domingo, março 23, 2008

trecho 5.

Em uma parede escura
num castelo muito antigo
há uma pintura que deveria ter sido bela
porque as pessoas não param de olhar para ela
e sentar-se ao redor
para ouvir histórias

essa pintura está muito feia
gasta pelo tempo
muito velha
a minha mãe não iria deixar que eu a trouxesse pra pendurar em casa

o artista pintou um Cristo
de braços estendidos
todo espasmos
sofrendo o martírio mais cruel da época

A dor era grande, mas Cristo sorria
e contava muitas histórias para quem chegava ali
alguns adormeciam embalados no torpor
e outros escutavam vidrados - ou desconfiados

e enquanto eu ouvia

via vultos arrastando-se como traças
ao redor do corpo de Cristo na parede escura
ladeado por seus pobres apóstolos feitos de pastel
e sua mãe que pranteava inconsolada com a perda
a angústia eternizada em seu rosto lacrimoso
exultantemente devorado por um verme
que encontrou uma iguaria excepcional

que mistério doloroso na história sobre a cruz!

os buracos, segundo me disseram
deixaram de ser furos há séculos
são grosseiros rombos sem remendos.

eu visitei o quadro na parede escura
querendo afastar uma dúvida
que sufocava meu coração
e Cristo disse-me assim:
-volto em 3 dias, qualquer coisa deixe seu recado com Maria Madalena.
Aí fiquei puto da vida. Respondi assim:
olha, Sr. Cristo, eu prefiro que o senhor volte com uma história melhor...





Feliz Páscoa pra vcs :D

2 comentários:

ítalo puccini disse...

cenário horripilante este! é a real... muito bem feito.

belo retrato de um retrato já gasto pelo tempo.

Í.ta**

Pedro Zambarda disse...

O Cristo em falas antecipadas.
As traças deixadas =]

Traças cristãs.