Segunda-feira, Julho 06, 2009

o leitor


À parte as muitas e importante razões estéticas, acho que lemos romances porque nos dão a confortável sensação de viver em mundos nos quais a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece um lugar mais traiçoeiro (Umberto Eco, 1994, p. 97).
Assisti, nesse domingo, ao filme O leitor, que rendeu o Oscar 2009 de melhor atriz à Kate Winslet, pela marcante atuação. Já havia lido o livro, há três meses, mais ou menos, e acabei não indo atrás do filme (muito pela minha preguiça em me colocar à frente de uma televisão). E eis que nesse final de semana ele “apareceu” lá em casa, fruto de um empréstimo feito por minha namorada Nice junto a uma amiga sua.
Tomei coragem, então, após muito me enrolar para isso, e me deitei no sofá para assisti-lo. Tive que fazer isso de modo “quebrado”, é verdade, pois aguentar duas horas de filme é exigir muito de um ser sonolento como eu. Assisti a pouco mais de meia hora num dia, e ao restante no dia seguinte. E consegui chegar ao final!
Achei-o brilhantemente lindo. Mesmo já conhecendo a história, sempre há aquela interrogação: será que haverá muito de diferente para o livro? E isto é bom, pois mantém a pessoa atenta ao filme. Não tenho bagagem cinéfila para fazer aqui colocações mais aprofundadas sobre o filme e todos os aspectos de produção que o cercam. Estas linhas são dizeres simplórios sobre uma obra que suscita algumas reflexões no mínimo interessantes. E não faço referência somente ao caso de amor entre um adolescente e uma mulher mais velha, nem à 2ª Guerra Mundial e ao Holocausto, a este assunto que é tema recorrente de recentes produções literárias e de cinema.
O que mais me encanta na história de O leitor, tanto a descrita no livro por Bernhard Schlink, quanto a forma como foi filmada, é a força com que a literatura dá novo significado à vida da personagem Hanna, interpretada por Kate Winslet. Uma analfabeta que a todo custo, por vergonha, escondeu que não sabia ler nem escrever, chegando ao ponto de se prejudicar ainda mais no julgamento em que era acusada de deixar morrer trezentos judeus, e de abrir mão da aventura amorosa vivida com o ainda garoto Michael Berg. Garoto este que não entende o sumiço de Hanna, e que, mais para frente, já cursando a faculdade de Direito, depara-se com um julgamento em que uma das acusadas é Hanna. E é nesse momento que ele entende porque Hanna tanto lhe pedia para ler para ela. A rotina amorosa dos dois seguia este ritual: fazer amor, banhar-se juntos, e ele ler para ela. Até o momento em que Hanna some sem deixar vestígios nem explicações, o que só será compreendido mais à frente na história.
E é na parte final desta história que Hanna aprende a ler e a escrever. Na prisão, a partir das fitas que o menino-já-homem-feito Michael Berg mandava a ela, com as histórias de alguns livros que lera para ela quando no romance de verão que eles tiveram. Histórias como “A Odisséia” e “A dama do cachorrinho”. Hanna vai à biblioteca da prisão e pega um dos livros gravados por Michael, e ali, ouvindo e acompanhando no livro, ela descobre as letras, as palavras, as frases, e os sentidos que pode construir junto a elas.
O leitor é não só uma história de amor, ou mais um ponto de vista sobre o extermínio de judeus. É, também, mais uma possibilidade de sentir os alcances da literatura: o quanto ela pode ressignificar vidas e estabelecer elos duradores. É como afirmou Pennac: a virtude paradoxal da leitura é a de nos abstrair do mundo para nele encontrarmos algum sentido.
Í.ta**

Sinuca de bico

Se eu não acreditar em Odin,
Não irei para Valhalla,
Se eu não acreditar em Zeus,
Irei da mesma forma para o mundo subterrâneo,
Se eu não acreditar em Júpiter,
Terei o mesmo destino de cima,
Se eu não acreditar em Alah,
Não terei minhas 50 concubinas virgens,
Se eu não acreditar em Krishna,
Não atingirei o Nirvana,
Se eu não acreditar em Buddha,
Não alcançarei a iluminação,
Se eu não acreditar em Mitra,
Talvez aconteça algo ruim,
Se eu não acreditar em Baal,
Vou mal nas guerras,
Se eu não acreditar em Jeová,
Vou arder no inferno,
Se eu não acreditar em Deus,
Não vou para o Paraíso...
São justos esses deuses medíocres?

Domingo, Julho 05, 2009

O despertar do poder supremo

como despertar o poder
engastado nas entranhas
mais viscerais do senhor doutor
martela-se o pé, quebram os estribos;
arremessa-se a bigorna contra os detritos

livra-me disso por escrito
dê-me a única razão que não se abala
circunscreva todas as circunstâncias não circunscritas
e sobreviva à relação mais duradoura com seu empecilho favorito
é um mero atrito, mas que por desserviço achou melhor não se fazer de mito

um atrevimento só poderia ter lhe custado mais que a cabeça;
donde há de vir rolar mais do que idéias soltas
mais do que o sangue carmesim que flui
um deus de nanquim, plúmbeo
registrado, para sempre
neste blogado

Terça-feira, Junho 30, 2009

Fera-Eu

Uma vez o espelho rosnou
Desejou a liberdade
Estraçalhou a realidade

Uma fera quer ser liberta
E os ouvidos afiam suas garras

O espelho cresce conforme o admiramos
A realidade mostra-se hostil diante do desejo

Estraçalha o espelho, e tudo vem à tona
O desejo é podado, as mãos se cortam

Estanca-se o ferimento
Lava-se as mãos
Procura-se outro espelho

Segunda-feira, Junho 29, 2009

narcirexia 2

"Olhe para si mesmo

não enxerga além? Mais do que seus vibrantes olhos

inescrutáveis

mas ousam sonhar, perscrutadores..."


