feia escura e morta
muito abaixo
num pequeno beco entre duas ruas desertas
um saco plástico
negro como a noite, a escuridão, e a morte
ele brilha fugazmente sob o luar com com belos nuances e tons de branco reflete fiel e disconexamente a luz das estrelas, que são suas guias, as únicas e caladas testemunhas daquele triste fato
por dentre muitos desses sacos, que sobre o frio e estéril concreto repousam em seu descanço
está pousado wachintom
o jovem garoto está magro, seu olhos estão secos, e em sua boca, junto à várias escarras de infecções, pousa um sorriso pleno
o sorriso pleno, sorriso pleno daquele que é amado, aquele que é feliz, aquele que tem tudo que sempre quis, e mais nada deseja, sorriso de satisfação, felicidade e plenitude
em suma, o sorriso que muitos poucos podem ter, que só os têm no momento junto à morte
calmamente, fria, e sorrateiramente, o hálito quente da vida escoa de seus pulmões, corre pelo chão sem caminho, e sem destino, perdido num universo q eu não é dele, até que é devorado pelos ratos que por ele ansiavam desesperadamente
de seus magros dedos da mão direita cai um pequeno saquinho transparente, com um liquido amarelado e grudento, o único amor daquele garoto, o único motivo dele existir, e ter vivido até agora, seu caminho, o caminho que ele escolheu, o caminho mais fácil, o único caminho feliz
os ratos andam, e encontram o garoto, e por cima dele perambulam, procuram um lugar para morder, e seguir sua vida. mas até os ratos têm nobreza, e respeitam um cadáver jovem em seus primeiros momentos, além do mais, a carne só tem o melhor gosto após 3 dias
se vão na sua luta por uma vida, apenas isso, apenas uma, e apenas vida
do outro lado dos sacos, um casal e namorados anda pela rua, felizes, seu amor contagia, seu amor de carinhos, atenção, dedicação e felicidade, o típico amor que emigra ao nascer do sol
as pequenas folhas de grama no concreto não sabem, se sorriem e contemplam o amor, ou se se contentam em ser as únicas nesse mundo à guardar luto pelo jovem wachintom.
mas, eis que, não por milagre, desgraça, ou destino, mas apenas por coincidência, o brinco da jovem que na parede mais próxima segura ao seu amor, cai, e rola para os sacos
ela o procura, e encontra wachinton, com sua pele negra como muitos, sofrida como tantos outros, e horrível como poucos. olhando em seus olhos, com sua mão esticada parecendo uma garra, e pedindo por carinho
a moça, em sua ignorância juvenil, grita aterrorizada, e corre, seguida de seu consorte, abandonando o pobre e solitário defunto
ao longe, um grande urubu se alimenta no grande lixão da zona norte da cidade, ele ouve o grito, e sente em seu coração o terror, e logo sabe que ali está a morte. e levanta vôo buscar os restos deixados pela bela dama
ele pousa sobre a cama de sacos
olha o garoto com seus velhos olhos, e diz:
acabou garoto, não adianta mais ficar ai abaixado e chorando
não adianta, procurar por seus saquinho, você não pode tocá-lo, nem sentir seu efeito
o garoto diz:
calaboca, me deixa em paz, eu preciso de mais, preciso do meu amor, preciso sentir de novo, preciso sentir a felicidade em mim de novo, preciso de quem me ama e me entende. preciso pra saber de novo que os homens não são nada além de cachorros, que só precisam do seu saquinho que ama
o urubu baixa seu bico, suspira, e fala:
garoto, você não entende, isso não é amor, é cola, ela não te faz feliz, só te dá uma sensação boa, e te faz esquecer como a vida é dura. isso é para os fracos, eu conheci muitos garotos como você, e você é o único que não morreu de tiro. agora me ouça bem, você está morto, não pode cheirar, não pode fugir, não pode dormir, ou sonhar, a vida é o aqui e o agora, e aquilo que você vestia, onde você vivia, agora é minha comida da próxima semana inteira, agora saia daqui, e me deixe comer sem seus resmungos, pois logo outros maiores e mais jovens virão, e eu poderei ficar com fome
o garoto começou à chorar, o urubu pousou sobre o seu peito; onde um coração ainda insistia em bater fracamente, à despeito da morte de todo o resto; e bicou seus olhos que ao vazio pediam alento. o garoto saiu correndo, frio, vazio, e sem forma, aos soluços tropeçou e nas sombras se perdeu
(inspirado tropicália, de caetano veloso ( http://letras.terra.com.br/caetano-veloso/44785/ ))
sexta-feira, julho 04, 2008
Academia
Recrudescimento de vocabulário,
Reclusos alunos no calvário,
Ensinamentos totalmente arbitrários.
Uma misantropia manifesta,
Uma sociologia dispersa,
Universidade sem faculdade,
Faculdade universa.
Frases do fim do começo do dia.
Estavam eu e meus vinte anos. Cansados e com as pálpebras piscando involuntariamente - cabeça doendo - crianças gritando nas têmporas. Qualquer frustraçãozinha era motivo de quebrar copos, rasgar livros, entortar os óculos e cheirar meias sujas de ontem. Eu procurava soluções dúbias para uma produção procrastinada há muito tempo. Contemplava com o olhar desfocado o quarto imenso, mergulhado em um prato cheio de cores e possibilidades. Várias são plangentes a ponto de desviar-me da minha tarefa principal - aquela tela quadrada, cujas letrinhas pareciam me desafiar a cada momento que eu desafiava a continuar acordado. Eu versus o relógio. Ora, eu já havia gritado antes muitas vezes com Deus, pedindo para que esticasse só um pouquinho a duração dos dias... mas antes que eu novamente me distraia a ponto de perder uma frase genial para este texto, é importante mencionar que a Internet era safada e maliciosa. O Youtube te tragava para uma vastidão surreal de possibildades. A Wikipédia era uma biblioteca indócil, consumidora maldosa de horas. Ah, como eu gostaria de funcionar 24 horas em total lucidez, sem pausa para sono. Eu queria dormir. Maldito botão editar!