Quem é
O garboso jovem do sorriso doce
aparência tenra, beleza ímpar
um dia, beirando um lago
viu-se refletido
no espelho de águas

e curioso, procurava o irreconhecível

provando do seu mais malvado, irônico
destrutivo e corrompido

contempla o rosto, descontente
buscando o ser mais desumano

impassível, cruel-homem

o inimigo e irmão discreto

esquecido, passou tempos espreitando
uma fraqueza, criança tola

detém a força, recaída

e porventura mostra-se dócil e insolente

recalcado - gêmeo por natureza e separados por narciso

ao se atirar nos braços de eco


bem vindos à percepção irreal da persistencia
de uma subjetividade perversa
maligna até o osso
inconseqüente de raiz

Os dois jovens encaravam-se

mediam forças
tête-a-tete, de olhos injetados
disparando falácias que incidiam em ângulos incongruentes
centralizando mil sotaques de idiomas diferentes
sem conseguir pôr de lado um abraço
o bendit frut de vos ventre, do mágico
e da branca de neve.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Narcirexia

mira em cima
mira de lado
qual será o certo
e qual é o errado

a vida pelo retrato

dizer quem é
sem ao menos saber
se espelhar na dor

vira de lado
vira em cima
diga quem ser
sem demora

porque vaidade
não tem hora

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres


Voltei à Clarice semana passada. Para lê-la faço assim. Leio um aqui outro acolá. Desestrutura-me a escrita de Clarice. Encarei, então, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, um livro que começa com uma vírgula (o significado de que há algo antes disso, antes da história, antes do livro, antes da personagens, antes de tudo) e termina com um dois pontos (há algo a ser completado, pelo livro, pelos personagens, pelo leitor, por tudo).
Há uma frase de Clarice antes do começo da história: “Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu”. Uma frase que muito representa Clarice e sua escrita. Uma frase que já prepara o leitor para o que virá adiante. Uma aprendizagem. Com dor, com angústia, com prazer.
Conheci, então, a história entre Loreley (Lóri) e Ulisses. Narrado em terceira pessoa, o livro apresenta como vivenciar uma forma de amor. Lóri é de família de posses, de origem agrária. Vive no Rio de Janeiro, separada da família, sozinha, trabalhando como professora primária. Para manter um padrão de vida acima das possibilidades de uma professora, Lóri recebe mesada do pai. Ulisses é professor universitário de filosofia. Aos poucos se percebe que Lóri está "aprendendo a amar", ou a "ter prazer", com Ulisses. São vários os momentos narrativos em que isto fica explícito: ela está sendo "preparada para a liberdade por Ulisses", "Ulisses determinará quando ela estará pronta para dormir com ele".
A aprendizagem do título é o caminho que percorre Lóri enquanto dura a narrativa. Caminho este que será finalizado quando Lóri estiver "pronta" para dormir com Ulisses. Significa, com Ulisses, aprender ou descobrir o prazer para além do meramente sexual: algo como um amor total, pleno. A busca de Lóri era também por um aprendizado de se tornar um ser humano. Uma aprendizagem para além dos limites do compreensível: “A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano”. “(...) queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia”.
“Mas sua busca não era fácil. Sua dificuldade era ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível”. E, para ajudá-la nessa busca, ali estava Ulisses, com seus dizeres: “Aprende-se quando já não se tem como guia forte a natureza de si próprio. Lóri, Lóri, ouça: pode-se aprender tudo, inclusive a amar! E o mais estranho, Lóri, pode-se aprender a ter alegria!”; “(...), viver é tão fora do comum que eu só vivo porque nasci. (...) O óbvio, Lóri, é a verdade mais difícil de se enxergar”.
Esta é a travessia do livro, a trajetória a ser percorrida pela personagem. Uma trajetória densa, na qual o leitor entra sem saber para aonde irá. Uma trajetória que se torna uma aprendizagem, um conhecer-se mais a si mesmo. Acompanhar Lóri, ouvir as frases filosóficas de Ulisses, exige uma entrega, pois “(...) não é mesmo com bons sentimentos que se faz literatura: a vida também não. Mas há algo que não é bom sentimento. É uma delicadeza de vida que inclusive exige a maior coragem para aceitá-la”.
í.ta**

Sábado, Junho 06, 2009

mulher [- reloaded]


vontade, muita vontade
desejos incontroláveis que não são entendidos
um sexto sentido que não se pode ignorar, mas que às vezes falha
um temor incontrolável pelo bem estar de aluguém que está muito longe
[e que talvez outros o teriam esquecido]
eterna sensação de que há algo de errado
eventual sensação de quem mais te ama, não te ama
costumeira sensação de que ninguém te ama
sensação de que o chocolate te ama
impressão de que há algo sobrando, e não é um filho
rara sensação de que há algo à mais, e é um filho
impressão de que não se sabe onde está, quando se sabe